Uma planta nativa da Caatinga tem sido estudada pela Embrapa Semiárido para ser usada como base para o desenvolvimento de bioinsumos agrícolas voltados ao controle de doenças em culturas como manga e uva. Segundo os primeiros resultados, o óleo essencial do alecrim-do-mato (Lippia grata) tem ação antifúngica e antibacteriana e pode ser utilizado tanto no campo quanto no pós-colheita.
Os estudos começaram em 2009, a partir de um levantamento de espécies aromáticas no Vale do São Francisco. Entre cerca de 25 plantas avaliadas, o alecrim-do-mato apresentou maior eficiência no controle de patógenos. “Desde os primeiros levantamentos, o alecrim-do-mato apresentou um potencial muito superior ao das demais espécies avaliadas”, afirma a pesquisadora Ana Valéria Vieira de Souza.
Além da eficiência biológica, a pesquisa avançou na viabilização do cultivo comercial. Como a planta não se propaga por sementes, foi desenvolvido um protocolo de produção de mudas por estaquia, com enraizamento sem uso de reguladores de crescimento, o que facilita a adoção por produtores.
Outro eixo do trabalho foi a padronização da extração do óleo essencial. Os pesquisadores identificaram que o uso de folhas secas aumenta o rendimento, com produção entre 3 e 5 mililitros a cada 100 gramas. A destilação foi definida como método mais adequado para preservar as propriedades do composto.
Leia também
Brasil lidera adoção de bioinsumos, mas enfrenta desafios regulatórios
Setor de bioinsumos cresceu quatro vezes desde 2020
Bioinsumos ajudam a impulsionar safrinha de milho no Brasil
As análises químicas também identificaram um perfil específico do alecrim-do-mato coletado no Vale do São Francisco, com uma composição mais potente. Segundo a pesquisadora, isso contribui para expandir o uso comercial da planta. “Os parceiros que analisaram o óleo essencial ficaram impressionados e apontaram um potencial realmente único do nosso alecrim-do-mato”, diz Ana Valéria.
Nos testes com patógenos agrícolas, o óleo apresentou efeito sobre fungos dos gêneros Lasiodiplodia, Aspergillus, Alternaria e Cladosporium. “O alecrim-do-mato foi disparadamente a espécie aromática mais eficiente”, afirma o pesquisador Pedro Martins. Segundo ele, em alguns casos houve inibição do crescimento dos fungos mesmo sem contato direto com o produto, o que amplia o potencial de uso na pós-colheita.
Com os resultados, a pesquisa avança para o desenvolvimento de formulações que permitam aplicação no campo. O foco é aumentar a estabilidade do óleo, reduzindo efeitos como volatilidade e degradação. “Essas tecnologias são essenciais para transformar o óleo em um bioinsumo seguro, aplicável a diferentes culturas e com ação antifúngica prolongada”, afirma o pesquisador Douglas Britto.
A iniciativa também prevê a inserção da cultura em sistemas de produção no Semiárido. A proposta é integrar o alecrim-do-mato a modelos agroecológicos e ampliar o uso por agricultores familiares. “A próxima etapa é levar o cultivo para parceiros, integrando desde o início os princípios da agroecologia e da bioeconomia”, afirma Ana Valéria.