Durante a pandemia, Vinícius Soares, formado na Universidade de Viçosa, trocou a carreira de engenheiro-agrônomo em grandes indústrias de laticínios como Danone e Itambé pela de produtor de queijo Canastra de forma artesanal e sustentável em sua cidade natal de Piumhi, na Serra da Canastra, em Minas Gerais.
Na área de 25 hectares da propriedade da família, 44% estão preservados com mata nativa. No restante, ele implantou um sistema de manejo regenerativo que integra pastagem, agrofloresta e bem-estar animal das vacas leiteiras.
“A proposta é melhorar o ambiente onde estamos inseridos, beneficiando as futuras gerações”, disse ele em nota do Sebrae Minas, que o auxiliou na criação e gestão da marca da queijaria.
Ele diz que passou por um processo de amadurecimento pessoal e profissional que o motivou a deixar a carreira estável e com bom salário, para voltar às suas origens e se dedicar integralmente ao projeto da queijaria no sítio da família. “Estar perto dos meus pais e poder almoçar com minha filha tem muito valor. Ver o que construímos até aqui é muito gratificante.”
A experiência profissional em grandes empresas contribuiu para ele investir na qualidade do produto, que segue receita de sua avó. Os queijos que levam a marca Faz o Bem são produzidos com leite cru e fermento natural, permitindo a degradação natural da lactose durante a maturação, o que resulta em produtos zero lactose.
Além disso, a propriedade possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza a comercialização do produto em todo o território nacional.
Queijos de Vinícius Soares receberam prêmios
Sebrae/Divulgação
Na propriedade, Soares não utiliza agrotóxico no pasto, nem medicamentos químicos nos animais. O manejo é agroecológico, com práticas regenerativas que buscam melhorar o solo, a água, a biodiversidade e o microclima da área. O produtor adotou o sistema silvipastoril intensivo, que integra árvores, pastagem e gado na mesma área. São 3,4 hectares de pastagem rotacionada com árvores, arbustos, leguminosas e gramíneas.
A flor margaridão ou girassol mexicano, uma das espécies plantadas no sítio, tem 20% de proteína nas folhas, o que eleva a diversidade da alimentação das vacas criadas soltas. Com as 800 árvores já plantadas na área, ele acredita que, em cinco ou dez anos, estará produzindo queijo debaixo de uma floresta.
Por três anos, Soares produziu o primeiro queijo Canastra com certificação orgânica. O selo foi concedido pelo Instituto de Biodinâmica (IBD), certificadora registrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Em novembro do ano passado, ele decidiu desistir do selo, embora tenha seguido com o manejo agroecológico e regenerativo, porque observou que as restrições de insumos impactavam diretamente no desempenho do rebanho.
“A produção estava ficando inviável. Não podíamos usar milho e soja transgênicos. As vacas produziam em torno de 8,5 a 9 litros por dia. Quando deixamos o orgânico, essa média subiu para 14 litros por vaca/dia”, explica.
Em 2022, a Faz o Bem levou medalhas de prata e bronze no Mundial do Queijo do Brasil. Em setembro do ano passado, ficou em segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural (presença de mofo branco na casca), no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.
A produção das vacas mestiças é de cerca de 80 litros de leite. A venda dos queijos é feita via Instagram, Facebook e Whatsapp.
Soares não pensa em aumentar sua produção. Seu objetivo é consolidar a queijaria como referência em impacto ambiental positivo, bem-estar animal e inspiração para outros produtores.