
Há milhões de anos, elas viram um boi (ou pode ter sido um gnu ou um búfalo) e pensaram: “Para que ficar sob esse sol quente se podemos nos hospedar na pança daqueles bichos?” Dito e feito. As bactérias celulolíticas, amilolíticas e pectinolíticas, que gostam de sombra, água fresca e capim, inauguraram a parceria de maior sucesso na natureza: ruminantes e bactérias.
Devem ter entrado pela boca, junto com o alimento, e foram se alojar no rúmen. Mas, claro, imagino que não tenha sido um processo fácil, e só depois de milhões de tentativas a coisa deu certo. Os ruminantes evoluíram em simbiose com as bactérias comendo capim fibroso (que nós, humanos, não comemos), que alimenta a legião de bactérias que habita sua pança, e essas bactérias, por sua vez, excretam seus preciosos metabólitos que os ruminantes transformam em energia e proteína para si mesmos.
Mas, para ter carteirinha de morador oficial do rúmen, não é fácil. Primeiro, é preciso saber viver sem ar (ser um microrganismo anaeróbio); depois, ter um monte de parentes na colônia, pelo menos 1 milhão por grama de conteúdo ruminal, para morar em vários rúmens diferentes pasto afora e, claro, produzir algo que seja útil para o hospedeiro. Ah, e é preciso ser feito de muita proteína, pelo menos a metade do “corpo”.
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Se passar nesse check-list, aí sim, pode receber um nome pomposo como Ruminococcus flavefaciens, Ruminococcus albus ou Fibrobacter succinogenes, bactérias que se especializaram em digerir celulose (a parte dura do capim); Bacteroides amylophilus, que digere o amido; ou Streptococcus bovis ou Selenomonas ruminantium, que digerem pectina, além de muitas outras espécies.
Curiosamente, as hóspedes do rúmen que digerem gordura são mais raras, e, possivelmente, as Anaerovibrio lipolytica devem se sentir meio isoladas, o que recomenda cautela na inclusão de gorduras na dieta de ruminantes.
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Se a convivência entre boi e bactérias já é espantosa, também espanta o fato de as bactérias do rúmen terem aprendido a dividir o espaço de sua moradia. Com elas, protozoários e fungos formam uma sociedade organizada e cooperativa, um dos arranjos biológicos mais complexos e harmoniosos que se conhece, vital para a base da cadeia alimentar: energia do sol, planta, CO2, água, ruminantes, bactérias, carne, leite.
A invenção master do universo, que conecta seres autotróficos (as plantas e algas que produzem seu próprio alimento) aos seres heterotróficos primários (que comem plantas), e estes aos secundários e terciários (carnívoros). O caminho natural da vida.
E aí, milhões de anos depois, começou-se a falar de emissão de metano pelos ruminantes como se eles fossem vilões do meio ambiente. Eles já estavam por aqui muito antes de instalarmos milhões de fábricas em que se queima carvão ininterruptamente; muito antes de cutucarmos as entranhas da Terra para extrair petróleo, que, em contínua combustão, coloca em um movimento eterno de poluição bilhões de automóveis, trens, navios e aviões.
Discutir as mudanças climáticas é fundamental, mas hipocrisia e cortina de fumaça (mais uma, e agora metafórica) não ajudam.
*Luiz Josahkian é zootecnista e superintendente técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ)
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