No município de Mato Leitão (RS), a 135 quilômetros de Porto Alegre, o produtor rural Astor João Posselt, 65 anos, é uma referência. Um dos motivos foi ter sido, há mais de 30 anos, guitarrista e vocalista de bandas e um dos fundadores do grupo musical Solamar, que fazia sucesso nos bailes da região do Vale do Rio Pardo nos anos 1990. Hoje, no entanto, sua fama vem do trabalho desenvolvido na preservação do solo, uma necessidade cada vez maior diante dos desafios que o clima impõe à agricultura.
Em uma área de 47 hectares, Astor planta soja, milho e trigo. Desde 2002, sua propriedade é modelo para a prática do plantio direto, rotação de culturas, correção de solo e adubação verde. E os resultados aparecem justamente nos momentos mais difíceis.
“Quando houve estiagem, colhemos 50 a 55 sacas de soja por hectare, enquanto lavouras próximas que não adotam cuidados com o solo renderam apenas 20 sacas. No milho, alcançamos entre 150 e 170 sacas por hectare durante uma seca, enquanto terras vizinhas ficaram entre 80 e 100 sacas”, conta.
Para o produtor, proteger e qualificar o solo é a principal arma para evitar perdas com o clima.
“O que fazemos na terra é uma poupança, é um investimento. Muitos falam que dá muita despesa fazer tudo como tem que ser. Mas o solo é nossa empresa, e precisamos caprichar no trabalho para colher bem”, comenta Posselt.
“Quando houve estiagem, colhemos 50 a 55 sacas de soja por hectare, enquanto lavouras próximas que não adotam cuidados com o solo renderam apenas 20 sacas” – Astor João Posselt, produtor em Mato Leitão (RS)
Marcelo Curia
Os resultados positivos deixam evidente que há soluções simples que podem ajudar os produtores a enfrentar os desafios do clima, uma necessidade ainda mais urgente no Rio Grande do Sul. Desde 2020, o Estado enfrentou quatro grandes estiagens e três episódios de fortes chuvas que causaram enchentes devastadoras.
Em Santo Antônio das Missões, no noroeste gaúcho, o pecuarista Manoel Gamarra de Moraes também entendeu a necessidade de respeitar o solo para evitar perdas com o clima. Em 2022, após enfrentar uma forte estiagem que matou a pastagem, ele se viu forçado a mudar o sistema de produção.
“Para evitar que os animais morressem, vendemos gado e baixamos a lotação do pasto. Também passamos a dividir o campo em piquetes, para concentrar o pastejo dos animais em áreas menores”, explica.
Em sua propriedade de 57 hectares, o pecuarista mantém 40 cabeças de bovinos de corte, preservando áreas de campo nativo do bioma Pampa. “Antes, a gente vendia gado com 150 quilos, porque a pastagem seca não rendia. Agora, o gado chega a 250 quilos”, cita.
Além disso, Moraes passou a integrar o Projeto Recuperação de Biomas, uma parceria do governo estadual com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS), que busca a restauração ecológica e a conservação da biodiversidade.
“O projeto ajuda a mostrar que o campo é como uma lavoura, se não cuidar, uma hora ele vai se exaurir”, comenta Moraes. Entre as mudanças, ao invés de queimar a pastagem, o pecuarista faz roçadas, para deixar matéria orgânica no solo e reter a umidade, além de evitar erosão com chuvas.
Pecuarista de Santo Antônio das Missões (RS) preserva o campo nativo do bioma Pampa
Manoel Gamarra de Moraes/Arquivo pessoal
Já em Água Santa, no norte do Estado, uma ação desenvolvida pela cooperativa Coasa tem contribuído para o manejo sustentável das propriedades de produtores associados. Chamado de “Nosso Solo, Nossa Colheita”, o programa incentiva a conservação da fertilidade das terras e a resiliência das lavouras diante de eventos climáticos.
Um dos produtores que adota o programa é Gilson Miorando. Em seus 70 hectares, onde planta soja, milho, trigo e aveia, o agricultor sente a diferença trazida pelo trabalho com o solo, que combina plantio direto, rotação de culturas, cobertura permanente e manejo orientado à regeneração. “Em anos de seca, a produção é sempre melhor, no mínimo uns 10% a mais do que nas áreas onde não se tem todos esses cuidados”, afirma.
O sucesso do programa da cooperativa não ficou restrito ao Rio Grande do Sul. Em novembro, a ação foi apresentada durante a Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas – COP 30 – em Belém (PA), como um exemplo positivo de sustentabilidade e de agricultura regenerativa.
Lavoura de soja de Gilson Miorando em Água Santa (RS)
Arquivo pessoal