Em meados de janeiro, o produtor rural Fabrício Leonardi de Lima estava se preparando para colher a lavoura de soja e, em seguida, dar início ao plantio de milho na sua propriedade em Corbélia, no oeste do Paraná. Ele dedica 500 hectares à segunda safra e comemora a rentabilidade do cereal.
“Tenho o mesmo lucro que consigo com a soja na safra de verão”, relata. Há alguns anos, Fabrício optava por outras alternativas na rotação de culturas, como feijão e trigo. “Eles não traziam rentabilidade. O trigo não tem preço nem mercado, e o feijão, pior ainda ”, justifica. “O milho substitui bem.”
O atrativo de ter demanda garantida, a alta produtividade e a boa capacidade de se adaptar bem aos humores do clima têm aumentado o interesse dos agricultores paranaenses pelo cereal. Não é coincidência, portanto, que o grão já dispute com a soja, ano a ano, o primeiro lugar na colheita de grãos.
O milho foi campeão em volume de produção no Paraná em duas das últimas cinco safras, e, agora, produtores e analistas já vislumbram um cenário em que a cultura se isolará na liderança no Estado.
“O milho está em expansão e deve se tornar a principal cultura do Estado dentro de dois ou três anos. Em muitas regiões, ele já está mais vantajoso do que a soja”, avalia Edmar Gervásio, administrador do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e Abastecimento.
Essa é a leitura também do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Paulo Bertolini. “O milho está fazendo uma revolução silenciosa. No Paraná, ele vai ultrapassar a soja em pouco tempo, assim como já ocorreu em Mato Grosso, onde o volume passou o da soja há duas safras”, diz.
Hoje, a área das duas culturas ainda é bem diferente no Estado, onde a soja ocupa mais de 5,8 milhões de hectares, e o milho, pouco mais de 3,1 milhões de hectares. Mas, para Carlos Hugo Godinho, coordenador de conjuntura do Deral, uma série de fatores pode fazer a área de milho aumentar rapidamente no curto prazo.
“Um exemplo é a (variável) tecnológica, que tem ganhado notoriedade nos últimos anos. Quanto mais precoces ficam as cultivares de soja, mais se torna possível plantar o milho na sequência”, afirma. Sem projetar números, Godinho enfatiza que o aumento de produtividade não está atrelado ao crescimento da área. “Atualmente, a tecnologia é muito mais determinante para o aumento da produção do que a área”, diz.
Lavoura de milho: no Paraná, a cultura tem crescido, em parte, com a ocupação de áreas antes destinadas a feijão e trigo
Henry Milleo
“O milho está fazendo uma revolução silenciosa. No Paraná, ele vai ultrapassar a soja em pouco tempo, assim como já ocorreu em Mato Grosso” – Paulo Berolini, presidente da Abramilho
Na outra ponta dessa mudança, trigo e feijão vêm perdendo espaço no Estado. Na primeira safra, o milho tem ocupado áreas que antes destinavam-se ao feijão. É o caso das lavouras que estão no campo e que estão em trabalho de colheita desde janeiro, que cresceram cerca de 20% sobre terras que antes eram da leguminosa.
“Na segunda safra, a concorrência maior tem sido com o trigo, que não tem obtido bom desempenho nos últimos anos. A tendência é que a produção do cereal diminua no Estado daqui para a frente”, analisa Edmar Gervásio.
Segundo levantamento de novembro do Deral, o custo variável de produção do milho no Paraná foi, em média, de R$ 39,09 por saca na primeira safra e de R$ 38,74 na segunda safra. Já o preço médio pago pela saca foi de R$ 56,36 no ano passado. No mesmo período, o custo de produção do trigo foi de R$ 72,43, com preço médio de R$ 73,10 por saca. “Nesse caso, o produtor de trigo levou prejuízo”, resume Gervásio.
Já o custo de produção de soja foi de R$ 58,39 no mesmo período, e o preço médio da saca de 60 quilos, de R$ 118,88 no ano. Nesse caso, a vantagem do milho está no fato de ter produtividade maior. A soja rendeu 3.800 quilos por hectare, e o milho, 10.862 quilos por hectare na primeira safra e 6.276 quilos por hectare na segunda.
Paulo Bertolini, da Abramilho: cultivo de milho especial para consumo humano
Henry Milleo
Analistas percebem um agricultor atento, com grande foco na busca por eficiência produtiva, que faz ajustes estratégicos de área e toma decisões cada vez mais com base em dados sobre condições climáticas e sinais do mercado. Para obter a produtividade esperada no campo, o produtor Fabrício de Lima diz que tem investido mais, principalmente na compra de insumos e no aspecto operacional da lavoura. “Estamos investindo em torno de R$ 4.000 por hectare, com a expectativa de rendimento lá na frente”, conta.
Em sua fazenda, a produtividade média tem sido de 140 sacas (8.400 quilos) por hectare. “Hoje, sabendo produzir, com os melhores materiais e clima bom, é possível ter uma boa produção. O desafio é correr atrás de rentabilidade, tentar reduzir custos, saber quando vender e negociar”, afirma.
Segundo ele, os maiores gargalos são o preço dos insumos e também dos combustíveis, o que o faz considerar vantajoso o modelo que adotam as cooperativas agrícolas da região, como Coopavel e Copacol, com as quais mantém uma relação favorável de troca entre insumos e grãos.
Nos Campos Gerais, Bertolini cultiva em torno de 1.000 hectares de milho, distribuídos em seis áreas nos municípios de Carambeí, Castro e Piraí do Sul. As propriedades são certificadas para a produção de milho especial destinado a consumo humano, entregue a uma empresa do ramo de petiscos.
O produtor lembra que, na região, reconhecida pelo alto nível de tecnologia no campo, os produtores cultivam apenas o milho de primeira safra. Um diferencial na propriedade que ele tem em Carambeí é a estrutura de silos próprios, que está em processo de ampliação.
“Há algumas décadas, temos investido na armazenagem dentro da fazenda, uma etapa que sempre teve um papel estratégico para nós. Ela abre oportunidades não só de fazermos a comercialização do grão no momento ideal, mas também de alcançar mercados diferenciados, que pagam melhor”, ressalta. Bertolini também trabalha com o milho commodity, em menor escala.

Estúdio de Criação
Para a temporada 2025/26, o Deral informou na Previsão Subjetiva de Safra que publicou em janeiro que a área de cultivo na primeira safra deverá aumentar, passando de 281.000 hectares para 339.300 hectares. O órgão também prevê aumento de produção: o volume, que foi de 3 milhões de toneladas no ciclo 2024/25, deverá chegar a 3,5 milhões de toneladas em 2025/26.
Já na segunda safra, o documento informa que a área deverá crescer em torno de 1%, para 2,8 milhões de hectares, o que, caso se confirme, será um novo recorde no Estado. A estimativa para a produção na safrinha é de 17,4 milhões de toneladas, volume considerado alto, ainda que ligeiramente inferior ao da colheita excepcional do ciclo anterior, que foi de 17,6 milhões de toneladas.
O Deral observa que o resultado final dependerá do desempenho da soja, especialmente no oeste do Estado, já que o bom andamento da colheita melhora as condições para se conseguir o melhor aproveitamento possível da janela de plantio do milho. Em 2025, o volume na segunda safra cresceu 35%, para 17,6 milhões de toneladas, consolidando o Paraná como o segundo maior produtor de milho safrinha do Brasil. Na primeira colocação ficou Mato Grosso, o maior produtor de milho do país, que colheu 55,1 milhões de toneladas na safrinha.
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Na temporada 2025/26, as duas safras de milho do Paraná deverão totalizar 20,9 milhões de toneladas, segundo as contas do Deral, um volume bastante próximo da estimativa para a colheita de soja no Estado, que é de 22,2 milhões de toneladas. Já a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima colheita de 20,3 milhões de toneladas de milho e 20,4 milhões de toneladas de soja no Paraná em 2025/26.
A produção paranaense distribui-se por regiões que têm perfis diferentes entre si. Gervásio observa que o oeste do Estado é gigante na safrinha, o que se deve diretamente à integração entre o cultivo e a criação de aves e suínos. As regiões norte e noroeste também têm áreas extensas de plantio na safrinha de milho. Os municípios dos Campos Gerais têm foco em altíssima produtividade na primeira safra, e o centro-sul tem se consolidado como grande produtor de milho verão e silagem.
O avanço consistente da cultura também tem sido sustentado pela forte demanda interna e pelo dinamismo da cadeia de proteínas animais. O crescimento da avicultura, suinocultura e piscicultura tem impulsionado a cadeia de produção desses segmentos, o que inclui a compra de milho para a elaboração de ração animal. “Com incentivo das cooperativas, o milho oferece mais segurança ao produtor, uma vez que a comercialização está garantida dentro desse ciclo”, diz Gervásio.
Outro elemento essencial da demanda é a instalação de usinas de etanol. “Haverá muitas vantagens para os produtores, com abertura de mercado, liquidez, contratos, fixação de preço futuro. Assim como em Mato Grosso, as usinas de etanol vão mudar a realidade do milho no Estado”, acredita Bertolini.
Um dos empreendimentos que sinalizam fortalecimento da demanda é a usina que a Coamo está construindo em Campo Mourão. De acordo com Airton Galinari, presidente-executivo da Coamo, a cooperativa deve receber neste ano quase 4 milhões de toneladas de milho, das quais 600.000 toneladas devem seguir para a produção de biocombustíveis.
A usina, que terá uma termelétrica associada para a produção de energia, deve entrar em operação até o fim do ano. O complexo terá capacidade para processar 1.700 toneladas de milho por dia e produzir 765.000 litros de etanol a cada 24 horas, além de subprodutos como farelo e óleo.
O presidente da Coamo cita outros diferenciais da cultura, como o surgimento de variedades cada vez mais adaptadas à região, mais produtivas e que têm ciclos mais curtos. “O produtor avalia a rentabilidade, e o milho remunera muito mais. É perigoso o produtor apostar que irá ganhar dinheiro com trigo, que virou uma cultura de alto risco”, completa Galinari.
“O produtor avalia a rentabilidade, e o milho remunera muito mais. É perigoso o produtor apostar que vai ganhar dinheiro com trigo, que virou uma cultura de alto risco” – Airton Galinari, presidente da Coamo.
Bertolini, presidente da Abramilho, associa o crescimento da produção, também, ao crescimento da soja, que ocorre graças a aspectos como acesso a biotecnologia, melhoramento genético, ciclos mais curtos e adoção de boas práticas, plantio direto, mecanização e controle de doenças e pragas. “O ciclo soja-milho criou uma sinergia que permitiu ao Paraná ter uma segunda safra de milho cada vez mais segura. Isso impulsionou a produção”, opina.
O dirigente acredita que, para que o crescimento do milho se intensifique e a cultura se isole na liderança da colheita de grãos no Paraná, deixando a soja para trás, o Estado precisa avançar no ganho de eficiência no período pós-colheita, nas frentes de armazenagem e logística. “O déficit de armazéns de grãos vem se agravando no país a cada ano. E o milho é o principal afetado”, afirma. Segundo ele, o ideal é que a armazenagem se concentrasse nas próprias fazendas.
O Brasil produz três safras de milho todos os anos. De acordo com as estatísticas da Conab, na temporada 2024/25, a produção total cresceu 22,1% em comparação com o volume do ciclo anterior, alcançando 141 milhões de toneladas, um recorde. Na segunda safra, a maior delas, o volume da colheita alcançou 113,2 milhões de toneladas. Mato Grosso, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul são, nessa ordem, os Estados que lideram a produção brasileira do cereal.
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Henry Milleo