
O processo artesanal e sustentável, da colheita das melgueiras até o envase e rotulagem dos frascos de mel, rendeu à família Kutz, de Ortigueira, nos Campos Gerais do Paraná, a conquista do Selo Arte em outubro de 2024. De lá para cá, o apicultor Henrique Kutz viu o valor pago pelo quilo do produto saltar de uma média de R$ 5,20 o quilo para aproximadamente R$ 48 o quilo.
A certificação e a inauguração de uma agroindústria própria, em 2025, estão entre as ações que garantiram o aumento na geração de renda na atividade realizada pela família desde 1976.
“Foi a melhor coisa que a gente fez. Antes, o trabalho não dava resultado”, comenta Kutz, que está à frente do negócio juntamente com a esposa, o pai e o irmão.
Com o Selo Arte, certificação regulamentada pelo Ministério da Agricultura (Mapa) que atesta a qualidade, a tradição e as boas práticas de produção artesanal, o Apiário Kutz recebeu a permissão para comercializar seis dos nove tipos de mel elaborados no local em todo o território nacional.
Antes, a produção de Kutz era entregue a um intermediário comercial, que recebia o mel do apiário e encaminhava o produto para ser processado em indústrias. Agora, todo o processo é feito na propriedade, da coleta do mel até o envase do produto em bisnagas de 300 gramas, 500 gramas e 1 quilo.
A comercialização ocorre em pontos de venda e online, com 60% das entregas para o Paraná. Com aproximadamente 2,8 mil a 3 mil caixas de abelha e produção média anual de 90 toneladas de mel em anos de boa safra, Kutz mantém a apicultura na propriedade em Ortigueira e em áreas arrendadas no Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Família Kutz viu o valor pago pelo mel aumentar com a conquista do Selo Arte
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Assim como os produtos elaborados pela família Kutz, outros 26 méis de produtores rurais de Ortigueira receberam o Selo Arte entre 2024 e 2025. O município é o segundo produtor de mel do Paraná – a primeira colocação é de Arapoti -, Estado que, por sua vez, é líder do ranking nacional. O trabalho com foco na conquista da certificação está sendo promovido no município por meio de uma parceria entre o Sebrae e a prefeitura.
A iniciativa inclui ainda ações voltadas a reativar o uso do selo da Identificação Geográfica (IG) do Mel de Ortigueira – na modalidade Denominação de Origem (DO) -, concedida em 2015 pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Segundo Mariana Santana Scheibel, consultora do Sebrae Paraná – regional Centro, o processo estava “engavetado”.
Entre as causas da paralisação estavam a desativação da Associação dos Produtores de Mel Ortigueirenses (Apomel) e a falta de um conselho regulatório e de inspeção, que inclui ações periódicas de mapeamento da área, cadernos de especificação e auditorias. “Os produtores tinham um baita ativo na mão, mas estavam correndo o risco de perder esse processo”, ressalta Mariana.
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Reativação
O apicultor Cristiano Nascimento, presidente da Apomel, conta que a reativação da associação aconteceu em 2025, assim como a reinauguração da unidade de beneficiamento de mel. A unidade é mantida pela Apomel, com apoio da prefeitura e atuação do Sebrae na organização e legalização do processo. Dos cerca de 300 produtores do município, 30 estão associados no momento. “Ainda temos poucos associados ativos, mas a ideia é começar a engajar novos, o potencial é enorme”, avalia.
A capacidade da unidade de beneficiamento é receber 15 toneladas de mel por dia, para serem envasadas em tambor, balde, bisnaga e sachê. No momento, apenas bisnagas estão em produção. “Esperamos agregar valor à produção e garantir maior geração de renda aos apicultores”, afirma o presidente da Apomel.
Segundo ele, a bisnaga de 300 gramas de mel está sendo comercializada a R$ 15, o que remete a um valor de mais de R$ 40 o quilo: “sem a unidade de beneficiamento, estávamos vendendo aos intermediários por preços entre R$ 6 e R$ 11 o quilo”.
De acordo com Mariana, a meta é ter o produto fracionado, com a marca própria da Apomel e com o selo da IG ainda este ano. “Faltam alguns treinamentos para os produtores, referentes aos dados de rastreabilidade”, explica.
Mel de Ortigueira (PR) é doce, de coloração clara e sabor suave
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Atributos
A DO do mel de Ortigueira está ligada à flora diversificada da região, o que mantém os enxames populosos e resulta em um mel líquido doce, de coloração clara e sabor suave, com néctar de flores. Entre as principais floradas usadas no mel monofloral estão o capixingui, eucalipto, assa-peixe, canelas, maria-mole, gurucaia, aroeira, vassourinha, gabiroba e angico. Também é feita na região a produção de mel silvestre ou polifloral, que mistura néctares das demais espécies melíferas de Ortigueira.
O município tem uma das maiores reservas remanescentes de Mata Atlântica do Paraná e a qualidade da flora melífera sofre influência de vários fatores, como do solo e sua formação, do clima, da temperatura e da ação do homem. As diferentes fontes botânicas de néctar resultam em variações na composição química, propriedades físicas e nos atributos sensoriais do mel.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de mel em Ortigueira, em 2024, foi de 805 toneladas. Em Arapoti, município que lidera o ranking no Estado, a produção foi de 1,1 mil toneladas no mesmo período. O Paraná consolidou-se como o maior produtor de mel do Brasil, com produção de 9,8 mil toneladas.





