A Ecoagro começou a executar as garantias que a Aliança Agrícola do Cerrado, trading do grupo russo Sodrugestvo, deu na emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) realizada em 2023, após dar um calote no pagamento aos detentores dos títulos na semana passada.
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A companhia deu um primeiro calote nos detentores de CRA no dia 13 de janeiro, quando deixou de pagar os juros mensais. Com a falta de pagamento, a Ecoagro declarou no último dia 16 o vencimento antecipado de todo o saldo da dívida de CRA, acrescido de juros, multa, e encargos moratórios, o que resultava em um valor devido em torno de R$ 112 milhões.
Como o pagamento não foi realizado e a Aliança Agrícola não se manifestou formalmente no prazo, a Ecoagro iniciou o processo de execução das garantias.
Estas garantias incluem Certificados de Depósito Agropecuário Warrant Agropecuário (CDA/WA) de soja depositada junto à Control Union, a cessão de contratos de compra e venda dessa soja que a trading tinha com seus clientes, e uma conta em garantia (“conta escrow”) com recursos em dinheiro.

A Ecoagro disse que a execução da soja depositada junto à Control Union e os recursos nesta conta são suficientes para o pagamento integral aos investidores, considerando o valor investido e os juros. Segundo a securitizadora, o valor será liquidado até 28 de janeiro.
Histórico

A Aliança emitiu em 2023 R$ 147 milhões em duas séries de CRAs, com vencimento em 2028 e pagamentos de juros mensais, além de amortizações semestrais.

Até dezembro do ano passado, a empresa vinha cumprindo com seus pagamentos, mas já no último trimestre de 2025, a companhia começou a deixar de cumprir com o atendimento de um indicador financeiro.

Entre outubro e dezembro, a empresa deixou de atender o requisito da “razão de garantia”, que previa uma obrigação de que seus ativos dados em garantia deveriam equivaler a 120% de sua dívida. Em 8 de janeiro, a razão de garantia estava em 119%.

No dia 7 de janeiro, a companhia convocou para o dia 28 uma assembleia de detentores de CRA para que eles flexibilizassem esse indicador para 102%. Também propunha que os credores aceitassem incluir entre as garantias os direitos creditórios de “pedidos de vendas a performar”.

Em geral, o uso dos direitos creditórios de pedidos de vendas a performar é visto com ressalvas nas tratativas com credores, já que as vendas ainda não foram realizadas de fato e podem ser revistas ou até canceladas antes de serem emitidas as notas fiscais.

Na convocação da assembleia, a Aliança também pedia aos detentores de CRA que eles não declarassem o vencimento antecipado não automático por ter descumprido com o atendimento da “razão de garantia” no último trimestre de 2025.

Porém, a situação de liquidez da Aliança apertou nos dias seguintes, e a empresa acabou não depositando aos detentores de CRA o valor dos juros previsto para o dia 13.