O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, disse nesta sexta-feira que aposta no diálogo e na negociação na discussão sobre salvaguardas no âmbito do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. A manifestação aconteceu durante entrevista ao Em Ponto, da Globo News.

“Temos que olhar o acordo Mercosul-União Europeia pelo copo meio cheio. (Durante) 26 anos nós trabalhamos, o Brasil lutou como líder aqui no Mercosul, pra que esse acordo se firmasse. O presidente Lula se dedicou muito pessoalmente, se envolveu e o acordo foi firmado”, disse.

“Agora eu vejo alguns críticos dizendo: Ah, mas tem a salvaguarda. Olha, se abriu o mercado. Eu estou olhando o potencial. As restrições e salvaguardas são um processo natural e recíproco. Veja que o Congresso Nacional deu a oportunidade legítima, soberana, do Brasil aplicar a lei da reciprocidade. Mas, por decisão política, o presidente Lula não quis usar a reciprocidade como as tarifas impostas pelo governo americano no ano passado. Preferiu a negociação, o diálogo. E se mostrou competente, eficiente nas negociações”, observou.

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Fávaro disse que considera importante contar com a opção pela salvaguarda. Mas ressaltou que, na opinião dele, o que tem que prevalecer é o diálogo e a negociação. “Tenho certeza: os produtores brasileiros serão os maiores beneficiados do acordo Mercosul-União Europeia. Somos muito mais competitivos e vamos vender mais para esse grande mercado consumidor”, resumiu.

A bancada ruralista no Congresso demonstrou preocupação com o impacto de salvaguardas unilaterais aprovadas pela UE recentemente, segundo as quais o bloco poderá suspender os benefícios tarifários previstos no acordo se a exportação de produtos sensíveis aumentar mais de 5% ou o preço interno desses itens cair na mesma proporção.
Rastreabilidade do cacau
Fávaro também defendeu um processo de rastreabilidade do cacau para evitar riscos ao Brasil. Ele fez a afirmação ao justificar a recente decisão do governo, de suspender a importação da amêndoa da Costa do Marfim.
O ministro disse que uma missão brasileira já foi à Costa do Marfim e não encontrou nenhum risco inicial relacionado à produção local. No entanto, ainda se avalia a suspeita de triangulação, em que produtos de outras origens sem liberação pelo Brasil passam pelo país para chegar o mercado brasileiro.
“Se, de fato, isso está acontecendo, temos que fazer um processo de rastreabilidade. Devemos ter a certeza do que está entrando aqui para não ter risco de doenças para a cultura cacaueira”, afirmou.
Juros proibitivos
O ministro ressaltou também que a taxa de juros no Brasil é desproporcional e uma das principais causas do alto endividamento e inadimplência enfrentados por setores no agro no país. Fávaro disse esperar que o Banco Central comece a baixar a taxa Selic, atualmente em 15% ao ano.
“As taxas de juros no Brasil são proibitivas para investimentos. Não há lógica ter uma taxa de juros de 15% com inflação de 4%. É um spread natural de 11%”, criticou o ministro.
Usando como exemplo a cadeia produtiva de soja, principal, produto agrícola do país, Fávaro pontuou que um nível crescente de endividamento levou a uma “onda” de pedidos de recuperação judicial no país. A consequência é uma incerteza no mercado financeiro, com restrição de crédito ao setor.
“Estamos passando por um momento difícil para os produtores de soja. Os preços de commodities cederam no mercado internacional, e os produtores contrataram um endividamento baseado em preços mais altos”, acrescentou.
Seguro rural
Fávaro reiterou que há uma necessidade de mudar o modelo de seguro rural no Brasil, para permitir uma melhor gestão de riscos climáticos. Destacou que o projeto sobre o assunto no Congresso Nacional é bom, mas que o governo pretende propor um substitutivo, para colocar também sobre o tema.
“Estou propondo ao ministro Haddad (Fazenda), para mandar ao Congresso um substitutivo, para que a gente possa melhorar o projeto. Vincular o seguro ao crédito, para dar garantia ao mercado de que o produtor está plantando uma lavoura assegurada”, afirmou.
Relação com o agro
Segundo o ministro, os resultados de missões comerciais do Brasil ajudaram a quebrar a resistência de setores do agro ao governo Lula. Ele reconheceu que, em meio ao cenário eleitoral de 2026, ainda há oposição dentro do setor, mas, por outro lado, disse que há um reconhecimento.
“Nada resiste aos bons resultados. Foram mais de 9 mil empresários do agro acompanhando o governo em busca de oportunidades comerciais”, ressaltou o ministro.