Quase 80% dos produtores de soja e milho dos Estados Unidos afirmam estar preocupados ou muito preocupados com a competitividade do Brasil no mercado global de soja.
O dado consta do Ag Economy Barometer, levantamento mensal realizado pela Purdue University em parceria com o CME Group, que captou uma deterioração significativa do humor do produtor rural americano no início de 2026.
Segundo o estudo, 44% dos entrevistados se dizem “muito preocupados” com a concorrência brasileira, enquanto outros 36% afirmam estar “preocupados”. Apenas 20,1% disseram não estar preocupados. A principal apreensão refere-se à perda de espaço dos EUA nas exportações agrícolas, especialmente de soja.
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A percepção negativa se reflete diretamente nas expectativas de longo prazo quanto às exportações de soja e produtos agropecuários em geral daquele país.
Em janeiro, 21% dos produtores passaram a projetar queda das exportações americanas de soja nos próximos cinco anos — no mês anterior eram 13%.
Já 16% dos respondentes acreditam que o conjunto das exportações agrícolas dos EUA deve recuar no mesmo horizonte.
O relatório cita expressamente a competitividade brasileira como um dos motivos para a preocupação dos agricultores dos EUA.
A oscilação negativa dos indicadores ocorre ao menos desde meados de 2025, já sob o novo mandato de Donald Trump na Presidência dos EUA.
Apesar dessa relação não estar citada no estudo, a conjuntura geopolítica também pode estar pesando.
As políticas do mandatário americano reacenderam incertezas sobre o comércio internacional e as guerras tarifárias com grandes compradores da commodity e produtos agrícolas.
Em sua primeira gestão (2017-2021), Trump fomentou disputas comerciais com a China, que abriram oportunidades aos exportadores brasileiros de soja.
Em 2017, a participação do Brasil nas importações de soja da China era de 53,3%, enquanto os EUA tinham 34,4%. Em 2020, o percentual brasileiro subiu a quase dois terços.
No ano passado, em meio a novas disputas, a participação brasileira no mercado chinês superou 85% em determinados períodos de 2025 (especialmente entre janeiro e setembro).
Além disso, o avanço do Brasil como maior fornecedor global de soja ocorre em um momento delicado para o agricultor americano, que tem margens mais comprimidas, assim como os brasileiros.
Mau humor
O indicador geral do Ag Economy Barometer recuou de 136 pontos em dezembro de 2025 para 113 em janeiro de 2026, o mais baixo desde setembro de 2024.
O índice havia subido no início de 2025, quando Trump assumiu, mas tem tendência de queda desde então.
O indicador geral é composto por outros cinco, que se referem a expectativas futuras, situação financeira, investimento, endividamento e valor das terras.
O subíndice de Expectativas Futuras caiu 25 pontos, enquanto o de Condições Atuais recuou 19 pontos, indicando piora tanto na avaliação do presente quanto do futuro.
Metade dos produtores entrevistados afirmou que sua situação financeira está pior do que há um ano, e 30% projetam um desempenho ainda mais fraco nos próximos 12 meses. Apenas 20% esperam melhora, reforçando o viés pessimista captado pela pesquisa.
O reflexo imediato desse cenário aparece nos investimentos. O Índice de Investimento em Capital Agrícola caiu para 47 pontos, o menor nível desde outubro de 2024. Apenas 4% dos produtores afirmaram intenção de ampliar a compra de máquinas agrícolas em 2026.
O aumento do endividamento também preocupa. 21% dos produtores esperam recorrer a empréstimos operacionais maiores neste ano.
Entre eles, 31% afirmaram que a necessidade decorre da rolagem de dívidas não quitadas do ciclo anterior — um sinal claro de estresse financeiro.
Até mesmo o mercado de terras começa a sentir os efeitos. Embora o índice de expectativas de curto prazo se manteve, o indicador de longo prazo caiu de 166 para 152 pontos, sugerindo perda de confiança na valorização contínua dos ativos agrícolas.