
A Quaresma, período de 40 dias entre o Carnaval e a Páscoa, é sinônimo de mudança no cardápio dos brasileiros pela tradição cristã de reduzir – ou até suspender – o consumo de carne vermelha. A prática amplia a procura por peixes e frutos do mar e reforça a importância da piscicultura no abastecimento do mercado interno.
Com o aumento da demanda, algumas espécies ganham destaque nas peixarias e supermercados por diferentes motivos, como preço mais acessível, disponibilidade, facilidade de preparo ou preferência no paladar.
A líder desse ranking é a tilápia, valorizada pelo sabor suave, alto teor de proteína e baixo teor de gordura e, principalmente, ampla oferta, uma vez que o país está entre os maiores produtores do mundo, aponta a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca).
Além da espécie de água doce, a lista inclui ainda o tambaqui e o camarão vannamei. Já na pesca extrativa, a sardinha lidera em volume, enquanto panga, merluza e salmão aparecem entre os peixes importados mais consumidos.
Considerando as espécies citadas e as demais disponíveis no mercado, o maior volume comercializado é na forma congelada por questões logísticas.
“Somos um país de dimensões continentais, e distribuir peixe fresco em todas as regiões é um desafio. O pescado fresco se concentra mais no litoral e em grandes centros urbanos, com forte presença da culinária oriental, onde o consumo de salmão também impulsiona outras espécies frescas”, explica Jairo Gund, secretário-executivo da entidade.
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A Quaresma em 2026
Para este ano, a Abipesca, responsável por mais de 70% da distribuição nacional, prevê a retomada do crescimento do consumo interno após uma retração próxima de 2% em 2025, interrompendo um ciclo positivo do setor, em média, de 5%.
“Essa é a nossa expectativa caso o ambiente econômico seja mais favorável. O desempenho está diretamente ligado à economia como um todo, além de fatores externos, como o impacto das exportações para os Estados Unidos, que também afetaram a produção e o mercado interno. A queda foi influenciada pelo cenário econômico e pela redução do poder de compra do consumidor”, afirma Gun
O especialista acrescenta que a Quaresma sempre representou um pico de vendas, sobretudo, nas semanas próximas à Páscoa, mas que o padrão passa por mudanças, impulsionadas pela associação entre o pescado e a alimentação saudável.
“O consumo vem se tornando mais linear ao longo do ano. A data ainda tem a maior demanda, mas já não concentra volume como antes. E muito disso é por conta das novas gerações”.
Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), as vendas são elevadas desde 2022, com o pico histórico de 10.300 toneladas após dois anos de retração atribuída à pandemia de Covid-19.
Vendas de peixes na Ceagesp durante a Quaresma (em kg)
“Os dados mostram que, no mês em que ocorre a Semana Santa, comercializa-se, em média, 4.700 toneladas. Nos últimos três anos, a média foi de 5.105 toneladas, alta de 8% em relação à média. Olhando os demais meses, com média de 3.250 toneladas, o mês da Semana Santa comercializa 57% a mais. Logo, não vislumbramos mudanças no comportamento de consumo”, destaca Thiago de Oliveira, chefe da Seção de Economia e Desenvolvimento (SEDES) da Ceagesp.
A maior rede de abastecimento de alimentos e produtos hortícolas da América do Sul e da América Latina estima que o período religioso em 2026 deve alcançar – ou até superar – o volume comercializado no ano passado.
Como ficam os preços?
O aumento da demanda não significa, necessariamente, a elevação no preço dos pescados, avalia Jairo Gund. Segundo ele, muitas espécies são estocadas antes da Quaresma em razão do período de defeso, como ocorre com diferentes tipos de camarão, equilibrando a oferta.
Atualmente, a proibição da pesca do crustáceo está em vigor em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Maranhão. Já no Amapá, Pará e Piauí, o defeso foi encerrado em 15 de fevereiro.
“Se a safra é boa e o volume é alto, os preços tendem a cair. Se há menor oferta, os valores sobem. Outro fator relevante é a importação. Hoje, cerca de 28% do pescado consumido no Brasil é importado, com destaque para o salmão. Nesse caso, o preço depende muito do planejamento produtivo no Chile e da variação cambial. O dólar influencia diretamente o mercado interno”, explica.
Na Ceagesp, o aumento ao consumidor atinge, geralmente, três espécies: corvina (19% a 23%), pescada-branca (17% a 32%) e pescada-goete (13% a 24%). A cavalinha, por outro lado, registrou queda em 2024 e 2025 devido ao excesso de oferta.






