
As usinas de cana do Centro-Sul do Brasil devem iniciar a próxima safra, a 2026/27, focadas na produção de etanol, que está remunerando mais que o açúcar. Mas esse movimento não deve ser suficiente para reduzir a oferta do produto, como pretendem as usinas. Isso porque, diferentemente das últimas temporadas, o clima está ajudando, e a colheita de cana-de-açúcar pode superar a do ciclo atual, estimam analistas e traders ouvidos pelo Valor. Assim, será mais difícil enxugar a oferta global e elevar as cotações do açúcar, que já caíram mais de 26% em 12 meses na bolsa de Nova York.
As usinas enfrentam preços abaixo da média há 240 dias. Se os futuros em Nova York não reagirem, serão 1.309 dias de queda, segundo a consultoria FG/A — o ciclo de baixa mais longo de sua série histórica, iniciada em 1999.
Se depender do clima, a pressão de baixa deve persistir. As chuvas de fevereiro no Centro-Sul superaram a média histórica. E os modelos meteorológicos indicam que o Centro-Sul deve receber chuvas acima da média também em março e abril, melhorando as condições para a próxima colheita.
Segundo Fabio Marin, docente do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq/USP e coordenador do Sistema TempoCampo, a condição hídrica até agora já permitiria uma produtividade 3% maior que a safra atual.
Analistas ainda consideram que a área a ser colhida deve crescer. As projeções de colheita na próxima safra do Centro-Sul estão entre 620 milhões de toneladas e 630 milhões de toneladas. Na safra atual, a produção deve ser de 600 milhões de toneladas.
A maior disponibilidade de matéria-prima pode frustrar em parte o esforço das usinas para reduzir a fabricação de açúcar, cujos preços estão nas mínimas em cinco anos na bolsa de Nova York, a 14 centavos de dólar a libra-peso.
Aos valores atuais, o etanol remunera o equivalente a 2 centavos de dólar a mais as usinas de São Paulo, e 4 centavos de dólar a mais as usinas do Centro-Oeste, segundo a consultoria StoneX. Há um incentivo maior para as usinas do Centro-Oeste produzirem mais etanol, pelo custo logístico mais elevado para exportar açúcar pelo Sudeste, e pelos benefícios fiscais locais ao produto, disse Nathalia Bruni, analista da consultoria.
Para a StoneX, se as usinas do Centro-Oeste fizerem o máximo de etanol que puderem na próxima safra, o mix médio de açúcar no Centro-Sul cairia de 49,6% nesta safra para 47% no próximo ciclo. Considerando uma moagem de 620 milhões de toneladas no Centro-Sul, a produção de açúcar cairia 2 milhões de toneladas, para 38 milhões de toneladas. Se a moagem de cana for de 630 milhões de toneladas, a redução da oferta é de 1 milhão de toneladas.
Outras consultorias têm números semelhantes. Nas contas da FG/A, a produção de açúcar no Centro-Sul deve ser de até 39 milhões de toneladas, resultado de um direcionamento de 47% da cana para a commodity. A Safras & Mercado projeta um mix açucareiro de 47% e uma produção de açúcar de 38 milhões de toneladas, sem considerar aumento na moagem. Já a trading de etanol SCA estima que a moagem deve subir para 630 milhões de toneladas, enquanto o mix açucareiro deve recuar de 51% para 48%.
Entre os traders de açúcar, a visão é menos pessimista para os preços. A Alvean considera que a safra de cana crescerá entre 2% e 3%, mas não descarta mais redução no mix açucareiro, já que a fixação dos preços está atrasada, disse a empresa, em nota. A Czarnikow estima por ora um mix açucareiro de 48%, com produção de 40 milhões de toneladas, mas admite que pode haver retração, disse a analista Ana Zancaner.
A produção de açúcar ainda pode ganhar algum suporte se o preço do etanol cair muito. “À medida que colocarem mais etanol no mercado e tirarem açúcar, o preço vai se corrigir”, afirmou Bruni, da StoneX.
Para Willian Hernandes, sócio da FG/A, o mundo vai precisar de uma oferta de 39 milhoes de toneladas do Centro-Sul. “Qualquer número abaixo de 38 milhões de toneladas é muito baixo”, avaliou. Ele ressaltou que as usinas têm hoje ampla capacidade de mudança de mix. “Mas se você tem uma safra grande, não tem para onde correr”.
Ainda que o Centro-Sul reduza sua oferta em 2 milhões de toneladas, boa parte das projeções indica uma sobra de açúcar no mundo. A Czarnikow projeta excedente de 6,6 milhões de toneladas no ciclo 2025/26 (de outubro a setembro), e a Organização Internacional do Açúcar (ISO, na sigla em inglês), de 1,6 milhão de toneladas.
Já a Alvean vê um balanço mundial “em equilíbrio com redução de produções na Tailândia e na Índia”, e acredita que uma redução maior do mix açucareiro no Brasil pode “levar o balanço mundial de equilibrado para deficitário”.





