A escalada da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que envolve mais países do Golfo Pérsico, já provoca alta nos fretes marítimos, principalmente no transporte de contêineres. A insegurança no uso do Estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, desde o fim de semana, é o epicentro das disrupções, mas há ainda efeitos sobre o retorno dos navios ao Canal de Suez, no Egito.
Até o momento, não há interrupções generalizadas de rotas, mas armadores e analistas apontam pressão sobre tarifas, prêmios de seguro e combustível, o que pode se refletir no custo das importações e exportações brasileiras.
Segundo Leandro Barreto, consultor da Solve Shipping, os armadores já anunciam aumentos no frete, de cerca de US$ 800 a US$ 1 mil por contêiner na rota Ásia-Brasil – alta de pelo menos 38% sobre a média de US$ 2,1 mil, de antes da guerra – além de sobretaxas de risco de guerra de US$ 2 mil a US$ 3 mil para portos no Oriente Médio fora do Golfo Pérsico, e cobrança extra emergencial de combustível de US$ 150 para todas as rotas, refletindo a alta do petróleo.
De acordo com a consultoria Argus, o preço da diária de um navio na rota do Leste Asiático, a partir do Golfo, está em US$ 400 mil, o dobro do registrado na sexta-feira (27) – valor que já estava no maior patamar em seis anos.
Sérgio Albuquerque, gerente sênior da Peers Consulting & Technology, destaca que a rota que passa pelo Estreito de Ormuz é “muito crítica” para o comércio global, principalmente de combustíveis, energia e fertilizantes. Segundo ele, seguradoras já aumentaram os valores de cobertura em 40% a 60% desde o fim de semana, para trafegar no seu entorno, sem contar aquelas que já deixaram de segurar os navios, o que deve impedir a saída das embarcações.
“Tem muito operador parado e que vai ter de buscar nova rota, e isso vai encarecer o frete”, diz. Uma rota alternativa do Oriente Médio e da Europa para a Ásia é pelo Cabo da Boa Esperança, na África, o que representa mais tempo de viagem, mais combustível e deixa navios indisponíveis por mais tempo.
Ainda de acordo com Albuquerque, rotas a partir do Brasil podem ser afetadas pelo impacto na rede global de navios. “Frete tem uma dinâmica muito forte de oferta e demanda. Se você indisponibiliza muitos navios, o preço sobe muito, independentemente de se ele faz aquela rota. É um dominó”.
Tem operador que vai ter de buscar nova rota, o que encarece o frete”
Andrew Lorimer, CEO da consultoria Datamar, aponta que a falta de contêineres pode ser o maior problema, já que muitos ficarão parados nos navios e nos portos, aguardando uma resolução do conflito, o que deve elevar o frete.
“Pode começar a faltar contêineres vazios por aqui”, diz Barreto.
Rotas alternativas, como o Canal de Suez, são limitadas. “Poderia ser uma opção, mas ataques dos Houthis no Mar Vermelho a restringem, principalmente para embarques destinados à Arábia Saudita”, afirma. Armadoras também já estão postergando o retorno ao Canal por causa do alastramento do conflito no Irã, aponta Lorimer.
Ele destaca que cerca de 4,5% das exportações globais do Brasil, em volume de contêineres, passam pelo Estreito de Ormuz. São compostas, principalmente, por frango congelado. Hoje, a Maersk, uma das principais armadoras, já está cobrando taxas extras de até US$ 4 mil por contêiner para o Oriente Médio, afirma, o que dobra ou até triplica o custo do envio – “e não tem alternativa”.
A Maersk alertou para possíveis atrasos na região, por via área e marítima. A companhia mencionou, em comunicado, volatilidade nas tarifas de frete aéreo por restrição de capacidade e possíveis sobretaxas de risco de guerra e custos adicionais de combustível.
A CMA CGM suspendeu por tempo indeterminado todas as reservas de carga para portos no Bahrein, Kuwait, Catar e Iraque, além de parte dos Emirados Árabes e da Arábia Saudita.
A tendência, no momento, é que a elevação do preço do petróleo contamine toda a cadeia logística, de fretes marítimos ao combustível na bomba, na visão de Fabrizio Pierdomenico, ex-secretário nacional de portos e consultor da Agência Porto. Apesar do Brasil ter produção nacional, o petróleo segue o preço internacional. “É inevitável que os preços se alinhem a esse crescimento”.