
A crescente demanda por cafés de qualidade tem estimulado produtores e donos de cafeterias a investir na microtorrefação e criação de marcas próprias, gerando, por consequência, um aumento na demanda por microlotes de café verde.
Esse movimento do mercado tem sido positivo para os pequenos produtores, que conseguem agregar valor ao produto vendido. “Há uma janela de oportunidade nesse cenário. Por isso, estamos trabalhando na capacitação de pequenos produtores para produção de cafés especiais, que eles podem vender em microlotes, e também na torrefação própria, com o mesmo objetivo”, comenta Cinthia Mara Lopes de Souza, que coordena o projeto Mulheres do Café no Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR).
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) apontam que 8% das indústrias de torrefação brasileira são por nanotorrefadoras (processam até cinco sacas por mês). Outros 24% são micro (de seis a 50 sacas/mês) e 51% são pequenas torrefadoras (51 a 1.000 sacas/mês). Apenas 12% são médias (1.001 a 5.000 sacas/mês) e 5% grandes (mais de 5.000 sacas/mês).
Maristela Souza, produtora de Pinhalão (PR), conta que o convite do Projeto Mulheres do Café para participar de cursos sobre produção de cafés especiais a impulsionou ao empreendedorismo. “Aceitei o convite, assisti aos cursos e comecei a cultivar cafés especiais. Um passo de cada vez, transformei parte da lavoura, comecei a torrar, apliquei tudo o que aprendi. Posso dizer que me tornei uma empreendedora”, declara.
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Já na primeira safra de café especial no Sítio São Luiz, onde cultiva seis hectares de café, Maristela conquistou o primeiro lugar no Concurso Café de Qualidade Paraná. E o feito se repetiu nos anos de 2018 e 2019. “Essa premiação abriu portas para que começasse inclusive a exportar. Nosso café verde é vendido para Holanda, Estados Unidos, Austrália”, conta.
Um diferencial é que os pedidos são totalmente customizados e não há limite mínimo para compra. “São microlotes que vão para outros países, ou para diferentes pontos do Brasil. Pedidos de uma até vinte sacas. Vendemos para muitas cafeterias ou empórios”, explica Maristela. Já a parcela que ela torra no sítio é vendida para restaurantes ou visitantes do local, já que o turismo na região também é crescente.
Maristela Souza, de Pinhalão (PR), entrega pedidos customizados de cafés especiais, além de realizar a torra na propriedade
Arquivo pessoal
Sirlene Souza, também produtora de Pinhalão, conquistou a 23ª edição do Concurso Café de Qualidade Paraná, categoria Cereja Descascado. Ela conta que a premiação é fruto dos esforços realizados para agregar valor à produção do sítio.
“Desde 2020, quando comecei a entender que poderia empreender e valorizar nosso café, realmente as condições mudaram por aqui. Vendemos pequenos ou microlotes de cafés especiais, para um mercado que é de nicho, mas vem crescendo”, avalia.
Além da orientação e parceria com o Programa Mulheres do Café, sirlene também fez cursos no Sebrae. “Aprendi sobre manejo e sobre mercado. Com 30% do plantio do nosso sítio com cafés especiais, aumentamos bastante o lucro”, diz. As vendas desses microlotes de café verde são para turistas, cafeterias e cooperativas regionais.
Microtorrefação e estilo de vida
Isabela Raposeiras criou em São Paulo o Coffee Lab, que é um laboratório de torra, degustação e preparo de cafés de qualidade e focado em microlotes com características singulares. Ela conta que há um interesse crescente do público pelo entendimento do processo de torra do café, em busca de sabores diferenciados.
“O café de especialidade faz parte de um novo estilo de vida. É uma tendência que vem há alguns anos, com viés de alta. O público busca histórias, origens e experiência”, comenta Isabela.
No Coffee Lab, o público principal que busca os cursos são donos de cafeterias e empórios, com alguma participação daqueles que têm a prática como hobby. “Enquanto buscam sabores autorais, poder comprar microlotes de café verde é uma parte importante do processo, já que permite maior experimentação”, diz.
“No exterior há sites e marketplaces especializados em microlotes de café verde, justamente para atender esse tipo de demanda. Seria maravilhoso ter esse serviço no Brasil”, finaliza.





