
A paranaense GTF, uma das seis maiores produtoras de frango do país, concluiu sua primeira captação externa, de US$ 60 milhões (aproximadamente R$ 320 milhões), movimento que deve garantir à companhia recursos para uma nova etapa de expansão no mercado externo, em um momento de avanço de concorrentes como MBRF e JBS, e para ampliar a oferta de produtos de maior valor agregado no mercado doméstico.
A captação, coordenada pelo Citi e feita por meio de uma operação sindicalizada que envolveu outros bancos da América do Sul e Central, vai ajudar a GTF a investir em 2026 montante similar ao do ano passado, cerca de R$ 200 milhões, dando sequência a um plano de expansão que mira faturamento de R$ 10 bilhões em sete anos. Para este ano, a projeção é atingir cerca de R$ 4,7 bilhões, 9% acima do ano passado.
No curto prazo, há a meta de aumentar a participação das exportações na receita, de 20% a 25% hoje para 30% a 35% até o fim do ano ou começo do ano que vem, por meio de investimentos em modernização e mais automação de plantas, disse ao Valor o vice-presidente e diretor financeiro da GTF, Vinicius Gonçalves. Outro objetivo é elevar a participação dos produtos como frango em pedaços, temperado, com peso padrão, na receita, para acompanhar mudanças de hábitos dos consumidores e trazer maiores margens ao negócio.
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“Historicamente fomos uma empresa que produziu muito volume com baixo valor agregado. Aos poucos, estamos migrando, sabemos que hoje famílias cada vez menores buscam mais praticidade, um produto com peso padrão. Então esse tem sido o nosso grande foco”, disse Gonçalves. Entre 65% e 70% do que a GTF produz hoje fica no mercado interno, dos quais cerca de 30% são de itens mais porcionados. O plano é chegar a 50% em cerca de três anos.
Uma parcela do dinheiro captado também irá para a cadeia produtiva de ovos e matrizes. Há expectativa de aumentar o abate diário das atuais 650 mil aves para perto de 1 milhão dentro de cinco anos. Os recursos também permitirão à empresa alongar o perfil da sua dívida, de dois para quatro anos na média. A GTF ainda usará parte dos dólares para fortalecer seu caixa.
Empresa familiar fundada em 1992 em Maringá (PR), com foco no abate e comercialização de frangos, e ainda hoje administrada pelo fundador e sucessores, a GTF gradualmente verticalizou operações e cresceu por meio de aquisições. Em 2015, adquiriu a Lorenz, fabricante de produtos à base de amido. Por meio da marca Canção, vende hoje mais de 38 mil toneladas de carne de frango, peixes e vegetais congelados por mês para o Brasil e mais de 100 países.
Investimentos
A captação em dólar não foi a primeira incursão no mercado de capitais da companhia que, no passado, atravessou um processo de recuperação judicial, finalizado em 2020. Em 2022, fez sua primeira emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), de R$ 83 milhões. Ano passado, captou R$ 375 milhões com um segundo CRA.
Após obter margens Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 16% em 2025 e 20% em 2024, a GTF estima retornar a níveis históricos, próximos a 11%, em 2026. Isso porque, enquanto os custos com grãos devem se manter perto da estabilidade sustentados por boas safras de soja e milho no Brasil, os preços do frango tendem a ficar pressionados pelo aumento dos plantéis, decorrente da normalização da oferta de companhias de genética avícola, segundo Gonçalves.
André Cury, head do Citi Commercial Bank para a América Latina, dá como certo que mais captações em dólar por empresas do agronegócio ocorram neste ano. “As exportadoras, principalmente, têm acesso a esse mercado, têm o interesse do investidor pelo instrumento utilizado, pela competitividade do agro brasileiro, pela profissionalização e governança das nossas empresas, pelo seu crescimento. Com certeza, teremos outras operações neste ano”, disse ao Valor.





