
Já pressionado pelas importações de lácteos isentas da Argentina e do Uruguai, o setor produtivo de leite brasileiro teme que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que será assinado no sábado (17/1) no Paraguai, seja prejudicial para a cadeia e afete sobretudo pequenos pecuaristas. Há receio de aumento da concorrência a partir das cotas e das reduções tarifárias previstas para o leite em pó, os queijos finos e as fórmulas produzidas pelos países europeus no tratado. A avaliação é que os produtos brasileiros não terão acesso à UE tão cedo.
Por outro lado, há quem encare a maior concorrência como combustível para acelerar mudanças estruturais pretendidas há anos pelo setor para reduzir custos de produção, reorganizar a cadeia de forma mais segmentada e gerar ganhos de competitividade.
O acordo prevê cota de 10 mil toneladas de leite em pó, que será escalonada em dez anos até atingir esse volume. No período, haverá redução gradual da tarifa atual, de 28%, até chegar a zero. O Mercosul também concedeu cotas de 30 mil toneladas para queijos europeus e 5 mil toneladas de fórmulas infantis. Importações extracota terão tarifas entre 16% e 28%. Não houve concessões do lado europeu para os lácteos sul-americanos.
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“O acordo pode ser uma ameaça, mesmo com o prazo da degravação. A baixa competitividade da cadeia nacional e a ausência de subsídios à produção no Brasil é o oposto do que se vê nos países europeus e isso pode trazer mais problemas para o setor leiteiro brasileiro, que já sofre com importações de leite pó e queijos vindos do Mercosul, que têm derrubado o preço”, diz Geraldo Borges, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite).
A produção nacional de leite no ano passado está estimada em 26 bilhões de litros. Custos de produção mais altos deixam os lácteos brasileiros até 20% menos competitivos que os de outros países exportadores, como Nova Zelândia, Argentina e Uruguai. Esse é um dos motivos que “travam” avanços no setor, afirma Airton Spies, consultor e coordenador-adjunto da Aliança Láctea Sul Brasileira.
“O setor lácteo não tem outra saída a não ser reduzir gargalos que geram custos mais altos. Sem exportação não tem solução para crescimento, pois estamos presos debaixo de um teto, que é o consumo interno, que não aumenta na mesma proporção que o potencial de crescimento do setor ao longo dos anos”, diz. Em 2025, o Brasil exportou 37 mil toneladas de lácteos.
Para Spies, o acordo com a UE é um fator extra de pressão por ajustes estruturais na cadeia leiteira. Ele salienta que o Brasil tem mercados abertos para exportação, mas o custo mais alto mina a competitividade das commodities lácteas brasileiras. “Para crescer precisamos exportar. Com isso, seremos capazes de rechaçar importações pela nossa competitividade. Quando estiver tudo alinhado, não teremos nada a temer”, completa.
Importações
As importações de lácteos recuaram 6,1% em 2025, mas mesmo assim ficaram em 2,15 bilhões de litros equivalentes, cerca de 8% do consumo interno total. As principais origens de lácteos importados são Argentina e Uruguai, alvos de pedido de investigação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para criação de barreiras comerciais pelo governo. Países como França e Itália enviam volumes regularmente.
Segundo Jônadan Ma, vice-presidente da Comissão Nacional de Leite da CNA, apesar de não proibir a importação de lácteos brasileiros, a UE tem barreiras sanitárias e regulatórias mais rigorosas que, na prática, limitam o acesso a seu mercado. Para ele, o impacto será mais forte para pequenos e médios produtores, que têm custo alto e pouca escala e não conseguirão competir com importações do Mercosul e da Europa.
“O impacto mais danoso será a maior competição em leite em pó e queijos, o que tende a pressionar o preço no atacado e reduzir a margem do produtor, que já está recebendo preços abaixo de R$ 1,50 [por litro]”, afirma.
Ronei Volpi, presidente da Câmara Setorial do Leite e Derivados do Ministério da Agricultura, reforça que o bloco europeu é protecionista na área dos lácteos, além de figurar como um potencial “concorrente” brasileiro no futuro. “O acordo parece mais prejudicial do que favorável especificamente para os lácteos”, avalia.
Para Benedito Rosa, que participou das negociações do acordo durante nove anos enquanto esteve em cargos no Ministério da Agricultura, os termos representam uma “traição” ao setor lácteo brasileiro. “A União Europeia tem meios e vai usá-los para conter importações que sejam desinteressantes a eles, como regras de origem, padrões técnicos, uso de defensivos, regras de meio ambiente e legislação trabalhista”, afirma.
Ele também destacou o potencial dano das salvaguardas adicionais aprovadas recentemente, que permitem à UE suspender as importações se o preço de determinado produto cair 8% abaixo da média dos últimos três anos.





