No quilombo tocoiós de Minas, no Vale do Jequitinhonha, na região norte de Minas Gerais, o cultivo de algodão remonta a tradições e costumes ancestrais que pareciam ter se perdido. Os produtores da comunidade colhem a pluma e a descaroçam, separam e fiam manualmente para dar forma a cortinas, redes, tapetes e outras peças que, outrora, foram a principal fonte de renda na região.
“O algodão era a nossa sobrevivência. A gente usava para cama, roupa, banho, e o que sobrava ainda vendia para comprar outros alimentos, para complementar. E não existia outro tipo de algodão, só o nosso algodão de quintal mesmo”, conta dona Maria Emília Alves da Silva, de 70 anos.
O algodão de quintal, como ela chama, é um tipo de algodão arbóreo perene cujo cultivo predominou no país até o início da década de 1980. Naquela época, o Semiárido era o principal polo de cultivo da pluma no país. Com o impacto positivo da cultura na geração de renda e sua resiliência à seca, ela passou a ser conhecida como “ouro branco do sertão”.
A falta de chuva compromete cultivos anuais, como feijão e milho, mas não o algodão arbóreo, que continua vivo – e, assim como outras espécies da Caatinga, rebrota após a primeira água. “O algodão arbóreo tinha uma importância econômica muito grande porque, além da pluma, havia também a produção do caroço, que se oferece aos animais. É por isso que o binômio algodão-gado sempre foi muito forte no Semiárido”, observa Marenilson Batista da Silva, pesquisador da Embrapa Algodão.
Foi justamente essa associação que garantiu a rentabilidade do algodão no Semiárido até o início dos anos 1980, mesmo com a baixa produtividade da cultura, observa a engenheira agrônoma Lúcia Hoffmann, também pesquisadora da Embrapa Algodão. Para efeito de comparação, atualmente, a produtividade das lavouras de algodão do Nordeste é de duas toneladas por hectare, segundo as estatísticas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A pesquisadora tem se dedicado a tentar encontrar e catalogar espécies de algodão arbóreo existentes no aís. A presença em uma grande fatia do território nacional e o aparecimento quase espontâneo em áreas de preservação ajudam a contar a história do cultivo da pluma no Brasil desde antes da chegada das primeiras caravelas portuguesas.
“O algodão é fundamental para o sistema agroflorestal por ser produtivo e resistente à estiagem, além de bonito” — Nelson Araújo, produtor na Bahia
Maria Emília Alves da Silva, do quilombo Tocoiós de Minas: colher, descaroçar e fiar o “algodão de quintal” fazem parte da rotina da produtora
Kika Antunes-Associação Tingui
“No norte da Bahia, onde eu andei mais, o pessoal tem muita saudade desse algodão porque, quando tem um período de seca, é preciso esperar chover para plantar. Mas, no caso do algodão arbóreo, com uma primeira chuvinha ele já rebrota e produz”, afirma a engenheira agrônoma.
Ao todo, existem três espécies diferentes de algodão arbóreo no Brasil: o Gossypium mustelinum, nativo do país e com presença marcante em áreas de mata ciliar da Bahia, o Gossypium barbadense, que está nas terras que hoje compõem o Brasil há pelo menos 700 anos, e o Gossypium hirsutum da variedade maria-galante.
Também chamado de mocó, ele teria entrado no país no fim do século XIX para, de acordo com a principal teoria de pesquisadores, ser plantado no sertão por causa da boa resistência da espécie à seca.
“O Semiárido brasileiro era basicamente todo algodão arbóreo. Tem algumas regiões que são inclusive centro de origem. Mas, com a chegada do bicudo, em 1983, mudanças no sistema de produção, a introdução de maquinários e a migração da cultura para o Cerrado, a cultura começou a perder importância gradativamente”, relata o pesquisador Marenilson da Silva.
O bicudo é a praga mais destrutiva da cotonicultura brasileira. Entre 1983, ano de aparecimento do inseto no Brasil, e meados da década seguinte, a área de cultivo de algodão no país diminuiu 60%. A ação do bicudo foi a responsável pelo virtual desaparecimento do algodão arbóreo, dado que a principal medida de controle do inseto foi a adoção do vazio sanitário, período em que é proibido manter pés da pluma no solo.
Com esse manejo, o algodão arbóreo tornou-se uma “planta non grata” nas zonas de produção comercial da pluma, levando-a praticamente ao extermínio nos anos 1980.
A propriedade de Nelson Araújo em Jequié (BA): algodão árboreo e outras 100 espécies compõem dois hectares de agrofloresta
Nelson Araújo / Arquivo Pessoal
Quatro décadas depois, o arbóreo resiste na Caatinga, à qual se adaptou, e é mantido por comunidades tradicionais, que usam a fibra para tecelagem e, além disso, têm com ela uma conexão cultural. Em muitos casos, a planta é um insumo para fins medicinais.
“É um remédio que você pode dar para adulto, para criança, para jovem. Ele não tem restrição nenhuma”, afirma Lourdes Fernandes de Souza, integrante do quilombo Kalunga, em Goiás. “Para nós, encontrar o algodão é algo bem natural. Todo mundo tem no quintal.”
Nas comunidades, a planta é conhecida, por exemplo, por suas propriedades cicatrizantes e antissépticas, em particular para mulheres em condições de pós-parto.
Em Jequié, no sudoeste da Bahia, a memória da onipresença do algodão arbóreo em quintais e jardins inspirou o produtor Nelson Araújo a incluir a planta em seu sistema agroflorestal, batizado de jardim Magnólia em homenagem à esposa do agricultor. “Eu conheço o algodão arbóreo desde criança. Aqui na Bahia ele está em todo lugar até hoje. Em muitas propriedades, sempre tem um pé de algodão grande”, relata.
A planta é uma das 100 espécies que Araújo escolheu para formar seus dois hectares de agrofloresta. No sistema, a pluma garante a oferta de massa verde mesmo nos períodos mais secos do ano. “O algodão é fundamental para o sistema agroflorestal por ser produtivo e resistente à estiagem, além de bonito. Ele faz parte do bioma da Caatinga”, afirma.
Tradição em xeque
Mais de 1.000 quilômetros separam os quilombos Kalunga, em Goiás, e Tocoió de Minas, em Minas Gerais, mas uma preocupação une as quilombolas Lourdes Fernandes de Souza e Maria Emília Alves da Silva. Ambas têm dúvidas sobre o futuro da tradição de plantar e fiar o algodão em suas comunidades.
“A gente não tem mais motivo para fiar. As roupas estão vindo prontas, e até o tecido da coberta o povo também deixou de fazer. Estão comprando pronto”, comenta Lourdes, do quilombo goiano.
A avó da quilombola, que tem hoje 92 anos, fez a última coberta da comunidade. A peça resiste ao tempo exposta em um museu.
A confecção das cobertas, produzidas manualmente e tingidas com pigmentos naturais de angico e pau-brasil, ocorria em grupo, um trabalho que, ainda assim, podia se estender por até um mês. A relíquia guarda história, afeto e memória. “Minha avó produziu essa peça com a família, com pessoas que nem estão mais entre nós”, afirma a quilombola, que reconhece: “É uma tradição que se perdeu”.
Assim como Lourdes, Maria Emília é uma das poucas mulheres de sua comunidade que ainda preservam a tradição de fiar o algodão. Ela conta sobre o tempo em que a atividade integrava comunidades sertão adentro, com grupos de fiandeiras em pelo menos quatro regiões. Hoje, apenas duas comunidades ainda preservam a tradição.
“Tenho filhos, sobrinhos e netos que aprenderam comigo a fiar, mas só uma filha ainda faz o meu trabalho. Os outros abandonaram”, lamenta.
E há outras possibilidades de aproveitamento, como a utilização da planta como forragem. Araújo conta que sua intenção inicial era justamente a produção de biomassa. Os pés de algodão arbóreo chegam a render um bom volume, segundo ele. “Dá para fazer uma camisa pelo menos”, brinca o produtor.
Para a pesquisadora Lúcia Hoffmann, o algodão arbóreo é um verdadeiro protetor do solo. Além de ter raízes profundas, ele é um bom formador de micorriza, nome dado à simbiose com fungos e bactérias que ajudam a planta a aproveitar melhor a água e os nutrientes do solo. A Embrapa Algodão tem feito estudos sobre essa capacidade. O objetivo desses esforços é desenvolver bioinsumos para aplicação tanto no cultivo da pluma quanto em outras lavouras.
No ano passado, laboratórios da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) receberam amostras da pluma de algodão arbóreo de Jequié e região para que os pesquisadores pudessem avaliar as características técnicas e o potencial de aplicação da planta na indústria têxtil de base sustentável.
Pé de algodão arbóreo: com raízes profundas e boa capacidade de formação de micorriza, a espécie é um verdadeiro protetor do solo
Raquel Souza-Associação Tingui
“Alguns estudos mostram que a fibra de alguns tipos de algodão arbóreo é um pouco mais longa, o que permite produzir artigos de valor agregado mais alto. Isso tem avançado bastante”, afirma Adriano Passos, pesquisador do Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras da Firjan.
O projeto, que ainda está em fase inicial, tem como objetivo oferecer uma alternativa de renda à agricultura familiar que possa integrar sistemas agroecológicos. O consórcio do algodão com outras culturas poderia marcar o retorno do mocó ao sertão décadas depois da crise do bicudo. “A minha experiência, ainda não comercial, é de que o algodão mocó poderia ser uma grande alternativa para produção da agricultura familiar”, comenta Nelson Araújo.
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Alessandra Zanotto Costa, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), acredita que isso pode gerar também ganhos sociais, já que o cultivo deverá se concentrar entre pequenos produtores. “E de um modo muito apurado, a exemplo do que acontece com os cafés de altíssima qualidade”, avalia.
Segundo ela, o segmento faz uma leitura positiva sobre as iniciativas para reintroduzir o algodão mocó no mercado, mas desde que esses esforços incluam medidas de prevenção ao bicudo.
“Uma praga mal controlada pode colocar uma atividade econômica inteira em risco. Acredito que a pesquisa científica e o desenvolvimento de tecnologias podem chegar, em algum tempo, a uma solução que viabilize o plantio do arbóreo sem comprometer o cultivo convencional, que faz da Bahia o segundo maior produtor de algodão do Brasil”, afirma a dirigente.
Nesse sentido, o plantio em sistema agroflorestal tem sido a principal resposta às pragas e doenças que hoje causam prejuízo em lavouras de larga escala de algodão, baseadas em monocultura. “O bicudo fica longe de mim. Eu nem sei que bicho é esse”, garante Nelson Araújo, que afirma não registrar o aparecimento dos insetos em suas lavouras há 11 anos.
Aluno de Ernst Götsch, considerado referência em agricultura sintrópica no Brasil, Araújo tem usado o equilíbrio do sistema a seu favor para obter um algodão agroflorestal e orgânico, sem o uso de agroquímicos.
“A vivência agroflorestal parte de uma dinâmica de equilíbrio do ambiente. Pragas e insetos existem em todo lugar, e eles existem para corrigir um erro do agricultor. Nenhum inseto reconhece o monocultivo como uma coisa da natureza”, sustenta. “E o bicudo atua para corrigir o erro do monocultivo.”