Nos últimos anos, cresce a percepção de que a agricultura não é apenas parte do desafio climático, mas também pode ser protagonista da solução. Recuperar e manter a saúde do solo é um dos pilares dessa transformação, essencial para garantir alimentos, filtrar água e ar e proteger a biodiversidade. Afinal, tudo começa no solo.
A agricultura regenerativa consolida essas práticas através de técnicas como rotação de culturas, uso de cultivos de cobertura, plantio direto e aplicação de  bioinsumos que aumentam a eficiência produtiva por hectare e reduzem a dependência de insumos químicos. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, o potencial transformador da regeneração no processo produtivo desperta cada vez mais interesse do mercado e reforça o papel do campo na transição para uma economia de baixo carbono. 
O Brasil possui 164 milhões de hectares de pastagens, sendo que uma parte significativa dessa área está degradada ou subutilizada, segundo dados do MapBiomas1. A boa notícia? É possível reverter esse cenário. Estudos da Embrapa indicam que cerca de 28 milhões de hectares poderiam ser convertidos em áreas agrícolas produtivas.
Essa mudança abre espaço para sistemas integrados como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), capazes de aumentar a produção e sequestrar carbono no solo, chegando a taxas de 1,5 a 2,0 toneladas de C/ha por ano, segundo pesquisas do CCARBON/USP.

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O avanço dessas práticas depende de recursos. Iniciativas como o 2º Leilão Eco Invest Brasil mostram o caminho: mais de R$ 30 bilhões em capital catalítico foram mobilizados para recuperar 1,4 milhão de hectares de terras degradadas. Modelos de blended finance, que combinam recursos públicos, filantrópicos e privados, têm se consolidado como estratégia para viabilizar projetos de impacto socioambiental.
A agricultura brasileira é pioneira na adoção de práticas que ajudam a conservar a saúde do solo, com a ampla adoção do sistema de plantio direto desde a década de 1970, mas é possível fazer mais. Nenhuma transformação acontece sem quem está na linha de frente: os agricultores. Eles conhecem seus solos e sentem os impactos das mudanças climáticas no dia a dia.
Segundo estudo da McKinsey, produtores brasileiros superam em 24 pontos percentuais a média global na adoção de práticas regenerativas. Além disso, 63% já utilizam biofertilizantes e 54% acreditam que a tecnologia é chave para ganhos produtivos. É preciso fortalecer alianças com esses protagonistas, respeitando saberes locais e conectando ciência, academia e campo.
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Outro ponto importante é a mensuração dos resultados da intensificação das práticas sustentáveis adotadas no campo. Ferramentas como a BRLUC (do inglês, Brazilian Land Use Change), da Embrapa, permitem quantificar estoques de carbono e emissões associadas à mudança de uso da terra. Em paralelo, a Plataforma Agro Brasil + Sustentável, lançada pelo governo, centraliza dados para facilitar acesso ao crédito e conectar produtores a mercados que exigem práticas sustentáveis. Transparência e rastreabilidade são diferenciais estratégicos para quem deseja competir globalmente.
Enquanto se discutem formas de captar recursos para as transformações necessárias para o fortalecimento da resiliência dos sistemas agroalimentares, com o aumento da oferta de produtos financeiros voltados ao agronegócio, seguimos evoluindo na compreensão do impacto das práticas regenerativas na agricultura tropical.
A transição para sistemas resilientes exige colaboração entre todos os elos da cadeia: empresas, produtores, governo e sociedade. É hora de escalar soluções, oferecer insumos, tecnologias, crédito e certificações que impulsionem a agricultura regenerativa. Mais do que uma tendência, essa é uma oportunidade para posicionar o Brasil como líder na descarbonização da indústria e na conservação dos ecossistemas.
*Paloma Carrilli é gerente de Sustentabilidade da ADM no Brasil
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