
Os problemas dos produtores de soja do Rio Grande do Sul com o clima parecem não ter fim. A despeito das chuvas pontuais registradas em algumas áreas nos últimos dias, a meteorologia não traz boas notícias para a cultura que vai precisar de umidade para se desenvolver bem na reta final de ciclo. Essa condição já faz consultorias reduzirem o potencial produtivo no Estado.
Em Tupanciretã, na região central do Rio Grande do Sul, Márcio Teixeira Dias acredita que, em sua lavoura de 200 hectares, já está consolidada uma perda de, no mínimo, 25% de sua produção de soja devido à estiagem. “A situação ficou drástica de janeiro para cá. Ficamos 21 dias sem chuvas até termos 18 mm de precipitação. Mas, depois disso, passamos mais 17 dias sem água. Nos pedaços de lavoura que plantamos mais cedo, a perda passa de 50%”, afirma.
Em uma primeira impressão, a lavoura verde de Dias parece que não apresenta problemas. Mas, ao verificar mais atentamente as plantas, pode-se perceber que não estão em condições adequadas. “No momento de floração e enchimento de grãos, faltou água. As plantas têm metade das vagens que deveriam, e as que existem, ao invés de três grãos, têm dois ou só um. Algumas sequer enchem o grão”, explica o produtor.
A microrregião onde Dias planta tem sido uma das mais afetadas pelas estiagens no Rio Grande do Sul. “Desde 2020 não conseguimos colher com produtividade que cubra o custo de produção por hectare. O que tem salvado a propriedade é a pecuária, se não fosse o gado, já tínhamos parado”, afirma. O produtor lembra que, na última safra, colheu entre 12 a 25 sacos por hectare, enquanto o custo gira entre 40 e 42 sacos por hectare.
Seca afetou a produção de vagens e o enchimento dos grãos de soja
Márcio Dias/Arquivo pessoal
O município de Júlio de Castilhos, vizinho de Tupanciretã, decretou situação de emergência após avaliação técnica da Emater-RS, empresa pública gaúcha de extensão rural, indicar perdas de 20% na soja plantada na região. Alencar Rugeri, diretor técnico da Emater-RS, avaliou que o principal problema para a safra deste ano é mesmo a irregularidade das chuvas.
“Em uma mesma propriedade, nós temos uma variação nas chuvas que vai de dois a 20 milímetros. Isso tem sido recorrente e a grande dificuldade para esse período”, pontuou Rugeri.
Neste momento, a Emater-RS disse que 50% dos 6,7 milhões de hectares cultivados estão em fase de enchimento de grãos. O diretor técnico da Emater admite que a safra irá perder o potencial de produção inicialmente previsto. Ainda assim, ele avalia que é cedo para falar em quebra de safra. A primeira estimativa da Emater, feita em setembro do ano passado, apontava 21,4 milhões de toneladas para a soja no Rio Grande do Sul.
“É cedo para falar em projeção, mas é óbvio que será um número menor que o previsto inicialmente. Mas não dá para dizer qual será a dimensão, pois ainda estamos num período de muita variedade climática”, afirma Rugeri.
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Previsões
Mais uma vez, as previsões são pessimistas para quem planta a soja. De acordo com Desirée Brandt, sócia-executiva e meteorologista da Nottus, os mapas não mostram escassez de chuvas, porém, os volumes seguem insuficientes para a soja.
“Não teremos chuva significativa nas próximas duas semanas, mas não vai deixar de chover. Pelo menos por um dia, nas próximas semanas, teremos o registro de precipitações, que podem vir até em forma de temporal, mas será pontual e de curta duração. Ainda assim, não é uma chuva que vai reverter esse quadro atual”, disse Brandt.
O Rio Grande do Sul, neste momento, se destoa da maioria das regiões do Brasil, que enfrentam excesso de umidade. Levantamento da Nottus aponta que, enquanto o Vale do São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, deve receber até 360 milímetros de chuva até 5 de março, o volume de precipitação para áreas centrais no Rio Grande do Sul é de apenas 55 milímetros nesse período.
De acordo com Ale Delara, sócio da Pine Agronegócios, mais que o atraso na colheita provocado pelo aumento da umidade em algumas regiões, especialmente em Mato Grosso, o clima seco das lavouras gaúchas é um fator de alerta para o mercado. Devido a esse quadro de instabilidade, a consultoria reduziu para 19 milhões de toneladas sua previsão para a colheita no Rio Grande do Sul em 2025/26. São três milhões de toneladas a menos que o estimado inicialmente para o Estado.
“Tenho relato de um cliente em Passo Fundo que ficou 20 dias sem chuva. Logo após isso, veio uma chuva de granizo que fez ele perder 30% da área de 1.300 hectares. Por sorte, a chuva não pegou na fazenda toda, somente em alguns talhões”, relatou.





