
O cacique geral da Terra Indígena Sete de Setembro, Almir Suruí, caminha orgulhoso por uma das áreas que a comunidade reflorestou nos últimos 20 anos. O espaço, que ele chama de “jardim botânico”, esconde, na verdade, uma agrofloresta. Entre helicônias, orquídeas e ipês, também crescem vigorosos licuris, açaís e outras espécies nativas plantadas onde antes havia um pasto aberto por colonos invasores.
O território, demarcado em 1984 em áreas dos Estados de Rondônia e Mato Grosso, tornou-se uma referência em geração de valor com a floresta em pé. No início da década de 1990, dos 248.000 hectares do território, 7% estavam desmatados devido à exploração ilegal de madeira. Mais de 500 caminhões saíam diariamente da área carregados com mogno, cerejeira, ipê e outras espécies nativas, segundo Almir, que tinha 17 anos na época, mas já carregava o papel de liderança.
“Era um impacto muito grande. Eu vi que, se a exploração continuasse daquela forma, a gente ia deixar de existir”, relata o cacique.
Em 1994, ele convenceu as demais lideranças a desenvolver um plano de gestão, concluído em 2000. O documento marca uma transformação na vida do povo paiter suruí – do qual Almir é cacique geral – ao estabelecer o zoneamento do território, definindo quais áreas seriam exploradas economicamente e como isso ocorreria ao longo de 50 anos.
Atualmente, o plano serve de modelo para a gestão de outros 12 territórios indígenas em Rondônia e no Amazonas, segundo Neidinha Suruí, cofundadora da Associação Kanindé. “Eles viraram referência para o mundo inteiro. O que eles começaram a fazer no início dos anos 2000 virou política pública em 2012, que é a Política Nacional de Gestão de Território Indígena”, ela recorda. As mudanças, afirma, são visíveis no território. “Hoje, todas as casas têm banheiro dentro, o que não existia antigamente. Isso, para mim, é o maior símbolo de qualidade de vida.”
Os paiter suruí produzem cacau, café, banana, castanha e artesanato, que eles comercializam via Cooperativa de Produção e Desenvolvimento do Povo Indígena Paiter Suruí (Coopaiter). A cooperativa nasceu em 2017, e, quatro anos depois, o povo recebeu o Selo Nacional da Agricultura Familiar (Senaf), que passou a garantir acesso aos mercados nacional e internacional. Ao todo, são 240 cooperados, que representam cerca de 120 famílias, de 13 aldeias principais.
“A exploração ilegal de madeira tinha um impacto muito grande. Se continuasse daquela forma, a gente ia deixar de existir” – Almir Suruí, cacique geral da Terra Indígena Sete de Setembro
Tuane Fernandes / WWF-Brasil
As conquistas do povo paiter suruí são uma vitória coletiva, porém, mais que isso, elas também materializam uma das grandes tendências da atividade agropecuária para as próximas décadas: o avanço da chamada bioeconomia. O conceito é amplo, mas, em linhas gerais, a bioeconomia caracteriza-se como um modelo de produção industrial que se baseia no uso de recursos lógicos, preocupação com a sustentabilidade e valorização de conhecimentos tradicionais.
Em uma estimativa conservadora, que desconsidera os efeitos de novas políticas climáticas, a Associação Brasileira de Bioinovação (Abbi) diz que a bioeconomia poderá movimentar US$ 108 bilhões até 2050. Mas, em um quadro de intensificação das políticas climáticas, as vendas podem chegar a US$ 392 bilhões até 2050. “Com as mudanças climáticas, o mundo está passando por uma mudança inevitável no paradigma industrial. A bioeconomia surge como uma agenda altamente viável para isso”, diz Thiago Falda, presidente da Abbi.
O modelo de desenvolvimento que paiter suruí adotaram é uma “provocação à sociedade não indígena”, opina Tatiana Oliveira, líder de estratégia internacional da organização WWF-Brasil. “Eles mostram que é possível produzir, gerar renda, trabalho e dignidade de vida sem depredar o meio ambiente”, afirma.
Essa provocação tem despertado um interesse crescente de diferentes setores econômicos pela bioeconomia. “O estado ótimo da bioeconomia é o desenvolvimento sustentável que agregue valor para a sociedade sem gerar impactos negativos para o meio ambiente”, sintetiza a coordenadora do Observatório de Bioeconomia do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), Talita Pinto.
A conceituação definitiva de bioeconomia ainda é um trabalho em andamento. Segundo estimativa da FGV, cerca de 25% de toda a renda que o país gera pode ser atribuída à bioeconomia em seu conceito mais amplo, que inclui cadeias como biocombustíveis, bioinsumos, agropecuária regenerativa, entre outras que geram efeitos ambientais positivos.
Pode faltar consenso em torno da definição conceitual, mas isso não diminui a importância que atividades associadas à bioeconomia terão no futuro – e que, em muitos casos, já têm no presente. Um exemplo é a multiplicação do número de startups que atuam com bioeconomia na Amazônia.
Segundo mapeamento da plataforma Jornada Amazônia, iniciativa coordenada pela Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras) e com a participação de diferentes parceiros, cinco anos atrás, havia cerca de 200 novos negócios de inovação envolvendo bioeconomia no bioma. Desde então, o número cresceu, chegando a quase 800 startups.
“Isso é algo que antes de 2019 não acontecia. E essa transformação leva uma tendência. Hoje, nós conseguimos projetar para 2030 um número de 2.200 startups de bioeconomia com CNPJ na Amazônia”, conta Marcos Da-Ré, diretor de economia verde da Fundação Certi.
A cada “muxirum”, o produtor Natan Oliveira junta-se aos demais agricultores familiares de Poconé (MT) para um trabalho coletivo nas lavouras dos quilombos da região. A limpeza das áreas, o manejo agroecológico e a colheita são algumas das atividades que realizam a várias mãos, cada dia em uma comunidade. De origem tupi, a palavra muxirum (sinônimo de “pixirum” e “puxirum” em outras regiões do país) significa “mutirão”, “fazer juntos”, e em torno dela Natan e os demais produtores dão fôlego à bioeconomia local.
“Criamos a agroindústria para agregar valor à produção e para estimular a permanência no campo de jovens que estavam migrando para a cidade” – Natan Oliveira, produtor rural em Poconé (MT) e líder da Agriverde
Keiny Andrade
Oliveira nasceu e cresceu na comunidade quilombola Capão Verde, onde 25 famílias mantêm quintais produtivos que têm, ao todo, cerca de 20 hectares. O grupo cultiva mandioca, mas o forte mesmo é a banana-da-terra, que os próprios quilombolas decidiram industrializar.
O trabalho ocorre em uma agroindústria que tem jovens na liderança. “A ideia de criar uma agroindústria surgiu de um grupo de mulheres do quilombo, que viram ser possível agregar valor ao produto. Ao mesmo tempo, muitos jovens estavam migrando para a cidade, e elas também sentiam a necessidade de criar estratégias para incentivar a permanência deles no campo”, diz Natan.
Foi assim que, em 2006, nasceu a Agriverde, que produz bala e farinha de banana, castanha de cumbaru e banana chips, que é o carro-chefe. A agroindústria fica dentro da comunidade quilombola, e os produtores processam tanto a colheita própria quanto matéria-prima que compram de agricultores do entorno. Os produtos são vendidos em feiras, comércios locais e também em Cuiabá, conta Oliveira, de 25 anos.
Natan compartilha a gestão da Agriverde com o irmão de 23 anos. A construção do prédio ocorreu por meio de um projeto da Eletronorte, e a compra dos equipamentos, que foram chegando aos poucos, foi com recursos próprios dos agricultores. “Quando a juventude tomou a frente da operação, começamos a buscar que nos trouxessem recursos para fazer melhorias. Um deles foi o Fundo Amazônia”, relata.
Com essa estratégia, o grupo conseguiu R$ 100.000 em um edital do Fundo Casa Socioambiental e da Caixa. O dinheiro está sendo investido na modernização das plantações dos quilombolas, incluindo a compra de equipamentos de irrigação, roçadeiras e um kit de placas solares para gerar energia para o sistema. “A banana tem produção praticamente o ano inteiro, mas aqui no Pantanal estamos sofrendo muito com a seca. Na minha região, teve quem perdeu quase tudo, e isso nos levou a pensar em como poderíamos fazer a mitigação dos problemas climáticos”, afirma Natan.
Com os desembolsos, a Agriverde espera engordar os resultados. A produção de banana chips, por exemplo, é de 4,8 toneladas por ano e o faturamento de 2025 vai ficar perto de R$ 110.000. Com o ganho de produtividade que os investimentos devem assegurar, Oliveira acredita que será possível elevar em 30% o desempenho da agroindústria.
Na lista de políticas de apoio à bioeconomia já aprovadas está o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia. Com diretrizes para os próximos dez anos, a iniciativa prevê medidas como a substituição de matérias-primas fósseis por renováveis na indústria química.
O plano é parte da Estratégia Nacional de Bioeconomia publicada em junho de 2024 e que inclui ainda a criação de uma comissão e um Sistema Nacional de Dados e Informações sobre a bioeconomia, considerado um dos pilares mais importantes desta política, de acordo com a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente, Carina Pimenta.
“A reunião de dados e informações vai nos ajudar a estabelecer com clareza quais sistemas produtivos são adequados para se considerar a bioeconomia”, afirma. Nesse sentido, ela cita a Taxonomia Sustentável Brasileira, publicada pelo Brasil às vésperas da COP30 e que define, a partir de critérios técnicos, o que pode ser considerado uma atividade, projeto ou ativo sustentável.
Essa especificação é apontada como estratégica por especialistas diante da abrangência da definição de bioeconomia. Ao mesmo tempo que trata de atividades como o extrativismo e o manejo florestal, o termo também se aplica a setores econômicos consolidados, como biocombustíveis e energia.
“É possível afirmar que nem toda bioeconomia é sustentável. Ela tem o potencial de ser sustentável, mas ela, por si só, não é sustentável”, afirma Judson Valentim, pesquisador da Embrapa Acre. Ele cita como exemplo o açaí, que após ganhar o mundo e se tornar um produto de exportação, passou a ser plantado em monocultura em áreas da Amazônia e até mesmo do Cerrado, onde depende de irrigação.
* O jornalista Cleyton Vilarino viajou a convite da WWF-Brasil






