A imposição de salvaguardas pela China à carne bovina brasileira trouxe incertezas para a pecuária nacional, já que o país asiático é o principal comprador do produto — em 2025 foi destino de quase metade das exportações. Mas, independentemente dos impactos que essas restrições possam causar, uma coisa é certa: a produção do chamado “boi China”, animal com características específicas para atender àquele mercado, é um caminho sem volta, segundo especialistas. Isso porque esse animal já é visto por muitos clientes internacionais como “padrão” brasileiro para a carne exportada. Também há ganhos ambientais.
Entre os pré-requisitos para ser considerado “boi China” está o abate em até 30 meses e que o animal tenha até quatro dentes. O boi também deve vir de unidades que não tenham registros de doença de “mal da vaca louca”, entre outros (ver quadro). Esses protocolos estabelecidos entre as autoridades brasileiras e chinesas, em 2004, visam a evitar principalmente casos dessa doença que atinge o sistema nervoso dos animais.
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Desde 2019, quando as exportações de carne bovina à China começaram a crescer de forma mais acelerada, a pecuária brasileira passou por uma transformação para ampliar a produção do animal com essas características e atender ao novo patamar da demanda chinesa. Os pecuaristas tiveram de investir em tecnologia para chegar a esse animal, mas também ganharam mais, já que a arroba do “boi China” tem um prêmio em relação à do boi “convencional”, abatido aos 36 meses.
A consultoria Athenagro, especializada em pecuária, calcula que, atualmente, o ‘boi China’ representa cerca de 75% da pecuária comercial brasileira, e a pecuária comercial, por sua vez, é responsável por 90% da carne que chega à prateleira do consumidor aqui no Brasil ou lá fora.
“A gente não tem como fugir mais disso, temos uma pecuária nova. Muita gente reclama porque tem maior oferta de ‘boi China’ e está diminuindo o prêmio, mas a gente acelerou a engorda dos animais, aumentou a produtividade, e o pecuarista não vai parar de fazer o boi nesse padrão tecnológico”, diz Maurício Palma Nogueira, sócio-diretor da Athenagro.
Antônio Lobato, que cria 4 mil cabeças de gado entre duas fazendas em Igarapé-Açú, no nordeste do Pará, é um dos que não irão voltar atrás. “O boi China trouxe uma melhora de preço grande, chegamos à diferença de R$ 10 por arroba em relação ao gado convencional”, lembra.
Antônio Lobato, pecuarista de Igarapé-Açú (PA)
Arquivo pessoal
Na sexta-feira (6/2), o “boi China” estava cotado a R$ 317 por arroba em Paragominas (PA), segundo a Scot Consultoria. O valor era R$ 2 por arroba superior ao do gado convencional na região. Em São Paulo, essa diferença estava em R$ 8 por arroba, com o “boi China” cotado a R$ 340 por arroba.
“Eu já abatia com 28 a 30 meses, mas os fazendeiros da minha região começaram a trabalhar muito para baixar a idade de abate”, conta Antônio Lobato A alternativa encontrada pelos pecuaristas, segundo ele, foi ampliar as estruturas de Terminação Intensiva a Pasto (TIP). Nesse sistema, os bovinos recebem uma dieta altamente concentrada com nutrientes, mesmo estando em pastagens.
Na avaliação da consultoria Ponta Agro, uma das maiores vantagens da TIP, é a redução da idade de abate, passando de 36 a 42 meses nos sistemas convencionais para 24 a 30 meses nos intensivos. Segundo a consultoria, essa redução significa uma “diferença muito considerável em termos de lucratividade”,
O pecuarista Lobato afirma que para ter essa estrutura é preciso fazer alterações no layout da propriedade, ter cochos, maquinário de transporte de ração e armazenagem. “Os valores de investimento mudam de acordo com o tamanho da fazenda, mas facilmente passam de R$ 1 milhão”, estima.
Ele não vê espaço para mudanças no sistema de produção do “boi China,” mesmo que a demanda do país asiático por carne diminua. “O boi do Brasil é o mais barato do mundo. Se a China passar a comprar mais [carne] de outros lugares, outros países vão comprar do Brasil”, avalia Lobato.
Todas as mudanças na forma de produzir o gado — promovidas pela demanda chinesa — também levaram à redução das emissões de dióxido de carbono pela pecuária, já que os bois são abatidos mais cedo. Segundo o Insper Agro Global, o boi abatido aos 36 meses emite, em média, 91,4 kg de CO2 equivalente por quilo de carne, enquanto o “boi China”, com 30 meses, tem emissão média de 5,8 kg de CO2 equivalente por quilo de carne.
“Do ponto de vista ambiental, se o gado vive menos, ele vai fazer menos fermentação entérica no processo digestivo, reduzindo as emissões. Você tem menos pressão sobre desmatamento também”, ressalta Gabriela Cruz, pesquisadora do Insper Agro Global.