A safra paulista de acerola 2024/2025 promete ser desafiadora. O atraso das chuvas e a queda no consumo geram incerteza entre os produtores de Junqueirópolis, no oeste paulista, município há décadas conhecido como a capital da fruta. Além disso, a concorrência crescente com a produção do Nordeste deve contribuir para uma colheita menor este ano.
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“Se chegar a 850 ou 900 toneladas, já vai ser bom. Talvez nem chegue a isso”, resume Osvaldo Silva, presidente da Cooperativa Agrícola de Junqueirópolis, que comercializa em média 1,2 mil toneladas por ano. Uma década atrás, o município chegou a movimentar até 7 mil toneladas por safra.
Tradicionalmente, a colheita da acerola no Estado de São Paulo começa em outubro, impulsionada pelas primeiras chuvas da primavera. Este ano, porém, a estiagem se prolongou, e a produção só ganhou volume a partir do início de dezembro.
“A acerola produz rápido. Depois da florada, em 20 a 25 dias ela já está madura. Era para termos colhido uma florada e já estar entrando na segunda. Isso não aconteceu de maneira uniforme”, explica Osvaldo.
Segundo ele, a árvore pode produzir de cinco a seis colheitas por ano, entre outubro e maio. Com o atraso das chuvas, ao menos uma florada deve ser perdida.
O produtor José Barbosa, que cultiva acerola há 20 anos em Irapuru, município próximo a Junqueirópolis, conseguiu manter o cronograma e colheu cerca de 17 mil quilos de acerola na primeira florada. “Não sabemos muito bem como vai ser o resto da safra, mas se tiver demanda a gente colhe”, diz Barbosa.
José Barbosa cultiva acerola há 20 anos em Irapuru
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Sem mercado, fruta fica no pé. “Quando não tem comprador, a gente não colhe. Não adianta encher câmara fria, porque depois o mercado não quer a acerola congelada. Ela começa a amarelar”, diz o produtor, um dos 80 que cultivam acerola na região.
Na safra passada, Barbosa colheu cerca de 70 mil quilos nos quatro hectares que mantém com a fruta. Para este ano, estima colher o mesmo volume, mas não sabe como se comportarão os preços da fruta. “Em 2024 trabalhamos com valor de R$ 2,70 por quilo. As primeiras vendas foram neste patamar, mas acredito que vai cair um pouco”, diz.
Toda a produção segue para a cooperativa, que trabalha majoritariamente com acerola in natura. A colheita do dia segue na mesma noite de caminhão para as empresas de Jundiaí, Cabreúva, Tatuí e região metropolitana de São Paulo. De acordo com o presidente da cooperativa, os estoques das industrias estão mais elevados devido à retração do consumo verificada este ano.
Valores caíram para R$ 2,50 o quilo, abaixo do praticado há três anos
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Concorrência do Nordeste
Nos últimos anos, produtores paulistas têm enfrentado concorrência direta do Nordeste, onde a produção de acerola cresceu de forma acelerada, impulsionada pela irrigação e pela demanda da indústria de vitamina C.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os Estados da região nordeste respondem por mais de 70% da produção nacional da fruta, estimada em 60 mil toneladas.
Na região, a preferência se dá pela acerola verde, que concentra níveis muito elevados de vitamina C, perto de 1,8 mil miligramas por 100 gramas (enquanto os índices da madura oscilam entre 1 mil e 1,2 mil) . “O valor da acerola verde é o dobro da madura”, diz Silva.
Ele explica que o excedente nordestino da fruta madura acaba sendo vendido a preços baixos em São Paulo, pressionando o mercado local. “Às vezes chega aqui acerola já processada, vinda do Nordeste, por um preço quase igual ao nosso produto in natura, que ainda precisa ser processado”, conta.
Apesar dos desafios, os preços pagos ao produtor seguem no mesmo patamar da safra passada. Após abrirem a temporada com R$ 2,70 o quilo, os valores caíram para R$ 2,50, patamar, embora remunerador, inferior ao praticado há três anos, de R$ 2,80.
A acerola cultivada na região de Junqueirópolis, em sua maioria, é produzida em pequenas propriedades, com colheita manual, feita com cuidado, uma vez que a fruta madura é sensível e não suporta mecanização.
“A mão de obra é um problema sério. É uma atividade sazonal”, explica o presidente da cooperativa.
Além das dificuldades econômicas, a cadeia enfrenta um problema estrutural: o envelhecimento dos produtores. “Eu tenho 76 anos. Muitos cooperados são mais velhos do que eu. Produtor abaixo de 50 anos, talvez tenha um ou dois”, afirma o presidente.
A ausência de sucessão rural limita investimentos e a adoção de novos projetos. “O produtor sabe que o filho não vai voltar para o sítio. Então ele toca uma cultura barata, enquanto consegue”, diz.
Apesar do cenário adverso, a Cooperativa Agrícola de Junqueirópolis mantém boa saúde financeira. “Paga o produtor à vista, mesmo vendendo para empresas com prazo de 30 a 60 dias, e possui estrutura industrial consolidada”, diz Silva.