A presença de substâncias PER e Polifluoroalquiladas (PFAS) na produção de alimentos tem ganhado atenção de pesquisadores e autoridades ambientais no mundo todo. As substâncias, conhecidas como forever chemicals (químicos eternos em português), são extremamente resistentes à degradação e, por isso, se acumulam no meio ambiente e no corpo humano por anos.
Leia mais:
Julgamento do STF de benefícios fiscais a agrotóxicos será retomado na próxima semana
Como é feito o registro e monitoramento de agrotóxicos no Brasil
Reino Unido cria plano para reduzir uso de pesticidas e salvar abelhas
De acordo com o The Guardian, o Environmental Working Group (EWG), organização norte-americana especializada em análises ambientais e de saúde pública, examinou registros oficiais do Departamento de Regulação de Pesticidas da Califórnia e identificou o uso contínuo de PFAS em dezenas de condados.
O levantamento mostra que, entre 2018 e 2023, fazendas do estado aplicaram, em média, cerca de 1,13 milhão de quilos de pesticidas que continuam estas substâncias. No período, foram despejados aproximadamente 6,8 milhões de quilos em cultivos estratégicos como amêndoas, uvas para vinho, tomates, pistaches e alfafa.
Initial plugin text
As regiões de Fresno, Kern e San Joaquin, que estão entre as áreas agrícolas mais produtivas do estado, concentram parte significativa dessa aplicação. A reportagem também destaca o risco para trabalhadores rurais e comunidades que vivem próximas às plantações, onde a pulverização é mais frequente.
O que são PFAS?
Os PFAS formam uma família ampla de compostos sintéticos altamente persistentes. Eles não se degradam com facilidade, acumulam-se no solo, na água e nos alimentos e estão associados a riscos como câncer, danos hepáticos e renais, alterações imunológicas e efeitos no desenvolvimento fetal. Na formulação de pesticidas, podem atuar como ingredientes ativos ou como componentes “inerte” usados para melhorar a adesão e o desempenho do produto.
Grande parte dos PFAS encontrados nas lavouras da Califórnia é composta por moléculas de cadeia curta. Essa categoria se move com facilidade pelo ambiente e muitas vezes se transforma em trifluoroacético (TFA), um subproduto já identificado em níveis crescentes no mundo todo.
O TFA não é removido de forma eficiente pelos sistemas tradicionais de tratamento de água, o que amplia o potencial de contaminação de mananciais e alimentos.
Em resposta ao avanço das evidências, a União Europeia já proibiu princípios ativos com PFAS, como bifentrina e trifluralina. Nos Estados Unidos, porém, as restrições avançam lentamente e enfrentam divergências técnicas e legais. Especialistas ressaltam que muitas variantes de cadeia curta ainda não têm estudos toxicológicos completos, o que dificulta estabelecer limites seguros.
O relatório do EWG também inclui mapas detalhados por condado, permitindo visualizar a extensão do uso agrícola de PFAS no estado. Para pesquisadores e autoridades, essa transparência é essencial para orientar políticas públicas, apoiar decisões de manejo e informar as comunidades mais expostas.