Em janeiro, quatro startups do agronegócio brasileiro receberam, ao todo, R$ 207 milhões em investimentos, segundo levantamento da Rural, empresa de investimentos e consultoria especializada no setor. O montante é dez vezes maior do que o de janeiro do ano passado e equivale a cerca de 30% de todos aportes que as agtechs receberam em 2025.
A movimentação financeira das transações do primeiro mês deste ano também corresponde a quase um terço do investimentos que as agtechs receberam ao longo de 2024. Atipicamente alto, o volume dos desembolsos pode marcar um ponto de inflexão para o ecossistema de tecnologia e inovação das lavouras do Brasil e indica que 2026 pode ser um ano “muito promissor” para as agtechs, diz Juliana Chini, sócia e responsável pela área de inovação da Rural.
Sensix, de agricultura de precisão, Fretes.com, da área de logística, e Nagro e Culttivo, ambas de crédito rural, foram as agtechs que obtiveram aportes em janeiro de 2026. Um ano antes, a única na lista foi a Promip, de insumos biológicos, que recebeu um investimento de R$ 20 milhões do fundo Inova FIP, da gestora Angra Partners.
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“Esse pode ser um início de retomada. O volume [dos aportes] de janeiro foi maior do que o de todo o último trimestre de 2025”, afirmou a sócia da Rural.
Para ela, o universo de startups do agro amadureceu bastante nos últimos anos, o que aumentou o grau de confiança dos investidores no segmento. “Muito daquele frenesi de precisar investir em algo não existe mais, e a falta de informação sobre as startups do agro está diminuindo”, afirmou.
Outro fator que alimenta o otimismo é a perspectiva de início de cortes da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. Analistas e economistas acreditam que o Banco Central começará a fazer as reduções em março, o que tende a atrair recursos para o mercado de capital de risco.
E os investimentos não devem se concentrar apenas em rodadas de venture capital, nas quais os fundos entram como sócios de startups que já estão bem estabelecidas. Estruturas de financiamento via dívida, com instrumentos como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), têm ganhado relevância, diz Chini. Nesse modelo, as agtechs acessam capital para financiar operações a partir de recebíveis, sem diluição societária. “Com a possível queda da taxa de juros em março, estamos, sim, em um início de retomada”, avalia.
Segundo o Rural Tech Report, em 2024, houve 35 operações de investimento em agtechs, com aportes que totalizaram R$ 758,5 milhões. No ano passado, tanto o número de transações (24, ao todo) quanto o volume financeiro (R$ 680 milhões) diminuíram.
As agfintechs, como são conhecidas as startups de soluções financeiras para o agro, e as de agropecuária de precisão foram os maiores destaques na lista de operações de 2024. Já no ano passado, os recursos direcionaram-se especialmente a startups de clima e biotecnologia, além das agfintechs.
As startups que atuam nos segmentos financeiro e de crédito rural seguem entre as que mais atraem a atenção de investidores, afirma a sócia da consultoria. Além delas, agtechs que desenvolvem soluções para a aplicação de insumos nas lavouras e as que buscam melhoria de eficiência no campo, como a que oferecem tecnologias de análise de solo, continuam em alta. Segundo a especialista, isso ocorre porque essas empresas entregam retorno no curto prazo, uma característica que os produtores rurais costumam valorizar.
Outros integrantes da indústria também veem um cenário um pouco mais promissor para os investimentos em agtechs. David Pierson, diretor da Syngenta Group Ventures, braço de investimentos em tecnologia agrícola da Syngenta, diz que as grandes empresas do agro acreditam que 2026 será um ano melhor que o anterior. “Talvez no segundo semestre de 2026, ou no primeiro semestre do ano que vem, voltemos a ter mais facilidade para captar recursos de investidores”, afirmou ele recentemente ao portal americano AgFunderNews, especializado em notícias sobre agtechs.