
A guerra no Oriente Médio acentua as incertezas no ambiente econômico internacional. E, para o agronegócio brasileiro, lidar com a situação vai depender da capacidade de se adaptar a eventuais rupturas na logística de mercadorias. A avaliação é do Insper Agro Global.
“É importante acompanhar a evolução do conflito e seus efeitos sobre a estabilidade da região, uma vez que estão em jogo não apenas mercados relevantes, mas também rotas estratégicas de transporte marítimo e o fluxo global de petróleo”, afirmam os pesquisadores, em relatório.
Eles pontuam que a duração e o grau de intensidade do conflito ainda são incertos. Mas a instabilidade nas rotas logísticas e no fornecimento de energia tende a ter efeito sobre cadeias globais de produção e de comércio.
“Os custos logísticos são afetados por desvios de rota, elevação da percepção de risco com aumento dos prêmios de seguro no transporte marítimo, com impactos diretos sobre o comércio. O resultado é a ampliação das despesas operacionais ao longo da cadeia”, dizem.
A guerra começou no sábado (28/2) e, desde então, traz preocupações para o comércio internacional. A principal é o bloqueio da navegação pelo estreito de Hormuz, por onde passam pelo menos 20% da produção mundial de petróleo, além de outras mercadorias com origem e destino ao Oriente Médio.
A incerteza na região, que fica entre os golfos Pérsico e de Omã, já provoca aumento de preços de frete e a cobrança de taxas adicionais de navegação. Exportadores do agro, que têm o Oriente Médio como mercado ou rota, já avaliam possíveis consequências, a depender da duração do conflito.
Os pesquisadores do Insper Agro Global acrescentam que a guerra coloca em risco a movimentação marítima também pelo estreito de Bab el-Mandeb, na área do Golfo de Áden, que dá acesso ao Canal de Suez, no Egito. O local é caminho para cargas de contêiner e bens de consumo entre Ásia e Europa.
“A instabilidade nessas passagens e nos fornecedores de produtos da região eleva o risco de um choque de oferta com alcance global, com potenciais repercussões relevantes para as cadeias do agronegócio brasileiro”, afirmam.
Estreito de Hormuz controla a navegação no Golfo Pérsico
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Para o agro, uma das principais consequências é o aumento de custos, além dos riscos com a própria instabilidade em uma região que está entre as mais relevantes para o comércio do setor no Brasil. Em 2025, as exportações agropecuárias para o Oriente Médio somaram US$ 12,4 bilhões, um aumento médio de 49% ao ano desde 2000.
O principal destino na região é, justamente, o Irã, que respondeu por 29,3% do valor total, com US$ 2,9 bilhões. Em seguida, aparecem Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. No agregado de todos os países, o Oriente Médio respondeu por 7,4% das vendas do agro brasileiro em 2025, com destaques para carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja.
Os pesquisadores pontuam que essa dependência da região por parte de alguns segmentos é até mais relevante do que o valor em si. O Oriente Médio, pela sua importância no comércio, não é só um “destino complementar”, em diversos casos, mas um “componente estrutural”.
A carne de frango é um exemplo. No ano passado, 1,5 milhão de toneladas foram para a região, o equivalente a 29% das exportações brasileiras do produto. Maior fornecedor global de carne de frango halal – produzida conforme os padrões islâmicos – um conflito nessa parte do mundo, que concentra grande parte da população muçulmana, se torna fator de risco.
O milho é outro exemplo. O Irã é o principal comprador do cereal do Brasil. No ano passado, foram 9 milhões de toneladas, o equivalente a 22% de tudo o que os exportadores brasileiros embarcaram. E bem acima da média histórica, que, nos últimos dez anos, foi de 5 milhões de toneladas.
Os especialistas ponderam que a maior parte do milho do Brasil é para consumo interno. Mas lembram que as exportações vêm aumentando sua relevância. Desta forma, um prolongamento do conflito no Oriente Médio pode trazer riscos comerciais relevantes para o setor.
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Energia e fertilizantes
O agro brasileiro também pode enfrentar dificuldades com a oferta e com os preços de fertilizantes, especialmente os nitrogenados. Citando dados do banco holandês Rabobank, o relatório do Insper informa que 45% das exportações globais de ureia passam por rotas associadas ao Golfo Pérsico.
“Além da grande importância dos países do Oriente Médio no fornecimento desse produto. Cerca de 25% da amônia, 20% do fosfato diamônico (DAP), 10% do fosfato monoamônico (MAP) e quase 30% do enxofre global circulam por essas vias marítimas, o que reforça o papel estratégico da região para a segurança alimentar mundial”, informa o relatório, destacando a alta dependência do Brasil de adubo importado.
Os analistas pontuam ainda que conflitos no Oriente Médio tendem a elevar o preço do petróleo no mercado internacional. As cotações do barril nas bolsas já chegaram a atingir os US$ 80 em alguns vencimentos, o que adiciona riscos e custos para as cadeias de combustíveis e de fertilizantes.
“Em conjunto, essas pressões tendem a comprimir margens e reduzir a competitividade do agronegócio brasileiro, em um contexto no qual produtores e empresas já enfrentam margens mais estreitas, custos e juros elevados e restrições de financiamento”, dizem.






