
Em 2021, em plena pandemia de Covid-19, Jerusa Stuhr, uma diretora de escola em Santa Maria de Jetibá (ES), na região das montanhas capixabas, desistiu de sua carreira de 24 anos na educação para assumir uma granja de galinhas após a morte repentina do marido, um tradicional produtor de ovos no distrito de Barracão.
“Não tive opção: as galinhas precisavam comer, os ovos tinham que ser recolhidos. Descobri que a granja tinha muitas dívidas, o que derrubava seu valor de venda, e eu tinha dois filhos para cuidar”, conta Jeruza, que só não seguiu a carreira de modelo na juventude por proibição do pai.
Descendente de holandeses e pomeranos, ela fala o dialeto que imigrantes alemães da região da Pomerânia trouxeram para o Brasil no século XIX. Jetibá, uma cidade de 40.000 habitantes, assumiu em 2016 a liderança do ranking nacional de produção de ovos, deixando para trás a paulista Bastos, que por muitos anos foi conhecida como a “capital nacional do ovo”.
O Estado de São Paulo, no entanto, mantém o título de maior produtor nacional da proteína, que bateu recordes de produção, consumo e exportações no ano passado.
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Ricardo Benichio
Quando Jerusa assumiu a granja, o distrito do Barracão, que fica a cerca de 40 quilômetros do centro de Jetibá, tinha dez aviários. Só sobraram dois. A produção de Jerusa – que trocou para Avícola Mãe e Filhos o nome da granja, antes chamada de Guilherme JR – e das outras 115 unidades instaladas em Jetibá, no entanto, cresceu. O aumento ocorreu graças, principalmente, aos investimentos em automação e em novas tecnologias de nutrição das aves.
“A granja de 30 anos só tinha uma parte automatizada. Eu tive que negociar com credores e concluir a automação. Sem isso, não seria viável manter as 100.000 galinhas. Tinha dias em que eu me escondia no banheiro para chorar e pedir orientação a Deus, mas logo eu me recompunha e voltava ao trabalho”, relata.
Com a ajuda do primo e gerente da granja, Ereneu Schiliwer (chamado de “MacGyver”, personagem de série de TV dos anos 1980 que consertava tudo com poucos recursos), Jerusa sanou as dívidas e investiu na ampliação do pinteiro, que passou de 13.000 para 50.000 aves. As pintainhas de um dia ficam 40 dias sendo alimentadas e cuidadas antes de irem para a recria. Com 15 semanas, elas vão para a granja para iniciar a produção de ovos e vão para o abate após 90 semanas.
Atualmente, a Avícola Mãe e Filhos produz 250 caixas com 90.000 ovos brancos por dia, que seguem de segunda a sábado para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. A produtora também contratou mais funcionários para aumentar a eficiência da granja, que funciona de segunda a segunda. Os 25 funcionários, no entanto, têm dois dias de descanso por semana em revezamento.
O filho, João Francisco Guilherme, de 22 anos, cuida da fábrica de ração, que fica afastada da granja. A filha, Júnia Marize Guilherme, de 29, arrendou seu consultório de dentista para se juntar à mãe e administrar a classificadora de ovos, 100% automatizada, assim como a coleta de ovos e de resíduos das aves.
A granja familiar tem um barracão totalmente cercado por telas finas, que impedem a entrada de outras aves, uma barreira de vegetação por todos os lados, fica a uma distância de 13 quilômetros da granja mais próxima e segue protocolos rígidos de biossegurança para entrada, recebendo inspeções regulares do Ministério da Agricultura, assim como do órgão estadual que inspeciona a classificadora, de onde saem os ovos separados nos tamanhos grande, extra e jumbo. Jerusa diz se orgulhar de nunca ter sido multada.
“A granja só tinha uma parte automatizada. Eu tive que negociar com credores e concluir a automação. Sem isso, não seria viável manter as 100.000 galinhas” – Jerusa Stuhr, produtora de ovos em Santa Maria de Jetibá (ES)
NEGÓCIO FAMILIAR: Na Avícola Mãe e Filhos, Jerusa Stuhr produz 250 caixas com 90.000 ovos brancos por dia
Ricardo Benichio
Mais perto de Jetibá fica a granja de Thiago Botelho e sua esposa, Jezabel Foesch Botelho, uma operação de porte médio, que foi a segunda colocada no concurso de qualidade de ovos brancos e também de ovos vermelhos. Thiago, formado em direito, conta que a família da mulher já trabalhava com granja quando o casal decidiu abrir um negócio próprio, em 2020.
Na época, eles mantinham 15.000 galinhas de ovos vermelhos e faziam coleta manual. Em 2023, automatizaram a unidade com um investimento total de R$ 15 milhões e passaram para um plantel de 200.000 galinhas, sendo 185.000 de ovos brancos. A produção diária atual é de 450 a 500 caixas com 600 ovos cada uma, que seguem para clientes do Rio de Janeiro e da Bahia.
Com registro regular no Mapa, atendimento aos protocolos de bem-estar animal e de proteção das aves, classificadora também automatizada e fábrica de ração instalada a 1 quilômetro da granja, a unidade conta com 60 funcionários e gera uma renda extra com a venda do esterco das aves em compostagem com palha de café para produtores de hortaliças da região.
CRESCIMENTO: Em dez anos, o aumento da produção brasileira de ovos foi de 57%, para 62,25 bilhões de unidades em 2025
Ricardo Benichio
Também perto do centro de Jetibá fica a antiga BL Ovos, que a Granja Faria, a maior produtora de ovos do país, comprou em 2023 por R$ 290 milhões. A unidade recebeu investimento de cerca de R$ 15 milhões, um aporte destinado a melhorar e adequar as instalações. No município, a empresa tem duas unidades, uma no bairro Virada e outra no Barracão, com alojamento atual de 1,45 milhão de aves (sendo 200.000 de ovos vermelhos) e capacidade para 1,8 milhão. Das duas granjas saem diariamente 1,25 milhão de ovos com a marca Iana, relata o diretor de operações do grupo, Ricardo Feres.
A recria, localizada a 50 quilômetros da granja e com regras sanitárias ainda mais rígidas, abriga 400.000 aves, mas tem capacidade para receber mais 200.000. Na recria, os animais têm o peso monitorado diariamente e, a partir de 1,3 quilo ou 18 semanas, já estão aptos para serem transferidos para os aviários.
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Dos aviários telados e climatizados, os ovos saem por esteira automatizada para a classificadora, onde são lavados em dois tanques com água quente e cloro, depois passam pela secagem e por câmera que detecta se há resíduos. Nesse caso, voltam para a lavagem.
A veterinária Stephanie Vitório, responsável técnica pelas granjas da Faria em Jetibá, explica que o cuidado sanitário para evitar doenças e o contato das galinhas com as aves migratórias tem que ser ainda maior no município, onde até 90% das granjas concentram-se em um raio de 10 quilômetros. “Um caso de gripe aviária por aqui afetaria todos os produtores”, diz.
Estúdio de Criação
A pernambucana Meire Elisa de Souza, um dos 230 funcionários da Faria em Jetibá, trabalha há sete anos em um dos barracões. Ela diz que a rotina é mais leve e agradável do que a que tinha em seu antigo emprego de diarista e que, com a troca de donos, ocorreram mudanças no sistema de trabalho. Além disso, os salários dos funcionários melhoraram, afirma.
Na Granja Faria, os ovos com trincas são encaminhados para quebra na indústria que fica instalada a poucos metros do local. No prédio, máquinas com capacidade de quebrar 21.000 ovos por hora separam as gemas das claras e pasteurizam o produto. Segundo o gerente de produção Marcelo Romeu dos Santos, o produto, com vida útil de 15 dias, é acondicionado em bags de 1.000 quilos e saem em carretas refrigeradas para São Paulo.
PROCESSO SELETIVO | Funcionários da Granja Faria trabalham na unidade de classificação. Ovos são comercializados com a marca Iana
Ricardo Benichio
As cascas são destinadas para a fabricação de adubo. A indústria, que também pertencia à BL Ovos e foi adquirida junto com as granjas, foi arrendada para a Netto Alimentos, que processa na unidade exclusivamente os ovos da Faria. Em Jetibá, outras duas grandes empresas mantêm indústria de ovos líquidos: a KerOvos, da família Kerckhoff, cujas granjas alojam cerca de 5 milhões de galinhas, e a cooperativa Nater Coop. O município tem ainda lojas de equipamentos aviários, como esteiras, correntes e rolamentos. Uma delas é a AH Montagens, de Almir Heidmann, que está há mais de 30 anos no mercado.
A filha do empresário, Evelyn, cuida da loja, enquanto o pai faz manutenção em granjas da região. Segundo ela, a empresa não tem dado conta da demanda e tem pedidos até de Goiás e Minas Gerais.
Nélio Hand, diretor-executivo da Aves, diz que o empenho dos produtores na busca por mais eficiência e os investimentos em ampliações de granjas são os fatores que levaram Santa Maria de Jetibá a assumir a liderança nacional na produção de ovos. Segundo ele, a cidade já responde por 9,5% da produção nacional e, com exceção da cooperativa Nater e das unidades da Faria, todas as granjas, mesmo as grandes, são de caráter familiar.
“O que vai diferenciar é o número de funcionários extras. A produção é independente, ou seja, as famílias cuidam de todas as etapas e várias estão trabalhando na sucessão, algumas já com a terceira geração no comando”, detalha.
No estado, a avicultura emprega diretamente 20.000 pessoas e envolve cerca de 100.000 famílias, incluindo aquelas que cuidam da produção de esterco destinada a diversas culturas. Mesmo para o produtor de pequena escala, afirma Hand, a automação torna-se necessária para otimizar o negócio. “A falta de mão de obra é o maior desafio. Por isso, investe-se muito em automação, inclusive na ambiência. A altitude e o clima, que é mais fresco, tornam a região muito propícia para a produção animal, mas o produtor busca a cada dia aumentar a eficiência, para a ave responder melhor”, diz.
Um levantamento que a associação fez em 2024 identificou que 93% das galinhas de Jetibá produzem ovos em sistema automatizado, com cinco andares de baterias de gaiolas. As que seguem o sistema californiano, com dois ou três andares de gaiolas em galpões estreitos e com operação manual, somam 5%.
Outros 2% concentram sistemas alternativos de galinhas livres de gaiolas e ovos orgânicos. Segundo Hand, esse percentual ainda é voltado a nichos porque o consumidor brasileiro, em sua maioria, procura preços acessíveis e não quer pagar a mais pelo custo da produção alternativa. “Associa-se muito o sistema alternativo ao bem-estar animal. Mas a produção em gaiolas também respeita o bem-estar animal e precisa seguir as normas ambientais e de proteção às aves. O granjeiro não é louco de produzir de qualquer maneira porque vai ser multado, perder as aves e a renda”, salienta.
O fisioterapeuta Ronan Zocoloto, prefeito de primeiro mandato em Jetibá, diz que, com a produção de ovos, gengibre e chuchu, o município detém o maior PIB agrícola do estado. Segundo ele, a tradição das granjas começou há mais de 60 anos, quando o produtor Erasmo Berger visitou os Estados Unidos e trouxe o sistema de avicultura em larga escala com aves confinadas em gaiolas.
“A tecnologia avançada para a época e o regime de produção se encaixaram perfeitamente no perfil dos produtores pomeranos”, diz o prefeito, acrescentando que a cidade, que tem como monumento uma galinha com ovos, é a mais pomerana do Brasil. A rede municipal oferece aulas do dialeto para manter viva a língua, que tem sido passada oralmente de geração em geração.
OLHAR ATENTO | Meire Elisa de Souza, funcionária da Granja Faria: vistoria de galinhas e produção em uma das estruturas da empresa
Ricardo Benichio
De vilão a herói da nutrição
A produção de ovos no Brasil beneficiou-se da mudança radical de status do produto, que na década de 1990 era considerado o vilão do colesterol. Novas pesquisas passaram a definir o produto como alimento completo, que reduz o colesterol ruim, aumenta a massa muscular, auxilia nas dietas e diminui o risco de doenças degenerativas, entre outros benefícios.
Com preço bem menor do que o das outras proteínas animais, o ovo passou a ser herói na saúde e no orçamento familiar do brasileiro. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o processo de desmitificação do alimento teve grande participação do Instituto Ovos Brasil (IOB), que leva conhecimento ao consumidor por meio de campanhas e faz um trabalho que envolve mais de 7.000 nutrólogos e nutricionistas.
Edival Veras, presidente do IOB, diz que há 16 anos o consumo no país era de apenas 120 ovos per capita ao ano. “O Brasil não estava nem entre os 50 maiores consumidores, e agora atingiu a quarta posição. A Organização Mundial de Saúde preconiza um ovo por dia, e nossa meta é esta: chegar a 365 ovos per capita.” Segundo ele, há muito espaço ainda para inserção da proteína especialmente na mesa das classes C, D e E.
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Ricardo Benichio
Bastos, no oeste de São Paulo, tem mais de 60 produtores de ovos, segundo Tiago Henrique dos Santos, gestor executivo do Sindicato Rural. Ele explica que a perda da liderança do ranking ocorreu porque Bastos tem uma extensão territorial bem menor que Jetibá e muitas granjas se instalaram em municípios vizinhos.
Estátuas retratam os pomeranos, imigrantes que são a base da população de Santa Maria de Jetibá (ES)
Ricardo Benichio
No total, a região, que engloba Tupã, Iacri, Quatá, João Ramalho, Osvaldo Cruz, Parapuã, Queiroz, Rancharia, Rinópolis e Martinópolis, é o maior centro regional produtor de ovos do país, com 27% do volume nacional. São em torno de 30 milhões de aves, com uma produção diária de 24 milhões de ovos. O setor movimenta cerca de R$ 1,35 bilhão em Bastos e R$ 3 bilhões no polo regional, o que tem impactos sobre comércio, serviços e a renda local.
A base da avicultura vem dos imigrantes japoneses, que moldaram a cidade a partir de 1937. A pioneira foi a família Watanabe, que tinha de 300 a 500 galinhas alojadas. Muitos descendentes de japoneses ainda permanecem no segmento, mas o perfil vem se diversificando com outros produtores, inclusive pessoas que não tinham nada a ver com a atividade agropecuária.
“Há uma preocupação constante com o bem-estar das aves e com a biossegurança para evitar que doenças se propaguem” – Tiago Henrique dos Santos, gestor executivo do Sindicato Rural de Bastos (SP)
As granjas de Bastos se modernizaram e se profissionalizaram, ampliando a produção de olho nas demandas do consumidor. O controle de qualidade nas granjas é rigoroso e há uma preocupação constante com o bem-estar das aves e a biossegurança para evitar que doenças se propaguem”, frisa Tiago dos Santos. A produção de ovos orgânicos e de ovos de galinhas livres de gaiola, segundo ele, é restrita a pequenos produtores na região.
Na cidade de 22.000 habitantes, as granjas empregam diretamente 2.582 funcionários, mas o ideal seriam 4.000. Em empregos indiretos, a avicultura de postura envolve 12.500 pessoas. Bastos não tem exportação direta de ovos, embora a Granja Mantiqueira, outra das gigantes nacionais do segmento, tenha feito uma parceria com a Mizohata, uma empresa local. A produção atende os mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e os estados das regiões Nordeste e Sul.
O veterinário Sérgio Kenji Kakimoto é um produtor de médio porte em Bastos. Ele conta que teve que reduzir a produção diária de 1.800 caixas da Granja Kakimoto para as atuais 600 a 700 caixas por dia porque os equipamentos ficaram obsoletos e para seguir as regras do Ministério da Agricultura. A unidade manual chegou a ter 200 funcionários, mas hoje mantém apenas 80.
A família, de grande tradição na produção de ovos, construiu um novo barracão para 50.000 aves, automatizou e readequou as estruturas, mas estuda abrir uma nova granja em Alambari, a 322 quilômetros de Bastos.
No ano passado, a produção, o consumo e a exportação de ovos do Brasil bateram recordes, posicionando o país pela primeira vez entre os dez maiores do mercado mundial. Em dez anos, o aumento de produção foi de 57%, passando de 39,51 bilhões de unidades em 2015 para 62,25 bilhões em 2025, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). No mesmo período, o consumo médio passou de 191 ovos per capita para 287, e a exportação cresceu 118%.
Para este ano, há estimativas para se chegar a uma produção de 66 bilhões de ovos e um consumo de 307 unidades per capita. As vendas ao mercado externo, que, em 2025, corresponderam a mais de 1% da produção pela primeira vez, somando 40.000 toneladas, também podem crescer de 10% a 12%. No entanto, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, explica que o mercado interno é muito forte e que as vendas ao exterior exigem cultura exportadora, regularidade e estrutura para enfrentar variações cambiais e políticas.
“A Europa não comprava nada do Brasil até três meses atrás e importou 3.000 toneladas de ovo líquido, em pó e albuminas. O acordo com o Mercosul, quando se efetivar, pode ajudar o ovo a entrar com tarifa reduzida, mas não é uma prioridade do setor”, diz Santin.
A veterinária Stephanie Vitório: ela diz que a atenção para evitar doenças e o contato das galinhas com aves migratórias tem que ser ainda maior em Jetibá (ES), onde as granjas estão muito próximas umas das outras
Ricardo Benichio
No ano passado, o Brasil exportou 19.000 toneladas de ovos para os Estados Unidos, beneficiando-se da crise de gripe aviária que atingiu granjas comerciais americanas. O tarifaço, entretanto, paralisou novos embarques.
Só a Granja Faria, que tem 13 granjas comerciais de ovos e mais 12 granjas de ovos férteis espalhadas por 25 localidades do Brasil, exportou mais de 100 contêineres por mês até setembro para indústrias americanas. A empresa vende também para Japão e Chile, mas o principal executivo da companhia, Paulo Andrade, diz que o dono, Paulo Faria, que fez várias aquisições no Brasil e continua aberto a novas oportunidades, passou a investir nos últimos anos na compra de granjas no exterior.
O objetivo, conta Andrade, é tornar a companhia um nome de atuação global e dividir os riscos. O grupo já comprou grandes unidades na Espanha, a segunda maior granja dos Estados Unidos e a maior do Uruguai. “O ovo não é fácil de exportar por causa da limitação de data de validade, logística cara com ‘transit time’ de 60 dias em contêineres refrigerados. É preciso ter preços competitivos”, diz.
Andrade acredita que o consumo no mercado interno tem potencial para crescer mais 30% e diz que os ovos especiais do tipo caipira, livres de gaiola, orgânicos e com adição de ômega-3 e selênio têm uma aceitação boa do mercado, especialmente nas capitais, mas como os ovos têm data de validade de 30 dias não dá para “forçar a barra” com essa distribuição em regiões mais pobres.
FONTE DE RENDA | Triagem de ovos no Espírito Santo: a avicultura emprega diretamente 20.000 pessoas e envolve cerca de 100.000 famílias no estado
Ricardo Benichio
“O setor já pratica o bem-estar animal. Comercialmente, seria ideal produzir 100% fora de gaiola porque esse ovo tem um valor agregado maior, mas a população não quer pagar o preço dessa produção, que é muito mais cara”.
Leandro Pinto, fundador e presidente do conselho da Granja Mantiqueira, diz que a empresa, que se associou à JBS no ano passado, continua investindo na exportação de ovos comerciais para sete países e também na produção de ovos de galinhas livres de gaiola. Segundo ele, a produção aumentou 10% no ano passado e as exportações também. “Somos o maior produtor de ovos para consumo no Brasil. Só perdemos a liderança quando se inclui na conta os ovos férteis e de codornas.”
Segundo o empresário, a Mantiqueira tem registrado maior crescimento na produção dos ovos de galinhas livres de gaiola, que já representam 25% do volume anual, e mantém o compromisso de abrir novas granjas neste modelo. As unidades com gaiolas, diz, respeitam o bem-estar animal, mas as aves presas não podem expressar seu comportamento natural. A maior granja de galinhas livres da Mantiqueira, cujos ovos levam a marca Happy Eggs, está instalada em Lorena (SP).
A gigante de ovos comerciais tem outras 15 granjas no Brasil, nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Paraná e Santa Catarina. O foco da companhia neste ano é abrir novos mercados para exportação. “Depois que se aprende, exportar ovos fica fácil. A gente faz embarques há 20 anos. Na cadeia refrigerada, o shelf life do ovo sobe para 90 a 180 dias”, afirma Leandro, acrescentando que a empresa não foi tão afetada pelo tarifaço americano porque passou a operar nos Estados Unidos com a granja Hickman’s Egg Ranch, comprada no final do ano passado.
Segundo o presidente da ABPA, nos últimos anos, houve muita inserção de tecnologia em ambiência nas granjas brasileiras. Mesmo nas gaiolas, a produção segue regras rigorosas de temperatura, nutrição, genética de matrizes, controle de qualidade da casca do ovo, inserção de ômega-3 e selênio na alimentação das galinhas e de outras tecnologias. Algumas indústrias estão 100% tecnificadas e investem alto para garantir mais resistência das aves, menos consumo de ração e menos dejetos.
Para Santin, o caso de gripe aviária em uma granja comercial do Rio Grande do Sul no ano passado acendeu mais luzes vermelhas no setor e reforçou a importância dos cuidados com a biossegurança nas granjas.
“As aves migratórias começam a chegar ao Brasil em abril. Temos que seguir o que deu certo até agora: evitar visitas nas unidades, desinfetar carros, usar roupas exclusivas para entrar nos aviários, telar todos os barracões, usar águas de poços controlados”, ressalta Santin.
Claudia Scarpelin, analista de ovos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, diz que a rápida resolução do primeiro e único registro de gripe aviária noBrasil contribuiu para que os efeitos do episódio sobre o mercado não tenham sido tão negativos. “Agora para 2026, o cenário ainda é de alerta. O Brasil convive com o risco dessa doença, assim como diversos países. Mas, apesar do risco, eventuais surtos em outros países podem favorecer o Brasil, ampliando o espaço para as exportações e a conquistas de novos mercados, como observamos com os EUA no ano passado”, afirma.






