A piscicultura brasileira ultrapassou a marca de 1 milhão de toneladas produzidas no ano passado, mas as exportações, que tinham dobrado em 2024, cresceram apenas 2% em valor, chegando a U$S 60 milhões. Em volume, os embarques caíram 1%, passando de 13.792 toneladas em 2024 para 13.684 toneladas em 2025.
Os números estão no 10º Anuário da Piscicultura Brasileira, que a Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR) lançou, nesta terça-feira (24/2).
A queda no volume das exportações foi resultado direto do tarifaço imposto por Donald Trump, presidente dos EUA, para onde vão 87% dos embarques dos peixes de cultivo do Brasil, especialmente filés de tilápia, totalizando US$ 52 milhões. Outros principais destinos foram Canadá (4%), Peru (4%), China (2%) e Vietnã (1%).
Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, disse que, com a derrubada do tarifaço pela Suprema Corte americana, as empresas brasileiras já planejam refazer os contratos com importadores dos EUA.
Os exportadores não interromperam embarques para o mercado americano, mas a política anterior do presidente americano levou a uma revisão caso a caso dos negócios e a perda de margens. Com a nova tarifa, de 10%, e aumento no volume, a intenção é recuperar, pelo menos em parte, as perdas.
“As empresas brasileiras devem aproveitar a feira de Boston (EUA), que começa no dia 15, para refazer contratos e buscar novos clientes. O aprendizado que fica do tarifaço é que precisamos abrir novos mercados, principalmente na América Latina, que importa 200 mil toneladas por ano e nenhum quilo é brasileiro.”
Produção aumentou 4%
O setor fechou o ano com uma produção total de 1.011.540 toneladas, um aumento de 4,41% em comparação com as 968.745 toneladas de 2024, e que coloca o Brasil na posição de maior produtor das Américas. A liderança nacional, novamente, foi da tilápia, que representa 70% do peixe cultivado no país. Em 2025, foram 707.495 toneladas da espécie, superando em 6,83% o volume do ano anterior.
Já a produção de peixes nativos como tambaqui, tucunaré, pintado e dourado foi de 257.070 toneladas, baixa (0,63%) em relação a 2024. Foi o terceiro ano seguido de queda. A produção de outras espécies como pangasius, trutas e carpas ficou em 46.975 toneladas, 1,75% a menos do que no ano anterior.
Medeiros, destacou que chegar aos sete dígitos na produção é uma conquista e tanto para a piscicultura brasileira, pois apenas meia-dúzia de países já ultrapassou essa marca, e um grande incentivo para alcançar o topo do ranking mundial em 2040.
“Esse objetivo será alcançado por meio de investimentos em genética, nutrição, manejo, equipamentos, sanidade, produção, processamento e, principalmente, comercialização nos mercados interno e externo.
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Segundo ele, a meta de liderança global é nutrida por fatos, já que a produção dos peixes de cultivos no país cresceu 58% em dez anos e aumentou também em 2025, mesmo diante de tantos desafios, como adversidades climáticas, com temperaturas muito baixas ou muito elevadas, questões sanitárias e instabilidade nas cotações dos peixes.
O Paraná mantém a liderança na produção com 273.100 toneladas, seguida por São Paulo (93.700), Minas Gerais, Santa Catarina e Maranhão. Medeiros destacou que a produção em São Paulo teve queda por questões sanitárias em 2025, mas Minas Gerais apresentou um grande avanço, Santa Catarina manteve seu crescimento orgânico e o Maranhão foi a grande surpresa, ultrapassando Rondônia.
Dados do anuário apontam ainda déficit da balança comercial brasileira em 2025 de US$ 959 milhões, 3% menor que em 2024. A espécie mais importada é o salmão com US$ 847 milhões, equivalentes a 83% do total. O pangasius continuou na segunda posição, com US$ 166 milhões, seguido pela tilápia importada do Vietnã, com US$ 1,5 milhão.
Dependência
O executivo da Peixe BR diz que o planejamento do setor no início de 2025 era terminar o ano saltando da quarta posição para a de maior exportador de filés de tilápia para os EUA, tirando o lugar da Colômbia, mas o tarifaço impediu o cumprimento dessa meta, que volta para 2026.
A opção pelo mercado americano se explica pelo fato de ser o país que mais paga pelo filé de tilápia, um produto de maior valor agregado e que, fresco, chega aos EUA dois dias após ser pescado.
Segundo ele, abrir novos mercados para a tilapicultura brasileira depende do crescimento da atividade. Além da América Latina, o setor quer voltar a exportar peixes de cultivo para a União Europeia, que barrou os embarques brasileiros desde 2017 alegando questões sanitárias. A negociação foi aberta e uma missão europeia deve visitar o país neste ano.
“A produção de tilápia avançou 148,2% em dez anos, um aumento que não ocorreu em tão pouco tempo em nenhuma outra atividade da pecuária. O consumo no mercado interno tem aumentado 10% ao ano, o que é muito bom. Isso nos deixa sem produto para atender grandes aumentos do mercado externo. A partir de agora começamos a elaborar estratégias para chegar a novos mercados, mas dentro do nosso ritmo de crescimento.”
Terceiro maior produtor
Medeiros projeta que, em 2030, o Brasil já será o terceiro maior produtor de tilápia do mundo, avançando para o segundo lugar e alcançando a liderança dez anos depois. Já no caso dos peixes nativos, ele diz que o país “está no aquecimento e ainda não entrou no jogo”.
Questionado sobre gargalos, o dirigente diz que antes o produtor reclamava do preço da ração. Depois, vieram os problemas sanitários e agora o principal desafio é o regulatório governamental tanto federal quanto estadual.
“Nessa questão, a gente não tem ação imediata e vai contornando esses processos, mas acredito num diálogo. O governo vai entrar em sintonia com a cadeia visando a elevação da produção e da produtividade.”
Para este ano, a entidade não divulga estimativas para produção, consumo e exportações. Medeiros diz apenas que, no primeiro semestre de 2025, o setor teve a maior supersafra da história e as indústrias tiveram que buscar alternativas para manter a rentabilidade. Aí veio o tarifaço e a situação piorou.
Desde então, as empresas investiram mais no mercado interno, abrindo novos pontos de venda e clientes. O resultado foi que no último trimestre houve uma melhora nos preços pagos ao produtor.
“Estamos agora num período de quaresma com mercado regulado, ou seja sem faltar nem sobrar produto, e a expectativa é voltar a exportar em breve para os EUA com a nova tarifa. Deve ser um ano mais estável, mas nem todos vão ganhar dinheiro. Para isso, as empresas precisam melhorar seus custos porque o consumidor na ponta espera melhores preços.”