A Itaueira Frutas, empresa familiar que nasceu no interior do Piauí há mais de 40 anos, investiu R$ 80 milhões em 2025 para voltar a produzir melão e melancia no Ceará, de onde havia saído em 2016 por causa de uma crise hídrica. Ao reestrututar a produção no Estado, a empresa, uma das maiores da fruticultura nacional, também retornou ao mercado externo.
O investimento da companhia no Ceará e sua volta às exportações são parte de uma estratégia ambiciosa de crescimento, que inclui outras ações. A Itaueira — dona da marca Rei, que batiza seus melões e também itens como pimentões, uva e mel — estima ter faturado R$ 500 milhões em 2025, um recorde na história da empresa, que estreou no mercado de capitais em janeiro deste ano e considera fazer uma oferta inicial de ações no futuro.
Na fazenda que comprou em Morada Nova (CE), o plantio ocorreu em 1.150 hectares. Com a nova área, a colheita de melão e melancia nos três Estados em que a Itaueira produz as duas frutas — Bahia e Piauí, além do Ceará — alcançou 85 mil toneladas, afirmou à Globo Rural o presidente executivo (CEO) da empresa, Tom Prado. Segundo ele, a primeira colheita na propriedade, que ocorreu no fim do ano passado, foi boa, mas o volume total ainda ficou aquém do potencial.
A nova propriedade cearense fica a 80 quilômetros da anterior e conta com uma distribuição melhor de água. A partir da fazenda, a companhia exportou melão e melancia para União Europeia, Inglaterra, Oriente Médio e Canadá, aproveitando o diferencial logístico favorável do Estado, que fica mais próximo desses mercados que outras regiões do país, e a janela para vendas aos europeus, que vai de setembro a março.
Prado comemora a volta às exportações, mas diz que o preço do melão da Itaueira no exterior ficou abaixo dos valores do mercado interno. Segundo ele, o ano de 2025 foi um dos mais difíceis para os exportadores de frutas que vendem para a Europa, e a empresa chegou até a pensar em abandonar esse mercado, mas mudou de ideia depois de participar da Fruit Logistica, em Berlim, no começo deste mês. “Muitos compradores antigos e clientes novos demandaram nosso melão”, conta.
No topo
A Itaueira nasceu no município de Canto do Buriti, no Piauí, em outubro de 1983, por iniciativa dos irmãos Carlos e José Roberto Prado, respectivamente pai e tio de Tom, que hoje ocupam assentos no conselho administrativo. Em 2024, a empresa teve receita líquida de R$ 481,5 milhões — o que faz dela uma das cinco maiores da fruticultura brasileira, segundo a edição mais recente do “Anuário do Agronegócio”, da revista “Globo Rural” — e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) superior a R$ 122 milhões. O melão responde por 80% do faturamento da empresa.
Consultorias externas auditam as contas da Itaueira há mais de cinco anos, e a empresa aguarda o parecer da KPMG para divulgar o faturamento de 2025, que já incluirá a receita com a produção de melão em Morada Nova. A companhia estima que a receita passará de R$ 500 milhões.
Em janeiro, a empresa estreou na B3. Os diretores da Itaueira até tocaram a campainha no início do pregão da bolsa, mas o evento não foi — ainda — um marco da abertura de capital. Pela primeira vez, a Itaueira captou recursos por meio de Nota Promissória Comercial, de R$ 100 milhões, e de CPR-F (Cédula de Produto Rural Financeira), de R$ 50 milhões.
“Optamos por captar recursos a taxas convidativas para recompor o capital e bancar os investimentos na empresa com mais tranquilidade. Buscamos seguir investindo na modernização dos nossos ativos e levando ao campo novas tecnologias. Isso vai deixar a empresa ainda mais competitiva”, diz Tom Prado. A abertura de capital está nos planos, ele observa.
O grupo de comando da companhia tem ainda José Luís, diretor operacional, e Caito Prado, diretor comercial, irmãos do CEO. José Luís conta que a Itaueira decidiu suspender a produção no Ceará, em 2016, em virtude da crise hídrica daquele ano, que deixou o açude da Castanheira com apenas 9% de volume de água.
Em 2017, sem as plantações cearenses, a produção da empresa caiu pela metade. Outra queda expressiva ocorreu em 2021, quando a Bahia registrou seu maior índice pluviométrico em 17 anos.
“Melão gosta de água, mas não de chuva, que traz doenças, pragas e problemas na fertirrigação. Para mitigar riscos, escolhemos produzir nos três lugares, com uma distância de 800 quilômetros entre as fazendas, para atender o consumidor o ano todo. Por isso, o ideal era retomar a atividade no Ceará”, conta o diretor operacional.
Logo após a crise hídrica, a Itaueira comprou uma fazenda em Ipanguaçu (RN) para tentar produzir melão. No entanto, o fruto não atendeu aos padrões de qualidade e doçura da Itaueira porque a água dos poços era salobra.
Oportunidade
Mas o que poderia ter sido um fracasso tornou-se uma oportunidade. Um amigo da família, produtor de camarão, sugeriu que a empresa mudasse a finalidade da fazenda. Nasceu, então, o negócio de camarão. A Itaueira produz o crustáceo em sistema de recirculação de água totalmente fechado.
Ele conta que o cuidado extremo com a qualidade da água rende um camarão do tipo grande, que a companhia vende no Estado com marcas de outros produtores. Neste ano, a Itaueira passará a usar a marca Rei nos camarões e vai comercializar o produto também em São Paulo.
Em 2025, a empresa produziu 404 toneladas de camarões. Com a expansão de área de produção para 328 hectares, o objetivo é dobrar o volume, o que deve exigir um investimento de R$ 30 milhões.
Ao todo, a companhia tem 22 mil hectares, distribuídos em quatro Estados. Metade é área de preservação, segundo os diretores.
Investimento em marca
Para os próximos anos, a empresa prevê a expansão de todas as suas atividades, que, além da produção de melão Rei, minimelancia da Magali e camarão, incluem mel, cultivo de pimentões, sucos industriais e uvas (único produto comercializado pela Itaueira que vem de terceiros).
O plano é elevar os investimentos na marca Rei, adotada inicialmente para o melão, mas que já aparece nas embalagens individuais de pimentão e em breve estará no camarão
“Nosso melão já era conhecido em todo o país como o melão da redinha e vimos que seria interessante ter uma marca mais forte. Solicitamos a patente e, para nossa surpresa, ninguém tinha registrado a marca Rei para frutas. Aliás, poucas frutas têm registro de marca. A marca gera fidelização do consumidor, mas também pode gerar prejuízo se não entregar o que promete”, diz Tom Prado.
Na Itaueira, a marca garante rastreabilidade e controle de qualidade dos alimentos desde as mudas até o consumidor final. Funciona assim: se um consumidor comprar um melão que não seja doce ou tenha outras irregularidades, pode entrar em contato com a empresa por meio do QR Code impresso em cada fruta. A reclamação aciona um sistema que vai identificar lote, dia de plantio, dia da colheita, transporte, para verificar onde ocorreu a falha.
“A produtividade do nosso melão segue a média nacional porque nossa preocupação é com o sabor. É preciso escolher um santo para rezar e nós escolhemos o sabor. O ponto de colheita é fundamental. O melão amarelo não amadurece depois de colhido. Por isso, passamos mais de cinco vezes numa área para colher apenas os frutos maduros”, explica Caito.
Segundo ele, a adoção de tecnologias e o manejo é que fazem a diferença. A empresa investe na aquisição de sementes selecionadas, produção de mudas e tratamento da água. Também coloca os nutrientes adequados para a fertirrigação automatizada, acompanha a nutrição do solo e prioriza o uso de produtos biológicos, além de usar drones para monitorar as áreas de plantio, de acordo com o empresário.
No total, a Itaueira tem 3.100 funcionários, sendo 1.600 apenas na fazenda do Ceará. Além do pessoal do campo, há pesquisadores e técnicos.
Todas as fazendas trabalham com agricultura de precisão, possuem rede wi-fi e energia solar para conexão dos equipamentos. Atualmente, a equipe trabalha na junção de todas as informações extraídas para usar inteligência artificial no campo.