A escalada dos conflitos no Irã está no radar do Ministério da Agricultura, mas até agora o tema tem demandado apenas acompanhamento e avaliação de possíveis efeitos na cadeia do agronegócio nacional. Ainda não houve solicitações ou consultas específicas de empresas ou entidades do setor privado à Pasta sobre o assunto.
Na avaliação do secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua, o cenário pode gerar aumento dos custos, por conta da influência nos preços do petróleo e na dificuldade de escoamento de cargas pelo estreito de Ormuz. Por outro lado, ele acredita que o papel do Brasil como provedor de alimentos poderá ganhar ainda mais destaque a depender dos desdobramentos do conflito.
“Precisamos ver ainda quais serão os desdobramentos, mas entendo que mesmo com custos transacionais eventualmente mais altos, o Brasil continuará sendo importante para apoiar na segurança alimentar. Aliás, nosso papel passa a ser ainda mais importante”, afirmou à reportagem.
“Em geral, o comércio sempre encontra seus caminhos. Dependerá um pouco da extensão do conflito, mas alimentos muitas vezes têm ‘salvo conduto’ nessas situações”, acrescentou.
Segundo Rua, a depender da evolução do conflito na região, pode haver aumento nos volumes de alimentos comprados do Brasil no curtíssimo prazo para formação de estoques de segurança. “Nós já vimos isso acontecer na região em vários outros momentos nestes últimos 15 anos”, indicou. “Mas acompanhamos com atenção a situação”, afirmou.
Fertilizantes e milho
No setor produtivo, a principal preocupação é com os efeitos de um ambiente mais especulativo, principalmente em relação aos custos de fertilizantes. “Mesmo sem afetar diretamente o comércio, o preço desses insumos já sobe. O produtor é o elo mais fraco e perde mais nessas situações”, disse o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Glauber Silveira.
O Irã é um importante importador de milho, responsável por 25% das vendas externas do cereal brasileiro em 2025, com cerca de 9 milhões de toneladas. Boa parte dos negócios desse ano já estão fechados, avalia o executivo, pois o agricultor faz a venda antecipada às tradings. As exportações só ganham ritmo, porém, a partir de julho, com a colheita da segunda safra.
Por isso, não há expectativa de impactos imediatos em embarques, mas os negócios podem ser afetados a depender da duração dos conflitos na região. “São muitas dúvidas. Não se sabe que impacto vai ter e é preocupante, mas não quebra o mercado brasileiro”, disse.