Logo que a Global Eggs fechou a compra da americana Hillandale Farms, por US$ 1,1 bilhão, em maio do ano passado, o empresário Ricardo Faria resolveu dar um tempo no seu objetivo de atrair um sócio financeiro para o negócio. Cansado da maratona de reuniões com assessores e com caixa suficiente, optou por, primeiro, digerir a aquisição. O plano não ficou muito tempo suspenso. A firma de private equity Warburg Pincus anunciou ontem um aporte de até US$ 1 bilhão na maior produtora de ovos do mundo.
“O que aconteceu com a Warburg Pincus foi amor à primeira vista. Teve empatia e afinidade”, disse Faria em entrevista ao Valor.
A operação avalia a Global Eggs em US$ 8 bilhões e configura o segundo maior negócio de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) anunciado no Brasil neste ano até agora — o primeiro foi a compra da CBA pela Chinalco. O investimento deixará a gestora americana com participação de pouco mais de 10% da empresa de proteína animal. Além da injeção de recursos, o negócio envolve a venda de uma pequena parcela das ações de Faria, de tamanho não revelado. A Warburg Pincus terá um representante no conselho de administração da Global Eggs.
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As negociações começaram por volta de novembro, quando a Global Eggs entrou em contato com o banco americano Morgan Stanley para retomar a procura por um investidor internacional, que pudesse agregar “sofisticação” à companhia. A instituição financeira voltou com cerca de dez nomes, mas em poucas semanas as conversas se afunilaram na Warburg Pincus.
O dinheiro captado será “100% usado para crescimento por via orgânica ou aquisições”, de acordo com Faria, e dará continuidade ao rápido ritmo de aquisições e de expansão do negócio de ovos no mercado global, onde o empresário fincou pé há menos de dois anos, com a compra do espanhol Hevo Group.
De lá para cá, além da Hillandale, a Global Eggs adquiriu outras três granjas na Espanha, encerrando 2025 com US$ 1,5 bilhão empenhados em compras de empresas. Tendo como objetivo obter 85% da receita deste ano em países de moeda forte, a companhia vai continuar buscando oportunidades na América do Norte e Europa. “Quem sabe a gente dê uma espiadinha na Ásia”, afirma. “No nosso ‘pipeline’, tem umas dez empresas para as quais estamos olhando.”
O executivo não dá projeções de crescimento sustentadas pelo investimento, mas diz que “o salto será muito grande”, inclusive porque não há necessidade de usar nada do aporte para o pagamento de dívida. A alavancagem da empresa hoje é baixa, da ordem de uma vez o Ebitda.
De olho na demanda
A expansão da Global Eggs no mercado internacional acompanha o interesse crescente dos consumidores em aumentar a ingestão de proteínas. De acordo com Faria, mais que fatores macroeconômicos, o que guia os planos da companhia é o crescimento anual de 2% a 3% do consumo de ovos.
A empresa não é a única atenta a essa tendência. Em janeiro de 2025, a gigante de carnes JBS anunciou sua entrada no setor de ovos com a compra de 50% das ações com direito a voto da Mantiqueira. Em novembro, a Mantiqueira USA, subsidiária da joint venture, anunciou a aquisição da americana Hickman’s Egg Ranch, uma das 20 maiores dos EUA.
A Global Eggs faturou mais de US$ 2 bilhões no ano passado, quando produziu 13 bilhões de ovos. Neste ano, segundo Faria, a produção deve crescer para 15 bilhões. Segundo ele, não há por enquanto um impacto visível do conflito entre Estados Unidos e Irã para a companhia. “O que mais olhamos é para o fato de que a categoria vai continuar crescendo.”
Negociação
Quando comprou a Hillandale, a Global Eggs abriu mão de um aporte de US$ 300 milhões do BTG Pactual, como noticiou o Pipeline, site de negócios do Valor. Faria também deixou de lado o plano de fazer uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e atrair um investidor financeiro. “A gente acabou entendendo que precisava fazer a aquisição, aprovar no órgão antitruste [dos EUA], virar uma companhia com a maior parte de sua operação nos Estados Unidos, e aí sim voltar a olhar para o lado”, afirma.
Ao retomar esse processo, o empresário viu na Warburg Pincus as características que buscava: um parceiro financeiro sofisticado, americano e com experiência em impulsionar o crescimento de empresas já grandes. Em contrapartida, segundo Faria, a Global Eggs oferece à gestora um histórico bem-sucedido de aquisições e capacidade de execução. Jader Pires, diretor-executivo do Morgan Stanley, afirma que há ainda outro atrativo para a firma americana. “Ricardo é um empreendedor em série com ambição global”, diz.
O aporte deixa a Global Eggs ainda mais longe de um IPO no curto prazo, embora a companhia sempre apareça nas listas de empresas com potencial para abrir capital. “Esse movimento só fortalece nosso entendimento de que não tem necessidade agora”, afirma Faria.
O dinheiro virá do Warburg Pincus Capital Solutions Founders Fund, fundo de US$ 4 bilhões fechado para captações em 2024. “Ricardo é um empreendedor excepcional e, desde o primeiro dia, compartilhamos da sua visão de construir sobre a base sólida da empresa em uma categoria com demanda duradoura”, disse, em nota, Gaurav Seth, diretor-executivo e chefe de soluções de capital para as Américas da gestora.