
A cota de importação de carne bovina anunciada na última quarta-feira (31/12) pela China deverá fazer com que o Brasil exporte menos para o seu principal cliente em 2026. O volume que exceder 1,1 milhão de toneladas por ano será taxado em 55%, o que na prática inviabiliza embarques acima desta quantidade.
Em 2025, a estimativa é de que o Brasil tenha exportado 1,5 milhão a 1,7 milhão de toneladas para o mercado chinês (os números finais ainda não foram contabilizados).
Ou seja, pelo menos 400 mil toneladas de carne bovina não deverão ser exportadas para a China em 2026. Dentro desse contexto, qual o impacto sobre os preços da carne no mercado interno brasileiro? Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam em um freio na tendência de elevação dos preços.
O coordenador de Mercados da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, diz que não se pode esperar quedas muito agressivas, mas ressalta que o mercado perde o apelo a altas que estava presente antes do anúncio das cotas.
“O movimento tradicional vai apontar para uma queda de preços que pode chegar a 5% nos cortes do traseiro bovino, que são cortes de maior valor agregado”, observa o especialista, citando como exemplos a picanha, a alcatra e o filé mignon.
A estimativa, porém, inclui não apenas a maior oferta de carne, mas também fatores sazonais e econômicos. Segundo Iglesias, o início do ano costuma registrar consumo mais fraco, com o orçamento das famílias pressionado por despesas como IPTU, IPVA e material escolar, o que reduz a demanda por cortes mais caros e favorece proteínas mais acessíveis.
Na avaliação da Agrifatto, o impacto da cota chinesa sobre os preços da carne bovina no mercado interno tende a ser limitado no curto prazo. Segundo a analista Lygia Pimentel, a medida desencadeou uma reação imediata dos frigoríficos brasileiros para acelerar os embarques ao mercado chinês. “No momento, o que estamos vendo é uma corrida para se preencher logo essa cota”, afirma.
Além disso, parte do volume que deixaria de ser exportado diretamente para a China pode ser redirecionada por meio de operações de arbitragem, principalmente via Argentina e Uruguai, países que têm cotas superiores ao volume que exportaram no ano passado.
Estabilidade inicial
Com esse cenário, a tendência para o primeiro semestre é de relativa estabilidade, com dificuldade tanto para quedas expressivas quanto para altas relevantes nos preços da carne no varejo. A pressão maior, avalia Lygia, pode ficar para o segundo semestre, quando a oferta de gado tende a diminuir e os efeitos da nova regra chinesa sobre as exportações ficarão mais claros.
Para João Figueiredo, analista da Datagro Pecuária, a imposição da cota chinesa tende a alterar o ritmo das exportações, mas não deve provocar uma queda abrupta nos preços da carne no mercado interno. De acordo com ele, a tendência inicial é de uma corrida dos exportadores para antecipar embarques e preencher o volume autorizado, o que pode manter o mercado aquecido no começo do ano.
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Na avaliação do especialista, essa antecipação muda o ritmo das exportações, concentrando volumes maiores nos primeiros meses do ano.
No mercado doméstico, o analista avalia que a medida pode gerar um efeito inicial de estabilidade, com viés pontual de baixa, mas reforça que 2026 ainda tende a ser um ano de preços firmes, diante da expectativa de oferta menor de gado e de um cenário global de escassez de carne bovina.
Segundo Figueiredo, fatores como câmbio, consumo interno e eleições devem aumentar a volatilidade ao longo do ano, limitando movimentos extremos de preço.






