
Enquanto a pecuária ocupa o centro do debate sobre mudanças climáticas, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. A resolução, liderada pela Mongólia e apoiada por 60 Estados-membros, visa aumentar a conscientização sobre o tema e defender pastagens saudáveis, bem como a necessidade de fortalecer a capacidade e aumentar o investimento responsável no setor.
Maior produtor de carne bovina do mundo, o Brasil conta com 160 milhões de hectares de pastagens (cerca de 19% do território nacional), sendo que aproximadamente 50 milhões de hectares são pastagens naturais. Praticamente 100% da pecuária de corte brasileira passa pelo pasto pelo menos em alguma fase da vida do animal – mesmo animais terminados em confinamento foram criados a pasto na cria ou na recria.
Já a área de pastagens degradadas é um dos temas mais controversos do setor: estimativas variam de 12 a 100 milhões de hectares, a depender do conceito adotado e da metodologia utilizada.
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“A degradação do pasto pode ser tanto em função de uma degradação da terra – o pasto que está descoberto, com erosão, etc -, quanto pode ser uma degradação que vem da presença de plantas invasoras. Em alguns biomas do Brasil isso é muito característico”, afirma a pesquisadora Patrícia Santos, da Embrapa Pecuária Sudeste.
Na avaliação da especialista, o reconhecimento da ONU reforça a importância estratégica das pastagens no debate global sobre produção de alimentos, clima e conservação. De acordo com ela, no Brasil as áreas de pasto natural estão concentradas principalmente no Pantanal, Pampa e Caatinga, mas algumas áreas também estão presentes em regiões da Amazônia e do Cerrado.
“Essas áreas foram extensivamente substituídas por pasto plantado no Brasil. Você tinha bastante pasto plantado e, a partir da década de 1980, vai havendo uma inversão. Hoje você tem cerca de 160 milhões de hectares de pastagens e cerca de 50 milhões de pasto natural. São áreas bastante vulneráveis, que precisam ser olhadas com bastante cuidado”, observa a pesquisadora.
A especialista defende que tais áreas devem ser olhadas levando-se em consideração também os serviços ambientais que prestam, e não apenas a produção de carne e leite. Por isso, ressalta que a melhor maneira de preservá-las é mantendo uma pecuária bem-feita, que respeite os limites do ambiente.
“Em algumas áreas é conveniente que tenha o pasto plantado, e em outras é conveniente que tenha o pasto natural, e muitas vezes a sustentabilidade vai vir da combinação dos dois.”
Pesquisas recentes da Embrapa apontaram que em uma área de pastagem degradada dificilmente pode-se produzir mais do que 150 kg de peso vivo por hectare anualmente. Já em uma pastagem recuperada, essa produção pode dobrar ou até triplicar.
Além disso, pastagens bem manejadas sequestram carbono, um ponto central no debate sobre a produção de alimentos na atualidade.
“Para um solo que você revolve todo ano, você promove mineralização de matéria orgânica. No solo que você não revolve, você aumenta o teor de carbono do solo. Então, nas pastagens, você tende a ter mais carbono no solo do que numa área de agricultura, que você prepara o solo todo ano”, explica Patrícia.
Potencial para alta produtividade
Uma vez que, na maioria do território, o Brasil não tem uma vegetação natural com potencial para a criação de gado, a ocupação deste território pela pecuária se deu por meio de pastos plantados – a grande “bandeira” brasileira, nestes casos, são as baquiárias. Neste aspecto, o trabalho de pesquisa da Embrapa e das universidades foi de grande importância.
“Em cima de muita fertilidade, de muita correção do solo, adubação, práticas de manejo e um clima muito favorável, esses pastos na estação das águas produzem muito. Não tem nenhum outro lugar no mundo que produza tanto pasto. Isso permite grande lotação, ou seja, muitos animais por unidade de área”, explica o professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Praticamente 100% da pecuária de corte brasileira passa pelo pasto pelo menos em alguma fase da vida do animal
Juliana Sussai / Embrapa
Daí vem a capacidade da pecuária brasileira de produzir carne a um custo muito baixo, segundo o especialista. Ele ressalta, porém, que boa parte dessas pastagens brasileiras encontra-se neste momento em um final de ciclo, 20 ou 30 anos depois de entrarem em estágio de degradação.
A integração com a agricultura e com a floresta, por sua vez, permitem a renovação de pastagens por um custo muito baixo, além da rotação de atividades na mesma área.
“Esse é o grande potencial brasileiro que continua sendo subutilizado porque muitos pecuaristas ainda não utilizam todas essas tecnologias para otimizar essas pastagens.”
“A pastagem é o grande fator de competitividade da pecuária brasileira”, resume Barcellos.
Cuidado com os pastizales
No Pampa sul-americano, um grupo de pecuaristas se organizou em 2006 com o objetivo de proteger as pastagens naturais, que eles consideram o ecossistema terrestre mais ameaçado do planeta.
Assim surgiu a Alianza del Pastizal, que hoje conta com cerca de 450 propriedades associadas no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – países que compartilham o bioma -, somando mais de 210 mil hectares de campo nativo.
A declaração do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores coincide com o aniversário de 20 anos da Alianza del Pastizal, que será comemorado em 2026. O termo pastizales refere-se aos ecossistemas campestres nativos.
Entre as atividades promovidas pela entidade estão a promoção de boas práticas de produção pecuária em campo nativo, a realização de remates de gado certificado, o apoio e a execução de pesquisas científicas e o levantamento de avifauna como indicador ambiental.
Em inglês, o termo utilizado pela ONU é International Year of Rangelands and Pastoralists.
“No nosso contexto, o termo Rangelands se refere diretamente aos campos nativos, campos naturais e pastagens nativas. Ou seja, todas as ações que desenvolvemos no Pampa, voltadas à valorização do campo nativo e ao manejo sustentável com a promoção de boas práticas pecuárias, dialogam diretamente com o International Year of Rangelands and Pastoralists, abrindo inclusive uma oportunidade de dar visibilidade internacional a essas iniciativas”, explica o coordenador da Alianza del Pastizal no Brasil, Pedro Pascotini.
Já o conceito de pastoralists está um pouco mais distante da realidade da associação, pois tem uma forte dimensão social ligada a sistemas pastoris móveis, nos quais pastores conduzem seus rebanhos conforme a disponibilidade de pastagens, algo muito comum na África, na Ásia e em algumas regiões da Europa.
“No nosso caso, os produtores rurais também podem ser entendidos como pastores, mas atuando em propriedades privadas, com uso de tecnologias e manejos mais intensivos e planejados”, observa Pascotini.
Monitoramento na era da IA
A digitalização já é uma realidade na pecuária, uma atividade que, pela sua natureza, historicamente apresenta desafios na adoção de tecnologias. Ferramentas de inteligência artificial podem facilitar o monitoramento inteligente do pasto, auxiliando o pecuarista na tomada de decisão.
Empresa de tecnologia de software de gestão, a JetBov lançou recentemente o Monitoramento de Pasto Inteligente, ferramenta que utiliza machine learning para integrar dados climáticos, vegetativos e operacionais e apoiar o planejamento da atividade.
Ferramentas de inteligência artificial podem facilitar o monitoramento inteligente do pasto
Globo Rural
A tecnologia combina sensoriamento remoto por satélite, dados climáticos e informações operacionais da própria fazenda para treinar algoritmos de machine learning. A partir desse cruzamento, o sistema cria um algoritmo específico para cada propriedade e para cada piquete, capaz de acompanhar a evolução da qualidade da pastagem ao longo do tempo, comparando períodos de uso, descanso, águas e seca.
Na prática, a ferramenta transforma dados complexos em informação visual e histórica, ajudando o produtor a tomar decisões mais precisas de manejo, reduzir o “achismo”, otimizar o uso do pasto e aumentar a eficiência produtiva sem necessidade de abrir novas áreas.
“No Brasil, ainda há muito espaço para intensificação. A maioria das fazendas não está nesse processo de piqueteamento, nem de trabalhar a nutrição de forma mais estratégica. O gargalo é sair do modelo extensivo para um mais intensivo, o que exige mais gestão, controle de manejo e entendimento do risco do negócio. É nesse ponto que entra a digitalização”, afirma o CEO da JetBov, Xisto Alves.






