
Poucas horas de estadia na Costa Rica são suficientes para entender por que o país é considerado um dos mais biodiversos do planeta. Montanhas, florestas tropicais úmidas, manguezais e costas banhadas pelos oceanos Atlântico e Pacífico formam um mosaico de ecossistemas de natureza exuberante e colorida, que floresce graças às boas condições climáticas e políticas de proteção ambiental.
Em uma área de 51.100 quilômetros quadrados, o equivalente a 0,03% da superfície terrestre – e pouco maior que a do Estado do Espírito Santo –, a Costa Rica abriga entre 5% e 6% da biodiversidade global, segundo instituições como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Estima-se que o território do país seja o habitat de quase 500.000 espécies de plantas e animais.
Em Turrialba, no centro do país, entre montanhas preservadas e vales férteis, está uma das coleções mais importantes de germoplasma de café e cacau do mundo. O Centro de Pesquisa Agrícola Tropical e Ensino Superior (Catie) é a entidade que, em uma estrutura de 1.000 hectares, abriga mais de 3.000 variedades das duas culturas somadas.
O local, que tem raízes na década de 1940, quando nasceu como Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA, um dos organismos que compõem a Organização dos Estados Americanos, a OEA), tornou-se uma instituição autônoma em 1973 e hoje trabalha com ciência, educação e extensão rural em 13 países da América Latina e do Caribe.
Sede do Catie, em Turrialba, na Costa Rica
Denise Saueressig
Para além da preservação, o centro atua no melhoramento de espécies, um trabalho que torna possível o cultivo das plantas em diferentes partes do mundo, conta o pesquisador Rolando Cerda, coordenador da Unidade de Agrossilvicultura e Melhoramento Genético de Café e Cacau do Catie. “As coleções são de domínio público. Elas podem ser compartilhadas com produtores e outras instituições de acordo com interesses específicos”, afirma.
No Brasil, a organização costariquense mantém parceria com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), do Ministério da Agricultura. “Um dos estudos busca lançar variedades que resistam, por exemplo, a doenças como a monilíase e a vassoura-de-bruxa, problemas que os produtores brasileiros também enfrentam”, cita a pesquisadora Mariela Leandro, coordenadora do Centro de Agricultura Tropical Alternativa e Regenerativa do Catie.
Os pesquisadores Rolando Cerda e Mariela Leandro, do Catie: centro preserva centenas de variedades de cacau e também faz melhoramento das plantas
Denise Saueressig
O centro lançou seis variedades de cacau nos últimos 15 anos e prevê que outros nove materiais estarão disponíveis nos próximos anos.
Além da atenção a problemas fitossanitários dos cacaueiros, o Catie dedica-se ao desenvolvimento de plantas mais produtivas, com potencial para até 2.000 quilos por hectare. Ao mostrar a parcela de campo onde diferentes variedades do fruto são cultivadas em sistemas agroflorestais, o pesquisador Rolando Cerda frisa: “Queremos difundir o cultivo como é na natureza, com árvores que capturam carbono e, consequentemente, ajudam a combater os efeitos das mudanças climáticas”.
Café para o mundo
O centro de pesquisa localizado no coração da Costa Rica ajudou a disseminar o especialíssimo (e valioso) geisha entre produtores de café de diferentes países. A variedade é originária da Etiópia e ganhou fama internacional depois de encontrar no Panamá as condições ideais para expressar todo seu potencial de qualidade.
Antes disso, no entanto, o geisha passou por Tanzânia e Quênia, até, nos anos 1950, chegar à América Central e ter a atenção de programas de melhoramento como o que o Catie desenvolve. “Há pouco tempo, 1 quilo de geisha alcançou preço recorde de US$ 30.000 em um leilão no Panamá. Hoje, temos cultivo da variedade até na China”, conta William Solano, pesquisador em recursos genéticos do centro.
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Com cerca de 2.000 materiais, a coleção de café do Catie teve início em 1949 e hoje é considerada a quarta maior do mundo, segundo a FAO. No continente americano, ela é a segunda maior, logo atrás do acervo do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas (SP). Entre as variedades que o local abriga, em torno de 800 são consideradas silvestres, o que significa que foram coletadas por produtores e especialistas em bosques, em seu habitat natural.
“O cruzamento dessas plantas silvestres com variedades comerciais gera híbridos com alta produtividade e qualidade de xícara”, afirma Solano.
Para o especialista, esse é um exemplo da importância de uma coleção genética. “É um trabalho que projeta o futuro da cafeicultura mundial, que é ameaçada por doenças, pragas e eventos climáticos extremos. Há fontes muito valiosas que podem oferecer ao produtor variedades com genes mais resistentes”, diz ele.
Arca de Noé das plantas
Em todo o mundo, existem cerca de 1.700 bancos de germoplasma, segundo a FAO. O maior deles, que se tornou um símbolo da segurança alimentar global, fica sob camadas de gelo e rocha em um arquipélago na Noruega, a 1.300 quilômetros do Polo Norte. Inaugurado em 2008, o Banco de Sementes de Svalbard, conhecido como “cofre do juízo final” e “Arca de Noé das plantas”, foi planejado para suportar situações como terremotos, aumento do nível do mar e explosões.
A temperatura de -18°C e o permafrost (solo congelado) atuam como “freezers” naturais, mantendo materiais genéticos viáveis por séculos. A estrutura abriga quase 1,4 milhão de amostras de sementes de 6.521 espécies e funciona como um seguro contra catástrofes ambientais, guerras e perdas irreversíveis de agrobiodiversidade.
O governo da Noruega criou e financiou integralmente o banco de Svalbard. A gestão, agora, é dividida entre o Ministério da Agricultura do país, o Centro Nórdico de Recursos Genéticos (NordGen) e o Crop Trust, organização não governamental dedicada à conservação de culturas. O armazenamento de amostras é gratuito, e os depositantes arcam apenas com os custos de envio dos materiais até a Noruega.
Amostras de sementes armazenadas
Getty Images
Ao contrário de repositórios ativos de pesquisa, o lugar funciona como um backup global, já que todo material que está na estrutura é uma duplicata do que existe em seu local de origem. O bunker norueguês teve um caso emblemático em 2015: parte do acervo do banco genético de Aleppo, na Síria, teve de ser recuperado a partir de Svalbard após danos causados pela guerra.
O cofre do juízo final também é guardião do patrimônio preservado por comunidades tradicionais, como povos indígenas e agricultores familiares. Em fevereiro de 2025, a Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama (RS) enviou para a Noruega material genético de mais de 50 variedades de plantas como feijão, milho, trigo, couve, melancia e amendoim.
As mesmas coleções também estão depositadas no Banco Genético da Embrapa (BGE), em Brasília, onde a capacidade de conservação é de 750.000 amostras de sementes e 10.000 vegetais in vitro, além de materiais mantidos em nitrogênio líquido a -196ºC no método conhecido como criopreservação.
No total, explica o pesquisador Juliano Pádua, coordenador do BGE, o local pode preservar mais de 1 milhão de amostras de DNA vegetal, animal (sêmen e embriões de diferentes espécies, principalmente de raças nativas) e de microrganismos.
Pesquisador Juliano Pádua no Banco Genético da Embrapa
Claudio Bezerra/Embrapa
“Trabalhamos com a mesma lógica de Svalbard, como uma cópia de segurança para outros 168 bancos da Embrapa e de instituições do Brasil e do exterior que nos enviam materiais. A diferença é que precisamos de energia elétrica para manter as temperaturas negativas”, detalha Pádua.
As sementes que a Embrapa recebe passam por testes de germinação em que o padrão é de 85%, ou seja, se forem distribuídas 100 sementes para germinar, 85 delas devem se tornar uma planta. Depois de se reduzir a umidade para 5%, os materiais são congelados. Eles passam por novos testes a cada 20 anos. “Se a germinação estiver baixa, solicitamos uma nova amostra ao banco que nos enviou. Assim, conseguimos preservar a quantidade e a qualidade do acervo”, detalha.
Essa mesma diversidade, que sustentou a revolução agrícola brasileira desde a década de 1970, pode, nos próximos anos, garantir a sobrevivência de diferentes espécies ameaçadas por riscos climáticos, acrescenta o pesquisador Marcos Gimenes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.
“Além da fundamental segurança alimentar, a preservação desses materiais é uma questão de soberania nacional”, salienta.
*A jornalista viajou a convite do IICA






