
Há três décadas usada por agricultores para financiar a compra de insumos para a lavoura, a Cédula de Produto Rural (CPR) — dada como promessa de entrega do produto ou de dinheiro para pagamento da dívida — tem conquistado um novo público. Grandes companhias do agronegócio, que até então buscavam nos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) parte de crédito necessário, vêm recorrendo às CPRs públicas, versão do papel cujos recursos vêm de investidores pessoa física.
O movimento é reflexo de uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) de fevereiro de 2024, atualizada em maio de 2025, que determinou que só títulos de empresas com a maior parte da receita vinda do agronegócio podem ser lastro (levantar recursos) em CRAs. A medida trouxe incerteza para empresas como Suzano e Klabin, de papel e celulose, que viram nas CPRs públicas uma opção de crédito. Mas companhias de outros setores, como a produtora de frutas e legumes Itaueira, a empresa de frangos Zanchetta e a dona de usinas de açúcar e etanol Nardini também buscaram o papel.
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Desde a primeira operação de CPR pública, feita pela Klabin em agosto de 2025, já são R$ 6 bilhões captados em 14 transações registradas pela B3. A expectativa é de que, neste ano, o volume possa mais do que dobrar, segundo o sócio e diretor de mercado de dívida no banco de investimento da XP, Rafael Doring.
“Estimamos entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões em 2026. O principal público-alvo da CPR-F (CPR financeira voltada ao varejo) é a pessoa física. Mesmo com a queda da Selic, ainda teremos patamares de juros atrativos para esses investidores”, disse Doring ao Valor.
“Na conversa com empresas, o pipeline é bastante grande, tanto no volume quanto em número de emissões”, afirmou Guilherme Maranhão, diretor de renda fixa do Itaú BBA, que atuou na maioria das emissões. A Oliveira Trust, empresa que atua em adequações regulatórias do papel, trabalha em três novas emissões e vê bancos se adaptarem para que fundos invistam no título, disse o executivo comercial, Nilson Raposo.
Atualizações nas regras das CPRs nos últimos anos abriram caminho para que o papel chegasse às pessoas físicas. Primeiro, a Lei do Agro, de 2020, determinou a obrigatoriedade gradual do registro de CPRs, necessário para a distribuição a investidores, lembrou o superintendente de Captação e Crédito na B3, Bernardo Mello.
Posteriormente, a “Lei do Agro 2”, de 2022, expandiu mais o leque de produtos financiáveis por CPRs, incluindo os ramos de insumos, máquinas, implementos agrícolas, além da produção agrícola em si e derivados do beneficiamento ou primeira industrialização. Ampliou, ainda, o perfil dos emissores, para pessoas jurídicas dos setores incluídos.
Assim como os CRAs, CPRs públicas têm como atrativo para investidores a isenção de imposto de renda. Mas as CPRs têm um processo mais simples de estruturação, pois quem emite também é o devedor direto. Já um CRA costuma ser emitido por uma empresa para financiar outros agentes, como produtores, e precisa receber deles para pagar investidores.
A produtora de frutas Itaueira já tomava crédito com bancos via CPR antes de 2021, quando decidiu se aproximar do mercado de capitais e emitiu um CRA, segundo o diretor administrativo e financeiro, José Luíz Prado. “Foi um passo importante, mas havia excesso de intermediários para o mesmo objetivo: capitalizar a empresa. Com a CPR pública, cortamos esse caminho. Ela nos permite falar diretamente com o investidor”, disse, acrescentando que planeja mais emissões.
No Grupo Zanchetta, de frangos, o custo da captação e o prazo de amortização das CPRs públicas se mostraram “competitivos”, disse Carlos Zanchetta, diretor de Operações. A empresa fez duas captações de R$ 200 milhões cada, com amortização em 5 e 10 anos, a 100% do CDI mais spread de até 2,02%, segundo a B3. “Entendemos fazer sentido novas operações para investimentos futuros. Mas a última captação foi adequada para o ciclo atual de investimentos”, afirmou o diretor.
Para a Suzano, que captou R$ 2 bilhões em três séries, o custo abaixo do CDI criou “arbitragem positiva”, já que o caixa da companhia é aplicado com retorno acima do índice, disse a empresa em nota ao Valor, lembrando que a maior parte de sua dívida está atrelada ao dólar.
Procuradas pela reportagem, outras emissoras, como Klabin e Nardini Agroindustrial, não comentaram sobre as captações.
Entre os bancos, a visão é de que há interesse crescente também dos investidores. A perspectiva de queda da Selic deve alimentar a percepção de melhora do mercado e o interesse em garantir retorno futuro, disse o sócio e responsável pela área de agronegócio do banco de investimento da XP, Pedro Freitas. “O investidor, vendo a taxa de juros entrando numa curva de queda, tende a se posicionar, eventualmente travando retorno no longo ou médio prazo”, afirmou.






