Em Santo Antônio do Tauá, no Pará, a 62 quilômetros de Belém, uma fazenda de 37 hectares tem levado uma parte da Amazônia para o mundo. É na propriedade que Bruno Kato, fundador da Horta da Terra, cultiva uma série de plantas alimentícias não convencionais, como açaí, taioba, cariru, ora-pro-nóbis, jambu e vinagreira-amazônica, para atender a uma demanda que só faz aumentar, no Brasil e no exterior. Conhecidas pelo acrônimo Panc, essas espécies têm em comum seu alto valor nutricional e benefícios à saúde.
Pode-se dizer que a produção da Horta da Terra é uma resposta não apenas à procura por alimentos nutritivos e saudáveis, mas também à crescente exigência de consumidores por práticas sustentáveis no cultivo dos alimentos que levam para casa.
Nos trabalhos de campo, a empresa adota as diretrizes da agricultura regenerativa e sintrópica, um sistema que “imita” os ciclos naturais do ecossistema a fim de, com isso, aumentar a produção com o menor impacto possível ao meio ambiente. “Mostramos que é possível gerar valor e regenerar o bioma ao mesmo tempo. A estratégia foi utilizar os poderes das plantas amazônicas para promover a biodiversidade”, diz Kato.
A expansão do mercado global de alimentos funcionais ajuda a explicar o sucesso de iniciativas como a da Horta da Terra, que exporta para China, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos e já abriu negociações com potenciais novos parceiros comerciais na Alemanha e na Suíça.
Especialistas veem um amplo horizonte para o segmento ganhar ainda mais espaço no mundo, o que faz dessa uma das tendências de grande potencial para o agro explorar nas próximas décadas. Segundo a consultoria Grand View Research, especializada em pesquisas de mercado, a indústria de alimentos funcionais tem crescido, em média, 8,6% ao ano e deverá movimentar US$ 586 bilhões até 2030.
Quando o projeto da Horta da Terra começou, em 2016, a proposta da startup era ambiciosa: tornar-se a maior produtora de orgânicos da Amazônia, replicando o modelo de feiras por assinatura que ganhou corpo no Sudeste do país. A pandemia de covid-19 criou dificuldades para a empresa (e, virtualmente, para toda a cadeia de produção de alimentos), e, em 2020, ela redesenhou seu modelo de negócios.
A partir dessa virada, a Horta da Terra mergulhou em pesquisas e parcerias com universidades para mapear espécies nativas. A companhia analisou dezenas de opções até chegar ao conjunto de plantas alimentícias não convencionais – de alto valor nutricional, ricas em vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes – com o qual trabalha hoje em dia.
Equipe de campo da Horta da Terra: aposta em espécies de alto valor nutricional, ricas em vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes
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Após a colheita, a Horta da Terra transforma as plantas em pó por meio da tecnologia de liofilização, um processo de desidratação a frio com capacidade de preservar até 97% dos nutrientes. A técnica permite à empresa padronizar os produtos, dar escala ao negócio e reduzir custos de produção, além de tornar viável a logística de transporte – algo fundamental quando se está no meio da Amazônia, onde o transporte pode demorar até 12 dias de barco, afirma Kato.
Especialistas em tendências de consumo veem um quadro promissor para o futuro do segmento de alimentos funcionais e alternativos porque, na atualidade, já há indícios de fortalecimento dessa indústria. Segundo a Euromonitor, uma das líderes globais em pesquisa de mercado, no mundo, 30% dos consumidores buscam ingredientes simples e naturais.
Eles preferem opções à base de plantas e querem garantias de que os produtos são realmente sustentáveis. Parte das pessoas afirma dar preferência às marcas que ajudam a restaurar a natureza, e não apenas minimizam danos, e exige evidências robustas de que essas companhias têm um impacto positivo em biodiversidade e regeneração.
Na edição mais recente de seu relatório de previsões, a Mintel, outra importante consultoria internacional de inteligência de mercado, comentou que a preocupação com a saúde e a necessidade de aliviar a pressão sobre determinadas culturas agrícolas deverá criar um cenário propício para ingredientes nativos que ainda são pouco explorados na indústria de alimentos. Na lista de proteínas, a Mintel citou, por exemplo, produtos feitos à base de feijão-mungo, sementes de cânhamo, fungos e até insetos.
Luiz Filipe Carvalho enxergou o potencial dos pequenos invertebrados e decidiu criar grilos para a produção de alimentos e ingredientes para consumo humano. Foi assim que, no início da década, nasceu a Hakkuna, de Piracicaba (SP).
Atualmente, a startup produz cerca de 200 quilos de grilo vivo a cada 45 dias. A empresa fornece a matéria-prima para estudos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, que utiliza o material para desenvolver parâmetros de criação dos insetos e explorar a capacidade biotecnológica desses animais.
NEOCOMIDA: Insetos da startup Hakkuna
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Os resultados são promissores, afirma Carvalho. No entanto, os grilos da Hakkuna ainda não estão nos pratos dos brasileiros: a liberação do uso de insetos para alimentação humana exige liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um processo burocrático e de alto custo.
“Nós temos, além disso, o desafio da barreira cultural. Por isso, apostamos nas versões processadas, como se faz na Europa, com a venda em forma de pó, que o consumidor pode misturar com ingredientes que já conhece”, conta o empresário. “Mas o sabor do grilo é bastante neutro. Com ele, podemos fazer hambúrguer, frios, como presunto e mortadela, barra de proteína e até doces”, garante Carvalho, que define os insetos como “biofábricas naturais, extremamente eficientes, funcionais e biodisponíveis”.
Iniciativas como a da Hakkuna ainda são pouco usuais, em particular no Brasil, mas a indústria de alimentos já demonstrou estar atenta ao filão. A União Europeia, por exemplo, já liberou quatro espécies de insetos para consumo humano: larva de tenébrio, gafanhoto-migratório, grilo-doméstico e besouro-da-ninhada.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) aponta o consumo de insetos como solução estratégica para a segurança alimentar global e o combate à fome. Ao todo, mais de 120 países já consomem insetos, de 2.000 diferentes espécies, construindo um mercado que movimentou US$ 1,35 bilhão em 2024, segundo a Grand View Research. Para 2030, a consultoria projeta vendas de US$ 4,38 bilhões.
“O sabor do grilo é bastante neutro. Com ele, podemos fazer hambúrguer, frios, como presunto e mortadela, barra de proteína e até doces” – LUIZ FILIPE CARVALHO, fundador da Hakkuna
O interesse por alimentos alternativos tem crescido à medida que os consumidores relacionam o cuidado com o meio ambiente à própria saúde. Essa mudança de comportamento já começa a ter efeitos sobre o mercado europeu, conhecido por criar tendências que depois ganharão o mundo. Em pesquisa da Mintel, muitos entrevistados – 52% na Itália, 50% na Espanha, 48% na Polônia, 45% na França e 44% na Alemanha – disseram ter reduzido o consumo de peixes e frutos do mar em 2024 por receio da presença de microplásticos.
Os brasileiros também parecem estar cada vez mais atentos ao impacto de suas escolhas. Com a Pesquisa Consumo Consciente – Visão do Consumidor, de 2024, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostrou que 58% dos brasileiros consideram selos e certificações socioambientais importantes em suas decisões de compra, e um terço dos entrevistados afirmou ter deixado de comprar marcas com práticas nocivas ao meio ambiente.
Os participantes do levantamento declararam preferir alimentos e bebidas de produtores locais (25%), comercializados com embalagens recicláveis ou biodegradáveis (21%) e oriundos de produção orgânica (18%) ou de agricultura familiar (17%).
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Nessas escolhas, os consumidores ainda se queixam do preço. Mais da metade dos brasileiros considera as opções sustentáveis muito caras. “Muitas das novidades continuam concentradas nas classes A e B, porque existe uma grande distância entre o desejo de compra e quanto é possível pagar”, observa Alline Tribst, doutora em tecnologia de alimentos e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação (Nepa) da Universidade de Campinas (Unicamp). Para ela, a sustentabilidade é, sem dúvida, um dos pilares da alimentação do futuro. No entanto, para que as tendências se consolidem no mercado, elas terão que romper a barreira do nicho.
São vários os exemplos de transformações que, por acontecerem na base da cadeia, muitas vezes são silenciosas para o consumidor final, como protocolos de bem-estar animal, controle de resíduos químicos, políticas antidesmatamento e rastreabilidade da produção, afirma a pesquisadora.
“O grande desafio é equilibrar volume, sustentabilidade e acesso”, diz. “A tecnologia será uma forte aliada para diminuir custo de produção, otimizar recursos e aumentar a produtividade.” O raciocínio vale para milho, açaí, bovinos e grilos.
“Muitas novidades ainda se concentram nas classes A e B, que conseguem pagar por elas” – ALLINE TRIBST, pesquisadora da Unicamp