
Em meio à alta do endividamento e aos prejuízos crescentes da Raízen, fornecedores de cana-de-açúcar defendem que a companhia acelere o repasse de parte dos canaviais próprios a produtores independentes, como modo de reduzir seus custos e elevar a produtividade das lavouras.
Na quinta-feira (12), a Raízen, joint venture entre a Cosan e a Shell, divulgou que teve prejuízo de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/26, e encerrou o período com uma dívida líquida de R$ 55,4 bilhões.
Na avaliação do CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, a companhia poderia reduzir de 50% atualmente para 30% a fatia de cana originada em áreas próprias, com fornecedores independentes aumentando sua participação de 50% para 70%.
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De acordo com Nogueira, há negociações em curso entre a empresa e produtoras independentes, especialmente das regiões de Araraquara e Piracicaba, no interior paulista, mas divergências sobre preços têm impedido o avanço dos negócios.
“Passar terras para os produtores independentes reduziria o custo (da companhia), ela já vem fazendo isso, só que às vezes cobra um valor muito alto ou não quer pagar a cana no preço que o produtor pede. O produtor quer ser parceiro da Raízen e quer que a companhia se aproxime mais dele, principalmente a alta direção”, disse Nogueira ao Valor.
“Tenho certeza que fornecedores independentes conseguiriam produtividade maior [nas lavouras], com custo menor e qualidade maior”, estimou.
Na avaliação do executivo, a Raízen precisa acelerar esse processo, cobrando pela soqueira da cana preços atrativos para os produtores. “Se quiser colocar o preço lá em cima, não vai ter jeito, ninguém vai querer comprar”, afirmou.
Nogueira observou que o setor em geral vem de quatro anos positivos e que a situação da Raízen se difere das demais em virtude de decisões de negócios que levaram à condição atual, como investimentos na Vale e na rede Oxxo.
Entre os fornecedores independentes, não há temor de não recebimento pela cana entregue, segundo Nogueira. Com base em informações fornecidas por associadas da Orplana, ele disse que a companhia não tem débitos com produtores de cana nem pagamentos em atraso, até porque a colheita só deve começar em abril e compras antecipadas de cana não são muito comuns.
Geralmente, afirmou, empresas pagam 80% do valor devido pela cana no mês seguinte após a colheita, sendo que 20% do total é quitado entre dezembro e março, conforme as regras do Consecana (conselho dos produtores).
“Estamos atentos, atenção é a palavra para o momento”, disse. “Não há pânico, até porque o dinheiro que a Raízen tem em caixa dá e sobra para a companhia pagar a cana (necessária) para esta safra”, continuou Nogueira.
O CEO da Orplana informou que, mesmo neste momento de turbulência, não há comentário no setor sobre interromper o fornecimento de cana para a companhia. “A Raízen está cumprindo os contratos, pagando direitinho, em nenhum momento houve atrasos”, disse ele.
Nogueira alertou, contudo, sobre a possibilidade de alguns produtores considerarem não ampliar a área de plantio até que a situação financeira da companhia se estabilize. Ponderou, também, que os grandes fornecedores de cana já diversificam seus compradores e não se restringem a negócios com a empresa.
Questionado sobre a eventualidade de a companhia entrar em processo de recuperação judicial ou extrajudicial, Nogueira avalia que ainda assim fornecedores independentes poderiam fazer individualmente suas análises de risco sobre como manter o fornecimento para a Raízen, a depender de garantias e condições de negociação. “Já passamos por outras recuperações judiciais”, afirmou.
Situação exige planejamento, diz fornecedora
Falando sob a condição de ter seu nome preservado, uma fornecedora da Usina Junqueira, arrendada pela Raízen na região de Igarapava (SP), disse que a situação da empresa exige cautela e planejamento do produtor, especialmente porque o segmento sucroalcooleiro enfrenta outros problemas, como a redução da produção, causada especialmente pela falta de chuva e de incêndios nos últimos três anos.
Além de produzir 40 mil toneladas de cana por ano em cerca de 900 hectares, a família dela tem uma empresa que presta serviço para outros fornecedores de cana da região, com plantio e colheita mecanizada. Cerca de 90% da cana da família vai para a Junqueira.
Segundo a produtora, por enquanto, não há atrasos no pagamento. Ela já recebeu 80% após a entrega da cana e o restante deve ser pago em quatro parcelas até abril.
Ela afirmou que já teve reuniões de alinhamento com a usina para a nova safra e disse que a expectativa é de manutenção dos contratos com os fornecedores da região.
De acordo com a produtora, no entanto, há rumores na cidade de encerramento das operações da usina em Igarapava, mas, como a Raízen não é a dona da unidade, arrendada da Fundação Sinhá Junqueira, a esperança dos fornecedores é de que, se fechar, outra empresa assuma.
Embora não haja sinais de descumprimento de contratos pela empresa, há fornecedor de cana com receio de ficar sem receber “porque ninguém sabe o que vai acontecer com a operação da Raízen no futuro”, disse outra fonte do setor, que atua na região de Ribeirão Preto.






