A escalada da tensão no Oriente Médio após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã deve elevar os custos de produção e logísticos do agronegócio no Brasil. Segundo analistas ouvidos pela Globo Rural, apesar de não haver previsão de quebra na demanda, com os embarques de grãos e proteína animal para a região mantidos, a necessidade de novas rotas marítimas, alta do petróleo e do dólar são efeito indiretos esperados para as próximas semanas.

“O mundo hoje não é igual ao que era na sexta-feira”, observa o analista sênior da T&F Consultoria, Luiz Carlos Pacheco. Na avaliação dele e de outros especialistas, o conflito na região não deve se alongar tal como ocorre na Ucrânia, por exemplo. “A guerra entre Estados Unidos e Irã afeta o mundo todo porque todo mundo depende do petróleo. É um conflito muito grande para se estender além de 15 dias”, destaca Pacheco.

O diretor da Brandalizze Consulting, Vlamir Brandalizze, também acredita que o conflito não se estenderá por muito tempo, tendo impacto temporário no preço das commodities agrícolas negociadas em bolsa ao mesmo tempo que há alta nos custos com fertilizantes e com logística.

“O impacto dessa guerra se dá de duas maneiras. Primeiro, na área de fertilizantes porque o Irã é um grande fornecedor de ureia para o mercado global e para o Brasil também. E também existe um uma expectativa de valorização em dólar e isso impacta no custo”, avalia Brandalizze.

A analista de mercado de fertilizantes da Safras&Mercado, Maísa Romanello, explica que, apesar de o Irã não ser um grande fornecedor direto de fertilizantes para o Brasil, país é a principal origem do gás natural usado por países que exportam nitrogenados para o Brasil, como Catar, Omã e Nigéria. “Todos esses países recebem o gás natural vindo do Irã para produção de de ureia e, caso haja uma interrupção do fluxo de gás natural, esses países serão afetados com menor disponibilidade de matéria-prima”, afirma.

Segundo ela, o cenário global já era de alta para os preços de fertilizantes, o que deve se acentuar nas próximas semanas. “O mercado já vinha precificando essas questões geopolíticas, não só no Irã, mas também na Rússia, e diante de outros fatores, como a China, que tá restringindo a sua a sua oferta para manter produto no mercado interno”, observa Romanello.

Já em relação aos embarques de produtos do agronegócio brasileiro com destino ao Irã e ao Oriente Médio como um todo, a previsão é de manutenção do comércio mesmo com custos maiores e rotas mais longas até a região.

“A leitura inicial é de que a corrente de comércio não vai ser definitivamente quebrada. Ela vai ficar mais complexa, mais difícil, mas, ainda assim, o produto brasileiro deve chegar aos seus destinos”, afirma o coordenador de Mercados da Safras&Mercado, Fernando Iglesias. A região reúne importantes mercados para proteína animal brasileira, incluindo Emirados Árabes Unidos, maior importador de carne de frango do Brasil, com 480 mil toneladas adquiridas em 2025, crescimento anual de 6%.

Já em grãos, a região se destaca como principal compradora do milho brasileiro, com o Irã figurando como principal destino das exportações brasileiras, com 9 milhões de toneladas adquiridas em 2025, seguido do Egito, com 7,6 milhões de toneladas. A maior parte dos embarques, contudo, ocorre entre julho e fevereiro, o que reduz as perspectivas de impacto sobre o setor num primeiro momento. “Provavelmente até o meio do ano, quando o Brasil volta a colher a safrinha e exportar milho, essa questão do Irã já vai estar resolvida”, completa Brandalizze.