
O Brasil acostumou-se a celebrar, safra após safra, novos recordes de produtividade. A produção de soja saltou de 22,6 milhões de toneladas, em 1993, para cerca de 170 milhões em 2025 — uma trajetória impulsionada por ciência, empreendedorismo e competência institucional. Mas esse colosso produtivo foi construído sobre alicerces de um mundo que não existe mais.
Nosso crescimento coincidiu com a chamada “era de ouro” da liberalização comercial, entre os anos 1990 e 2010. A redução de subsídios, o fortalecimento das regras da OMC e a ascensão da China garantiram previsibilidade no fluxo de insumos e demanda. Acreditamos que a interdependência econômica seria suficiente para superar rivalidades ideológicas. Estávamos enganados.
“O mundo mudou. O agro brasileiro precisa decidir se será vítima dessa mudança ou seu protagonista.”
Desde 2018, e de forma mais intensa nos últimos anos, o sistema global entrou em ruptura. O livre comércio cedeu espaço à lógica da segurança nacional; a eficiência deu lugar à resiliência das cadeias produtivas. A multilateralidade foi substituída por uma ordem multipolar, na qual Estados Unidos, China e Rússia disputam não apenas mercados, mas esferas de influência. Hoje, o acesso a insumos, tecnologias e mercados depende cada vez mais de alinhamentos geopolíticos — e não apenas de preços.
Nesse cenário, o modelo agrícola brasileiro revela sua maior fragilidade estrutural. Nossa agricultura de commodities opera sob uma tríplice dependência externa: tecnológica, com sementes e defensivos concentrados nos Estados Unidos; nutricional, com fertilizantes importados majoritariamente da Rússia; e comercial, com exportações fortemente concentradas na China.
Essa combinação nos coloca no centro das disputas globais. Sem mudanças estruturais, permanecemos reféns das conveniências geopolíticas de quem controla nossos meios de produção ou nossa demanda. Ao mesmo tempo, o modelo dominante cobra um preço elevado: erosão do solo, perda de biodiversidade, compactação, uso intensivo de pesticidas e maior vulnerabilidade às variações climáticas.
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Além disso, apesar de seu papel no desenvolvimento do interior do país, o agro poderia gerar muito mais riqueza local. Estima-se que, de cada US$100 gerados no campo, cerca de US$65 sejam capturados por cadeias oligopolizadas a montante e a jusante do produtor. A “tropicalização da Revolução Verde” esgotou seu potencial. O modelo atual não valoriza nossos meios de produção, não maximiza o desenvolvimento e não dialoga com a nova ordem global.
A resposta estratégica passa pela transição para a Agricultura Regenerativa — não apenas como agenda ambiental, mas como estratégia de soberania nacional não bélica. A substituição de importações via bioinsumos, remineralizadores e circularidade de resíduos reduz a exposição externa. O Código Florestal, único no mundo, deve ser compreendido como ativo produtivo, capaz de gerar serviços ecossistêmicos essenciais. E o planejamento agrícola precisa descer ao nível regional, fortalecendo economias locais e reduzindo vulnerabilidades logísticas.
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As soluções técnicas já existem e estão em escala nas fazendas brasileiras, como demonstram os associados do GAAS. O gargalo não é agronômico, mas institucional e estratégico.
O Brasil precisa de um Projeto Nacional de Agricultura, suprapartidário e de longo prazo, capaz de atravessar governos. Um projeto que nos posicione não apenas como um grande exportador de commodities, mas como o fornecedor mais confiável e resiliente de alimentos e bioenergia do planeta. Uns dominam a guerra, outros dominam a indústria, mas todos precisam de alimentos – onde podemos nos destacar para nos reposicionar entre as nações.
Estamos diante de uma bifurcação histórica: permanecer em um modelo vulnerável e extrativo ou construir um paradigma autenticamente brasileiro, no qual a regeneração do solo seja base da soberania geopolítica.
*Paulo Bufon é presidente do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS)
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