A transformação digital, a expansão contínua e a chegada de sucessores à liderança das empresas do agronegócio estão atraindo o olhar de investidores para um segmento discreto: o das companhias de SaaS, ou “software as a service”, plataformas de softwares de gestão e serviços, que se dedicam ao agro. Esse foi o raciocínio que levou o fundo Iole Capital a fechar a compra da Simova, empresa de São José dos Campos (SP) especializada em softwares de gestão de operações em campo que atua em 12 países, de quatro continentes.
Nem Iole nem Simova revelaram o montante da operação. O Valor apurou, no entanto, que a empresa fatura cerca de R$ 30 milhões ao ano e espera registrar lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 10 milhões em 2026.
O Iole é um “search fund”, como são conhecidos os fundos que funcionam como uma espécie de “empreendedorismo por aquisição”, explica o criador do fundo, André Asti. Os “search funds” buscam empresas que tenham potencial de crescimento e precisem aprimorar sua gestão. Identificado o alvo, o fundo acerta a compra da empresa, fechando negócio com recursos de outros investidores.
Leia também
Três em cada quatro produtores convivem com ‘buracos’ de internet nas fazendas
Tecnologia torna-se ‘chave’ para destravar acesso a crédito rural
Asti, que por mais de sete anos atuou como executivo da Anthology, uma empresa de tecnologias para educação, criou o Iole Capital em 2023. O fundo conta com aporte da gestora Kviv Ventures, de Raphael Klein, filho de Michael Klein e neto de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia.
Até a escolha da Simova, o fundo analisou mais de 420 companhias, segundo Bruna Vianna, sócia da Acorn Advisory, boutique de fusões e aquisições que atuou na seleção e também no fechamento do acordo. Ela conta que a empresa de São José dos Campos teve como diferenciais o baixo nível de cancelamento de serviços, a carteira de clientes robustos, o crescimento acelerado — acima de 40% ao ano nos últimos seis anos — e o fato de ser maior do que a maioria das concorrentes.
Também pesaram na decisão o crescente número de sucessores tomando a frente de empresas do agronegócio, a constante expansão do setor e o baixo índice de adoção de sistemas de gestão em companhias do agro, acrescenta Asti, que assumirá como presidente executivo (CEO) da Simova. Os fundadores Fábio Calegari e Tiago Pinheiro seguirão à frente das áreas de tecnologia e operações.
Ao longo de duas décadas, a Simova consolidou-se como fornecedora de softwares para gestão de equipamentos, mão de obra e também para a gestão de operações no campo; a clientela atua na agricultura — concessionárias agrícolas, setores sucroalcooleiro e florestal, propriedades rurais — e também na construção civil. Entre seus clientes estão a fabricante de papel e celulose Suzano, a distribuidora de insumos agrícolas Agro Amazônia e as construtoras Andrade Gutierrez e Grupo Galvão. O agro, porém, responde por cerca de 80% da receita da empresa, segundo Asti.
O Iole Capital tem, ao todo, 40 investidores, e desde o início contou com o respaldo financeiro da Kviv. A gestora de Raphael Klein entrou na aquisição da Simova como investidor-âncora e terá um membro no conselho de administração da empresa, afirma Asti.
Com o aporte, o executivo quer multiplicar por dez o Ebitda da Simova em um intervalo de cinco a sete anos. Se considerados os números que o Valor apurou, o Ebitda chegaria perto de R$ 100 milhões. “Quero fazer da Simova líder global em SaaS para o agronegócio”, diz ele.
A empresa já tem clientes nas Américas do Norte, Central e do Sul, na Europa e na África. Agora, ela buscará avançar na Ásia e na Oceania. “Tudo mais constante no mundo dos negócios, vamos crescer em Ebitda e receita e chamar a atenção de compradores que gerem o retorno que o acionista espera, de pelo menos 35% de TIR (taxa de retorno interno)”, afirma Asti. Ele e Vianna acreditam que haverá mais investimentos em empresas de SaaS para o agronegócio.