Símbolo da tradição rural brasileira, o jumento está no centro de um acalorado debate científico e judicial, que ganhou novos capítulos recentemente. O debate envolve temas como a viabilidade econômica, bem-estar animal e a preservação da espécie.
Após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) autorizar o abate de jumentos em novembro de 2025, um grupo de sete pesquisadores de universidades públicas e privadas divulgou uma carta aberta contra a decisão.
O documento intitulado “O abate de jumentos no Brasil é extrativista e economicamente insustentável” é categórico e rechaça a prática com argumentos econômicos e zootécnicos.
Apesar de serem contra a produção de carne, os pesquisadores que assinam a carta aberta não formam consenso sobre o uso comercial do leite de jumenta.
Recentemente, o Brasil passou a integrar uma rede global de pesquisa sobre asininos, que visa justamente desenvolver e aprimorar a viabilidade econômica da produção de jumentos.
Depois de firmar intercâmbio técnico com a China, o grupo avança em novas parcerias com instituições e especialistas na espécie de outros países, como África do Sul, Argentina, Austrália, Canadá, Espanha, Japão e Marrocos.
A mobilização foi liderada pelo professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Gustavo Ferrer Carneiro, que também é integrante do Conselho Diretor da International Society for Equine Reproduction (ISER).
Ele é favorável ao uso comercial dos jumentos, inclusive o abate para produção de carne, desde que alinhado aos preceitos de bem-estar animal e à estruturação da cadeia.
“A melhor forma de preservar a espécie é haver sustentabilidade também econômica. Os asininos têm importante potencial econômico para produção de alimentos, cosméticos e medicamentos”, sustenta.
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Contrários
A carta aberta baseia-se no estudo “Viabilidade Econômica do Abate de Jumentos na Bahia”, conduzido pelo professor Roberto Arruda de Souza Lima, da Esalq/USP, e conclui não haver sustentabilidade econômica na criação de jumentos para fins de abate.
O documento argumenta que o Brasil não tem uma cadeia desenvolvida na atividade e, mesmo em países com produção estruturada, como a China, a atividade é deficitária.
“Diferentemente da pecuária bovina, não há criação planejada, manejo reprodutivo nem reposição organizada de plantel. Trata-se de uma exploração extrativista baseada na captura de animais, o que caracteriza a exaustão de um estoque biológico finito”, descreve o documento.
Outro argumento aponta que fatores biológicos, como baixa taxa reprodutiva, gestação de 12 meses e lenta reposição, tornam inviável qualquer tentativa de escala produtiva sustentável ao longo do tempo.
O texto destaca, ainda, a irrelevância econômica da atividade para o país. A contribuição da indústria de asininos às exportações brasileiras é descrita como insignificante (inferior a 0,000003% do total).
Além disso, municípios com abatedouros não teriam registrado crescimento econômico ou aumento de arrecadação no período analisado.
O pesquisador rechaça a viabilidade do abate de jumentos até mesmo em cenários simulados de longo prazo, considerando 50 anos de criação.
Além das limitações biológicas, pesam custos logísticos elevados e baixa conversão produtiva, o que comprometeria a rentabilidade estrutural do negócio.
A pesquisa cita que, na China, onde há maior demanda por peles para produção de ejiao (espécie de gelatina medicinal, que demanda cerca de 5,4 milhões de peles por ano), o setor opera com prejuízos estimados em cerca de 25%.
Em outras palavras, o modelo não se sustentaria economicamente nem no principal mercado consumidor.
Instalações da unidade de pesquisa de jumentos da UFRPE em Guaranhuns (PE)
UFRPE/Divulgação
Favoráveis
Já a rede internacional de pesquisadores aborda diferentes possibilidades comerciais e científicas para a espécie. Entre os campos de pesquisa, eles visam estudar o processo reprodutivo dos animais, bem como o uso de bioativos do leite de jumenta para a medicina e a produção de alimentos.
De acordo com Carneiro, o jumento brasileiro, especialmente o nordestino, tem despertado crescente interesse internacional e atraído pesquisadores de diferentes países, como Canadá e Espanha.
“Com a University of Saskatchewan, do Canadá, o experimento focará nos embriões de jumentos. Já com a Universidad Complutense de Madrid, visamos uma pesquisa interinstitucional para preservação do jumento nordestino e das raças espanholas Andaluz e Zamorano”, afirma o professor Carneiro.
A parceria com a China aposta no desenvolvimento de diluentes de sêmen livres de antibióticos à base de leite de jumenta. O produto é naturalmente rico em compostos bioativos, como a lisozima, conhecida por sua ação bactericida e bacteriostática.
“Reduzir o uso de antibióticos por meio de alternativas naturais e eficazes, como os bioativos do leite de jumenta, é uma estratégia que interessa à comunidade científica e à sociedade como um todo”, explica.
Ele também destacou o projeto “Conexão Brasil–Argentina–Austrália”, voltado para pesquisas em ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide).
A técnica é utilizada na produção de bardotos e mulas — híbridos do cruzamento entre asininos e equinos — e despertam grande interesse entre criadores do jumento da raça Pêga, especialmente para atividades de montaria e manejo do gado.
A iniciativa ainda decidiu ampliar as ações de intercâmbio científico por meio da realização de cursos internacionais.
Entre os temas centrais definidos nas reuniões mais recentes do Conselho está a Reprodução de Jumentos, área considerada estratégica para o avanço das pesquisas em reprodução animal.
“Também estamos programando eventos presenciais no Marrocos, na África do Sul e na Ásia, possivelmente na China ou no Japão. Todos os projetos se somam, formando um conjunto amplo de iniciativas do agronegócio voltadas à consolidação de uma cadeia produtiva asinina sustentável e economicamente viável”, destaca Carneiro.
Uso do jumento segue necessário na cultura de sisal
The Donkey Sanctuary/Divulgação
Extinção da espécie
Os dois grupos de cientistas e especialistas também divergem sobre a possibilidade de extinção dos jumentos no Brasil.
A carta aberta cita a redução de 94% na população de jumentos entre 1996 e 2024, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Food and Agriculture Organization (FAO) e Agrostat.
Além da carta aberta, também existe uma “Declaração de Estado de Emergência” sobre o tema, que foi assinada por 12 pesquisadores e divulgada durante o III Workshop Internacional Jumentos do Brasil — Futuro Sustentável, no ano passado, em Maceió.
Contudo, o professor da UFRPE argumenta que a queda ocorreu pelo abandono dos animais “à própria sorte”, que já não ficam nas propriedades por terem perdido sua função.
“Os jumentos sobreviveram graças à sua rusticidade. Viraram um animal ecótipo, livres na natureza. Por isso não são computados em censos agropecuários. Apenas uma pequena parte está em propriedades rurais”, argumenta.
Esse quadro aplica-se principalmente à raça jumento nordestino, que seria a mais presente no Brasil. “Não existem dados confiáveis sobre a população de jumentos nordestinos. Mas a possibilidade de extinção não me preocupa”, opina.
Outras raças existentes no Brasil são a Pêga, com cerca de 40 mil animais, e o Jumento Paulista, com população próxima a 20 mil. A UFRPE mantém um centro de estudo sobre o jumento nordestino, em Garanhuns (PE), com cerca de 30 fêmeas.
Destinação “bem-estarista”
Como alternativas, Patricia aponta usos não predatórios com valor ambiental e econômico, como o manejo de biomassa para prevenção de incêndios, conservação genética, turismo rural, agricultura familiar e mercado de animais de alto valor zootécnico.
Após reforçar que a primeira medida considerada central é a proibição do abate, ela defende que a espécie já está naturalizada em diversos biomas brasileiros e exerce funções ecológicas, sociais e econômicas relevantes.
“O jumento não é apenas um animal de produção. Ele integra a dinâmica ambiental, inclusive como presa de predadores como a onça-parda, participando da cadeia alimentar”, afirma.
Para ela, retirar animais do ambiente sob lógica comercial desorganiza esse equilíbrio e ignora serviços ecossistêmicos que não entram na conta econômica tradicional.
A pesquisadora também destaca o papel social dos jumentos na agricultura familiar, especialmente em regiões produtoras de cacau e sisal. Nesses locais, os pequenos produtores dependem da tração animal em áreas onde a mecanização não é viável técnica ou financeiramente.
“Há comunidades que simplesmente não conseguem substituir o jumento por máquinas. Ele é força de trabalho, é meio de transporte e, muitas vezes, é também animal de companhia”, diz.
Por fim, Patricia recomenda que qualquer política pública precisa considerar essa dimensão socioeconômica antes de incentivar novos modelos comerciais para a espécie.