Maior cooperativa agrícola do mundo, a indiana IFFCO acaba de acertar um novo investimento no Brasil para ampliar os usos da nanotecnologia em insumos agropecuários. Após sua empreitada na produção e venda de nanofertilizantes, a IFFCO selou agora uma parceria com sócios brasileiros para vender e fabricar no Brasil nanonutrientes para nutrição animal. A tacada é o mais novo passo da cooperativa em sua aposta no mercado brasileiro, que começou com nanofertilizantes.
Nesta semana, a IFFCO firmou acordo com os empresários brasileiros Lucas Soares e Fausto Caron e com o indiano Ritesh Sharma para criar a Nanofeed, que, inicialmente, será a empresa responsável por importar os nanonutrientes que hoje são produzidos na Índia. Em até dois anos, a Nanofeed também dará início à construção de uma fábrica para produzir os insumos no Brasil. A cooperativa indiana terá 70% de participação no negócio, e os outros sócios terão 10% cada.
A IFFCO e os empresários firmaram a parceria logo após a visita oficial da delegação brasileira à Índia, que ocorreu na semana passada. No encontro, os governos dos dois países buscaram estreitar as relações bilaterais em meio à onda protecionista e às incertezas no comércio global.
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A nova parceria da IFFCO no Brasil repete o modelo de negócios que adotou na Nanofert, em que a cooperativa associou-se a empresários para primeiro comercializar seus nanofertilizantes no Brasil e desenvolver uma base de clientes. Só depois dessa etapa a cooperativa começou a construir sua fábrica própria no país.
A IFFCO já tem um longo histórico de produção de nanofertilizantes na Índia, mas os nanonutrientes para nutrição animal são mais recentes. Tal como nos fertilizantes, a adoção da nanotecnologia deixa o insumo bem mais eficaz e reduz muito o desperdício. Com isso, é possível obter o mesmo efeito com quantidades muito menores do produto.
Segundo Lucas Soares, no caso do fosfato bicálcico, por exemplo, um suplemento “crítico” para a nutrição animal, com a adoção de nanomoléculas do componente, o uso do insumo na fabricação de rações é 50% menor. “E com o mesmo resultado”, diz o empresário, que comandará a operação da companhia no Brasil.
É possível aplicar a nanotecnologia no segmento de ração em qualquer nanonutriente usado para suplementação nutricional, como vitaminas, minerais e aminoácidos. A ideia da Nanofeed é oferecer às indústrias e fabricantes de rações nanutrientes que substituam as moléculas convencionais de nutrientes. Soares evita dar uma projeção de faturamento para o negócio, mas diz que, sozinho, o nanofosfato bicálcico tem potencial para alcançar um mercado de R$ 60 milhões anuais no país. Segundo ele, o montante pode até ser maior, a depender dos clientes com os quais a empresa fechar contratos.
O empresário ressalta que, além de o produto oferecer vantagem financeira aos clientes, os nanonutrientes oferecem ainda um duplo benefício ambiental. O uso desses insumos diminui a necessidade de extração do componente da natureza, além de reduzir a excreção por parte dos animais. “Quando você dá [ao animal] dez quilos de fosfato bicálcico, ele consome 18%, e o resto vai embora. Mas quando tem uma biodisponibilidade maior, o aproveitamento do conteúdo é de quase 100%”, afirma.
O uso da nanotecnologia deverá ajudar a reduzir, por exemplo, as emissões de gases da fermentação entérica dos animais, atualmente o maior responsável pelo grande volume das emissões de gases de efeito estufa da agropecuária. Segundo Soares, a Nanofeed já considera contratar um órgão certificador para atestar a capacidade de redução de emissões dos seus nanonutrientes, como a Fair Food ou a Verra. A ideia, diz ele, é que a fábrica de ração ou o produtor rural que utilize uma ração à base de nanonutrientes possa gerar créditos de carbono e vendê-los no mercado. A empresa contratou um estudo do Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica no Paraná para avaliar os potenciais de geração de créditos de carbono.
Após ao menos um ano e meio importando o produto da Índia e desenvolvendo o mercado no Brasil, a Nanofeed pretende construir uma fábrica no país, o que deve exigir um investimento de R$ 35 milhões. Por ora, a empresa avalia realizar o investimento em Santa Catarina, Estado com a maior produção avícola do país, ou em Goiás.