
O movimento de alta nas recuperações judiciais no agro nacional persiste e pode até recrudescer neste ano. No quarto trimestre de 2025, havia 493 companhias do setor em recuperação judicial, 67% mais que em igual intervalo de 2024, segundo dados do Monitor RGF obtidos pelo Valor.
Com muitos casos de crise financeira, as empresas da categoria “cultivo de soja” lideraram as recuperações no campo: eram 217 ao fim de 2025 , mais que o dobro que um ano antes, quando somavam 100 companhias, de acordo com a análise da RGF.
Além dos custos de produção considerados elevados e preços mais baixos da soja, que apertam as margens, a combinação entre restrição de crédito e juros altos têm feito o setor buscar medidas extremas para lidar com o endividamento, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Maurício Buffon. E, para ele, esse cenário tende a se agravar em 2026.
“A crise vai ser muito pior neste ano. Viemos de um nível de endividamento que tem se agravado com essa questão dos juros. Com taxas que vão de 15% a 20% nos bancos, o produtor ou empresa não consegue renegociar a dívida. O que está restando é a recuperação judicial”, disse ao Valor.
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Segundo Buffon, que também é produtor rural, o valor da saca de soja está em torno de R$ 90 a R$ 100 em Mato Grosso, líder no cultivo da oleaginosa. Para ele, para ser rentável, a saca precisaria estar entre R$ 125 e R$ 130.
Na visão do sócio da RGF, Rodrigo Gallegos, as empresas de soja, de fato, apresentam maior vulnerabilidade financeira diante do atual ambiente de juros elevados e crédito mais restrito.
“Chama a atenção o fato de que o índice relativo de recuperação judicial (IRJ) do setor de cultivo de soja é de 27,28, significativamente acima do indicador geral dos setores do agronegócio, que é de 13,53. Esse dado sinaliza que a pressão financeira sobre o segmento é proporcionalmente maior do que a observada em outros setores do agro”, afirmou o especialista.
O IRJ da RGF mede a proporção de empresas em recuperação judicial, a cada mil em atividade.
Um dos casos deferidos pela Justiça no ano passado foi do Grupo Agro Pico & Lage, que atua na produção de soja e milho, com sede em Caldas Novas (GO).
“O grupo se endividou para crescer, no momento que a produção ia bem e o preço das commodities também estava bom. Então aconteceu a tempestade perfeita, o preço das commodities caiu, e o juro subiu 750%, de 2% para 15%. Ficou impagável”, disse Douglas Duek, CEO da Quist Investimentos, coordenadora do processo da Agro Pico & Lage, em conjunto com a RM&F Advogados.
Atualmente, de acordo com Duek, o grupo está em negociação com os credores, mas segue cultivando a safra atual.
Ao mesmo tempo em que a crise no setor avançava, as exportações de soja em grãos bateram recorde no ano passado e alcançaram o volume de 108,18 milhões de toneladas, um aumento de 9,5%, conforme o Ministério da Agricultura.
Impactos no cultivo
Nesse ambiente de margens apertadas para os produtores, uma saída tem sido reduzir o ritmo de crescimento da área de plantio de soja no país, segundo Buffon. “Acreditamos em um avanço de 1,4% nesta safra (2025/26), para cerca de 47 milhões de hectares. Está longe dos números que o Brasil fazia, quando crescia o plantio de 3% a 5% a cada ano”, disse.
O presidente da Aprosoja espera uma pequena queda na produtividade, que, se confirmada, pode fazer com que a produção nacional de soja se mantenha em torno de 176 milhões de toneladas. A projeção é conservadora, uma vez que há estimativas indicando volumes de até 180 milhões de toneladas para a safra atual.
Com uma produção ainda abundante, o dirigente avalia que a saída para o setor é ampliar o consumo, com a utilização da matéria-prima para produção de biocombustíveis, por exemplo, e/ou auxílio do poder público. “A Câmara e o Senado trabalham para um projeto de lei que permita repactuação das dívidas a juros menores. Precisaríamos de um fundo com R$ 40 bilhões em financiamento para isso”.
Na avaliação de Gallegos, da RGF, a perspectiva para o agronegócio como um todo ainda é de continuidade no crescimento das recuperações judiciais, ao menos no curto prazo. “Enquanto o ambiente de juros permanecer em patamares elevados e o crédito seguir restrito, o agronegócio continuará exposto a pressões financeiras relevantes”.






