
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) lançará hoje (24/2) a Plataforma Parque Cafeeiro, um instrumento digital que pretende comprovar a rastreabilidade da cadeia e certificar o café brasileiro livre de desmatamento. A ferramenta de gestão de dados, planejamento e monitoramento da cafeicultura nacional permitirá mapear, em tempo real, as áreas de produção, a produtividade, o perfil tecnológico e a sustentabilidade do segmento.
A plataforma tornará possível descobrir, por meio de registros legais, se a produção do café ocorreu em área desmatada depois de 31 de dezembro de 2020. Segundo a Conab, o objetivo da ferramenta é apoiar, de forma gratuita, produtores rurais, cooperativas e empresas brasileiras no cumprimento da lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR, na sigla em inglês).
A tecnologia será uma espécie de “selo sustentável” para ajudar o café brasileiro a competir no exterior, argumenta a Conab, já que, com ela, será possível comprovar que a produção é livre de desmatamento a partir da data de corte cobrada pela UE. As exigências ambientais da lei europeia deverão passar a valer no fim deste ano.
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“Essa é uma medida importantíssima para o seto. Com a plataforma, será possível manter abertas as portas do mercado comum europeu. E a Conab está sempre atenta à qualificação do produto brasileiro”, disse ao Valor o presidente da estatal, Edegar Pretto.
A Conab desenvolveu a plataforma em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outros órgãos. Com a ferramenta, os cafeicultores poderão emitir uma declaração de conformidade às regras do não desmatamento com a chancela do governo federal. Além disso, outros agentes do setor poderão acessar os relatórios para comprovar aos importadores europeus que os lotes de café são provenientes de áreas regulares.
A ferramenta integra bases de dados governamentais e públicas atualizadas regularmente via Interfaces de Programação de Aplicações (APIs). Por meio dessa tecnologia, diferentes aplicações de software se comunicam, trocam dados e executam ações de forma segura e padronizada.
Foi essa integração de dados que permitiu mapear o parque cafeeiro em todo o território brasileiro. A arquitetura da tecnologia também tornou possível estabelecer os vínculos de operações entre os imóveis rurais onde se produz café e as diretrizes de desmatamento zero a partir de 31 de dezembro de 2020 da lei europeia.
O mapeamento dos cafezais ocorreu por meio do uso de inteligência artificial. A plataforma classifica o café de modo automático, com uso de informações tridimensionais, a partir de algoritmos de aprendizagem de máquina que simulam o córtex visual humano (“deep learning”), especializados no processamento de dados com estrutura de grade, como vídeos e imagens.
A metodologia, chamada de Redes Neurais Convolucionais (CNNs ou ConvNets), analisa imagens de constelações de satélites de monitoramento terrestre com alta resolução, usadas para análise agrícola, ambiental e uso do solo. Isso permite a ela identificar lavouras em produção e em desenvolvimento e considerar mudanças que ocorreram ao longo de cinco anos, práticas de manejo e os episódios recorrentes (a “fenologia”) da cultura, como germinação, floração, e queda de folhas.
O monitoramento do desmate baseia-se nas versões atualizadas do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). A ferramenta verifica ainda se imóveis inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR) desmataram mais de meio hectare após 2020 e se não há sobreposição com terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação.






