Após o avanço experimentado durante a pandemia de covid-19 e nos anos seguintes, o ritmo de crescimento do mercado de plant-based no Brasil perde fôlego. Ainda há crescimento, mas não nos níveis vistos anteriormente. Especialistas ouvidos pelo Valor divergem sobre o futuro da demanda, enquanto pesquisas indicam que esse mercado ficou menor.
Dados da Euromonitor compilados pelo The Good Food Institute (GFI), organização que apoia projetos no mercado de proteínas alternativas, mostram desaceleração no segmento de carne feita à base de plantas. Em 2021, as vendas do produto no varejo brasileiro cresceram 36% em relação ao ano anterior, movimentando R$ 576 milhões. Em 2024, houve aumento de 14%, para um montante de R$ 1,12 bilhão.
Ricardo Laurino, vice-presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), reconhece que o setor aproveitou o fator novidade para atrair o consumidor.
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“Antes da pandemia pouco se ouvia falar em produtos plant-based no Brasil, e a grande maioria da população não tinha acesso a esses itens”, afirma. Mas durante a covid esse mercado “despertou curiosidade, com apelo forte na saudabilidade e preocupações com as questões climáticas”, acrescenta. Para ele, a euforia com o mercado durante a pandemia foi tamanha que os prognósticos de crescimento foram superestimados.
“Talvez os grandes investidores tenham se frustrado, quando de repente imaginavam um incremento de mercado de 20% ao ano, devido a todo o apelo criado em torno do plant-based, com novas indústrias entrando no segmento e ainda todas as campanhas difundidas na mídia”, afirma Laurino.
Ricardo Laurino: “Talvez os grandes investidores tenham se frustrado, quando de repente imaginavam um incremento de mercado de 20% ao ano”
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A diminuição do ritmo de crescimento desse mercado pode ser vista no varejo. Nas lojas do Hirota Food Supermercados, que tem 18 unidades na Grande São Paulo, por exemplo, há cinco anos, os clientes contavam com 20 produtos de carne à base de plantas nas gôndolas. Hoje esse número caiu para 15.
“Quando começou esse movimento [de carne vegetal] houve muita ajuda da indústria na recomposição do custo. Mas como as vendas não cresceram, algumas pararam de fazer promoções, e outras até descontinuaram alguns produtos”, conta Celso Kayo, diretor comercial do Hirota Food.
Anderson Rodrigues, conselheiro de negócios no setor plant-based, observa que companhias que investiram pesado nas proteínas à base de plantas perderam espaço no mercado nos últimos anos.
“Nas empresas que tentaram imitar no quesito sabor e textura produtos de origem animal, percebeu-se que a demanda foi colocada em dúvida, pois não conseguiram entregar o que foi prometido. Tanto que o mercado de capitais tirou investimento de algumas dessas companhias”, observa.
O exemplo mais nítido de empresa que surfou a onda (e depois tomou um caldo) no mercado de plant-based talvez seja o da americana Beyond Meat. Fundada em 2009, a companhia é considerada pioneira nas vendas de proteína vegetal nos EUA. Nos últimos anos, no entanto, empilha prejuízos sucessivos em suas demonstrações financeiras, atribuídos, principalmente, à queda na demanda.
Na Bolsa de Nova York, onde os papéis da empresa atingiram uma máxima de US$ 234 em 2019, eles agora oscilam abaixo de US$ 1, levando a ação da Beyond a ser classificada como uma “penny stock”, termo usado para empresas com ações abaixo de US$ 1.
No setor de leite vegetal, grandes empresas também viram seu valor de mercado derreter nos últimos anos. Em 2021, o Valor noticiou que a sueca Oatly, a maior produtora de leite vegetal do mundo, levantou US$ 1,4 bilhão em sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na Nasdaq. Com pico de US$ 574 em junho de 2021, a Oatly hoje tem seus papéis cotados na casa dos US$ 12.
Sérgio Pflanzer, professor do curso de engenharia de alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador da área de plant-based, diz que há muitos fatores para justificar o desinvestimento em empresas ligadas a esse segmento.
“Os plant-based surgiram com apelo de serem nutritivos, mas na verdade são considerados alimentos ultraprocessados, e portanto com indicação de redução do consumo. Ao analisar uma carne feita de proteína de soja, deve-se levar em conta o fato de que é preciso processar bastante a matéria-prima para chegar ao produto final. Além disso, nada se compara a qualidade das vitaminas e minerais presente nos leites de origem animal. Então, o dinheiro que veio fácil para essas indústrias durante o boom do mercado acabou, quando os investidores perceberam que não havia como o setor entregar o que prometeu”, afirma.
Bebidas vegetais
A despeito dos percalços vividos principalmente para as carnes feitas à base de vegetais, os especialistas ouvidos pelo Valor relataram um desempenho mais sólido para as bebidas vegetais, com destaque para o leite. No Hirota, enquanto a variedade de proteína vegetal ficou menor, a oferta de bebidas com essa mesma característica passou de 16 para 25 itens nos últimos cinco anos.
“Entre 2020 e 2022 as vendas de produtos plant-based quase dobraram nas nossas unidades. Mas a partir de 2023 até agora, as vendas de leites vegetais cresceram 30%, enquanto as vendas de carne vegetal caíram 40%. No caso das bebidas, há muita competição entre as marcas e a procura tem sido boa”, afirma Celso Kayo.
Em relatório, o The Good Food Institute observa que a diversificação de ingredientes e a entrada de novas marcas a partir de 2019 continuam sendo fatores-chave para a evolução das vendas das bebidas vegetais. Desde 2022, as vendas de leite vegetal crescem ao menos 10% no varejo, com faturamento saindo de R$ 615 milhões naquele ano, para R$ 748 milhões em 2024.
Especialistas divergem sobre projeções de mercado
Os altos e baixos vividos pelo plant-based nos últimos seis anos explicam as oscilações nas projeções de longo prazo feitas para o segmento. Em 2021, levantamento da Bloomberg Intelligence estimou que o mercado global movimentará US$ 162 bilhões até 2030. Mas em janeiro deste ano, a MMR Statistics, consultoria indiana que atua com pesquisas de mercado, calculou que o setor global de alimentos à base de plantas sairá de US$ 30,41 bilhões em 2025 para US$ 54,41 bilhões em 2032.
Ao falar de perspectivas para o mercado brasileiro de plant-based, Ricardo Laurino, da Sociedade Vegetariana Brasileira, espera demanda aquecida este ano, mas evita falar em números. “Acredito que o setor continuará crescendo. Digo isso porque mudou a percepção de oferta. Há cinco anos você não encontrava opções veganas em restaurantes, nem mesmo nas grandes redes. Isso mostra o processo de estabelecimento desse mercado no país”, afirma.
No caso do Hirota Food, Celso Kayo estima incremento de 10% nas vendas de bebidas à base de vegetais em 2026. Para ele, mesmo com a queda na oferta de produtos em suas lojas, as vendas de carne vegetal devem ficar estáveis no fechamento deste ano.
Anderson Rodrigues, conselheiro de negócios no setor plant-based, fala em transformação do segmento desde que ele chegou ao Brasil. Essas mudanças criam um horizonte favorável no quesito demanda, segundo ele.
“O setor passou por uma evolução tecnológica nos últimos anos, que permitiu à indústria investir em melhorias no sabor, textura e nutrição de novos produtos. Isso permitiu uma proporção maior de produtos de melhor qualidade que no passado. Também cresceu entre os consumidores a consciência de que os plant-based são mais saudáveis e sustentáveis, já que não fazem uso de produtos de origem animal”.
Para Sérgio Pflanzer, professor da Unicamp, o setor de plant-based não repetirá a bonança vista nos primeiros anos de atuação no Brasil. Ele ainda é enfático ao traçar um horizonte para as companhias que estão no segmento. “A demanda vai despencar, pois se com todo o investimento no período da pandemia esse mercado não amadureceu, não será agora e sem verba que isso vai acontecer”, afirma.
“Outro ponto é o custo alto, que sempre foi um fator limitante. Havia expectativa de redução nos produtos conforme a produção ganhasse escala, mas o que temos hoje é o quilo da carne vegetal acima de R$ 100, pois não dá para ter escala sem ter aumento das vendas”, acrescenta.
Procuradas pela reportagam para comentar o cenário de vendas de carne vegetal no país, JBS, Fazenda do Futuro e MBRF não se pronunciaram.