Enquanto o abate de jumentos gera polêmicas entre cientistas, a produção comercial de leite de jumenta é um capítulo à parte no debate sobre a viabilidade econômica da criação dos animais. Assim como no caso da carne, especialistas também divergem sobre a possibilidade da utilização dos asininos para a indústria e o comércio de produtos lácteos.
Os defensores do produto elogiam seus benefícios para a saúde. Segundo Gustavo Ferrer Carneiro, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o leite de jumento é rico em nutrientes, com baixo teor de gordura e composição proteica semelhante à do leite humano.
“Entre outras alternativas, o leite de jumenta pode ser destinado a públicos com intolerância ou alergia ao leite de vaca, especialmente devido ao reduzido teor de caseína”, diz.
Ele acrescenta que a digestibilidade do produto é elevada e que a presença de compostos bioativos reforça seu posicionamento em nichos de alimentação especializada.
Além do consumo alimentar, o leite de jumenta desperta interesse na indústria farmacêutica. A presença de lisozima, enzima com ação antimicrobiana natural, é um dos principais atrativos científicos.
“O leite de jumenta é utilizado como tratamento em UTIs neonatais na Itália e tem propriedades até mesmo contra tensão pré-menstrual (TPM), pela presença de elementos anti-inflamatórios”, acrescenta Carneiro.
Práticas tradicionais nordestinas também recomendam o leite de jumenta para crianças em situações específicas.
O elevado valor agregado também sustentaria o argumento econômico a favor da atividade. Embora a produção seja de apenas entre 0,2 e 0,3 litro por dia por jumenta, o preço internacional pode variar entre 30 e 50 euros por litro (R$ 180 a R$ 300), dependendo da oferta e da demanda.
Para ele, esse patamar posiciona o produto como item premium, voltado a mercados específicos e com margem potencialmente superior à de commodities tradicionais. Inclusive, um dos queijos mais caros do mundo, o Pule, da Sérvia, é produzido à base de leite da espécie.
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UFRPE/Divulgação
Inviabilidade
Já Patricia Tatemoto, coordenadora da The Donkey Sanctuary, enxerga uma inviabilidade técnica para a produção láctea de jumentas. “Existem vários gargalos científicos sobre a atividade. Para avançar nesse sentido, seria preciso muito estudo. Eu defendo o princípio da precaução”, posiciona-se.
A especialista, que se define como “bem-estarista”, entende que a mudança do foco da pele ou da carne para o leite não altera o principal limite biológico da espécie, a reprodução lenta.
“Os asininos não passaram por programas consistentes de melhoramento genético voltados à produção de leite, o que limita escala e produtividade”, cita.
Ela também lembra dos riscos sanitários, já que a proposta de estruturar uma cadeia comercial do leite implicaria maior concentração de animais e intensificação logística. “Estudos indicam que o transporte gera estresse mensurável em jumentos, com impacto fisiológico e comportamental, fator que aumenta riscos inclusive de zoonoses”, diz.
Para ela, o país está distante de ter governança robusta, rastreabilidade e fiscalização efetiva em uma eventual cadeia de leite de jumenta. “A experiência internacional também levanta dúvidas sobre a viabilidade de modelos baseados em escala”, conclui.