
A recente aprovação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia inaugura uma nova etapa para o agronegócio brasileiro. Mais do que ampliar oportunidades comerciais, o acordo traz consigo um conjunto de exigências que reposiciona a rastreabilidade como elemento central da competitividade internacional. Não se trata apenas de exportar mais, mas de provar, com dados confiáveis, como e onde cada produto foi produzido.
Nesse contexto, ganha protagonismo a nova regulamentação europeia conhecida como EUDR (European Union Deforestation Regulation). A norma estabelece um princípio claro e inegociável: produtos originados de áreas desmatadas não poderão acessar o mercado europeu. Para cumprir esse requisito, não bastam declarações genéricas ou documentos isolados. Será necessário demonstrar, de forma objetiva e verificável, a origem de cada lote comercializado.
Na prática, isso significa que cadeias produtivas inteiras precisarão operar com um nível de transparência sem precedentes. Setores estratégicos para o Brasil como carne e couro, soja, café, cacau, madeira, óleo de palma e borracha estão diretamente impactados. São cadeias complexas, extensas e fundamentais para a economia nacional. Qualquer falha nesse processo pode representar perda de mercado, de valor e de reputação.
A rastreabilidade exigida pela EUDR não é simples. Um bovino, por exemplo, pode passar por diversas propriedades ao longo de sua vida produtiva. A soja, por sua vez, costuma ser transportada, armazenada e comercializada em grandes volumes consolidados, o que dificulta a separação por origem. Sem critérios claros e padronizados, acompanhar essa trajetória se transforma em um verdadeiro quebra-cabeça logístico e informacional.
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É justamente nesse ponto que a padronização se torna decisiva. Em um ambiente globalizado, dados precisam ser compreendidos da mesma forma em diferentes países, sistemas e plataformas. Não basta ter informação: é preciso que ela seja estruturada e confiável. Padrões globais permitem que um dado gerado no campo brasileiro seja corretamente interpretado por um importador europeu, por uma autoridade reguladora ou por um consumidor final.
A adoção de padrões internacionais de identificação e rastreabilidade permite organizar fluxos de informação desde a origem até o produto final, conectando produtores, cooperativas, indústrias, distribuidores e varejo. Quando essa integração não existe, surgem lacunas, retrabalho e insegurança. Quando existe, transforma-se em vantagem competitiva.
É compreensível que parte do setor enxergue esse movimento como um custo adicional ou uma exigência burocrática. No entanto, a história recente mostra que mercados cada vez mais exigentes não retrocedem. Ao contrário, tendem a elevar o nível de cobrança. Países e empresas que se antecipam às regras não apenas se mantêm competitivos, como passam a liderar.
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O Brasil tem condições concretas de transformar a rastreabilidade em um ativo estratégico. Cadeias como a do cacau, por exemplo, podem ganhar espaço em um mercado hoje dominado por poucos países, desde que consigam demonstrar origem responsável e produção sustentável. O mesmo vale para proteínas animais, grãos e produtos florestais.
O desafio está posto. A escolha agora é entre reagir às exigências quando elas se tornam barreiras ou incorporá-las desde já como parte da estratégia de crescimento. Em um mundo cada vez mais orientado por dados, a rastreabilidade deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser uma linguagem comum do comércio internacional.
O agro brasileiro sempre demonstrou capacidade de adaptação e inovação. Ao investir em padronização, integração de dados e interoperabilidade, o país não apenas atende às novas regras, mas reforça sua posição como fornecedor confiável, sustentável e competitivo. O futuro do comércio passa por informação de qualidade e quem entender isso primeiro estará alguns passos à frente no tabuleiro global.
*João Carlos de Oliveira é presidente da Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil
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