Em 16 de agosto de 1888, Modesto Stella saiu da Itália em direção ao Brasil em busca de uma vida nova. Começou trabalhando para barões do café em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Economizou o que podia e, depois de 22 anos, conseguiu comprar um sítio de dez hectares em Andradas (MG), a 35 quilômetros de distância da cidade paulista, onde passou a plantar café e um pouco de uva para fazer seu próprio vinho.
“Naquela época as variedades de café eram aquelas originárias da Etiópia, com produtividade baixa. Em 20 anos os pés já não produziam mais nada. A essa altura arrancaram o café e plantaram uva para vender para vinícolas que já estavam instaladas em Andradas”, conta José Procópio Stella, trineto de Modesto e atual dono da Vinícola Stella Valentino.
O produtor diz que, no começo, quase toda a uva era vendida para vinícolas da região, como a Basso e a Bertoli, também fundada por italianos, e 2% a 3% das uvas eram usadas para produzir vinho para consumo próprio. Com o passar dos anos, a vinícola também passou a produzir vinho de mesa.
Quase 100 anos depois do início da produção de uvas da família, em 2002, José Procópio, que trabalhava como agrônomo em outras culturas e fazendas, decidiu voltar para a propriedade para transformar a vinícola em produtora de vinhos finos.
“Nessa mesma época começaram os estudos da [Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais] Epamig sobre a dupla poda. A Epamig fez os testes aqui comigo, e hoje tenho mais de 100 variedades em estudo na propriedade”, relata o produtor.
A qualidade dos vinhos finos produzidos na Stella Valentino está diretamente associada à adoção da técnica da dupla poda, que inverte o ciclo produtivo da videira e permite a colheita no inverno, período mais seco e favorável à maturação das uvas viníferas.
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José Procópio fez uma substituição gradual das videiras e passou a produzir uvas Sauvignon Blanc, Syrah, Tempranillo e Marsanne. Hoje, a vinícola produz em torno de 18 mil garrafas de vinhos finos por ano. O projeto é estabilizar a produção com 25 mil garrafas por ano. Esse aumento ocorrerá gradualmente, à medida que houver a troca de videiras antigas, e as mais jovens entrarem em fase de produção.
A vinícola produz sete rótulos de vinhos, entre brancos, rosé e tintos. Alguns rótulos são premiados. O Tempranillo 2022 foi o grande campeão da categoria Tempranillo no All The Best – Grande Prova de Vinhos do Brasil 2025, com 93 pontos e medalha duplo ouro.
O Tempranillo Gran Reserva 2023 conquistou medalha de ouro no Brasil Selection 2025, edição brasileira do Concours Mondial de Bruxelles. A vinícola se prepara agora para concorrer no Decanter World Wine Awards, maior competição mundial de vinhos.
José Procópio diz que não pretende expandir mais a produção. A aposta do produtor é no enoturismo. “O turista fica hospedado em uma casa antiga da propriedade. A gente conta história da imigração italiana e da viticultura em Minas Gerais. Faço a degustação harmonizada de sexta a domingo”, diz o produtor.
Vinícola produz em torno de 18 mil garrafas de vinhos finos por ano
Divulgação
A vinícola também faz eventos para turistas apreciarem vinhos assistindo ao por do sol e jantares com harmonização de vinhos. A próxima atração será um wine bar, previsto para ser inaugurado no primeiro semestre.
José Procópio diz que a maior parte das vendas de vinhos é destinada a restaurantes e redes de supermercados. Mas a meta é conseguir vender no mínimo 70% da produção diretamente aos consumidores na propriedade, que atualmente recebe em torno de 1 mil visitantes por mês.
A Vinícola Stella Valentino recebe apoio do Sebrae Minas, que orienta produtores por meio de capacitações, incentivo à inovação e ações voltadas à ampliação de mercado.
“O apoio contribui para a inserção da vinícola em espaços estratégicos e amplia a visibilidade dos rótulos. A participação em feiras e eventos do setor, como o Origem Vulcânica, aproxima o consumidor final da nossa produção, valoriza os produtos do sul de Minas e estimula o enoturismo”, destaca José Procópio.