Em uma temporada marcada por recordes de inadimplência e de pedidos recuperações judiciais no campo, endividamento crescente e maior aversão ao risco no mercado, o crédito rural concedido pelas instituições financeiras nas linhas tradicionais de financiamento aos produtores recuou quase 13% no acumulado dos sete primeiros meses do Plano Safra 2025/26 na comparação com o mesmo período do ciclo anterior.
De julho do ano passado até janeiro deste ano, os desembolsos somaram cerca de R$ 207,3 bilhões, R$ 30 bilhões a menos que em igual intervalo da temporada 2024/25, quando a concessão chegou a R$ 237,4 bilhões.
Custeio e investimento tiveram recuos de 23%. Os valores para custear a produção caíram de R$ 135,1 bilhões para R$ 117 bilhões nos sete meses terminados em janeiro. Com apetite menor para investir num cenário de juros altos, as operações de longo prazo, sobretudo para compra de máquinas, regrediram de R$ 65 bilhões para menos de R$ 50 bilhões. Os desembolsos para comercialização caíram 14%, para R$ 19,6 bilhões. Já os empréstimos para industrialização subiram 42%, para R$ 20,6 bilhões.
A queda no acesso às linhas de crédito rural é concentrada nos grandes produtores, que têm recorrido ao financiamento via Cédulas de Produto Rural (CPR), cuja contratação é menos “burocrática” e sem incidência de IOF. Segundo o Ministério da Agricultura, os desembolsos desses títulos avançaram 37% no período e saltaram para R$ 143,22 bilhões até janeiro.
Pequenos e médios produtores tiveram concessões de crédito semelhantes nos períodos comparados. Os dados foram compilados pela reportagem a partir do sistema do Banco Central no início desta semana e podem mudar conforme a data de consulta. O levantamento não inclui as CPRs.
As informações divergem dos valores contratados, que são maiores, pois algumas operações ainda não foram efetivamente liberadas nas contas bancárias dos agricultores. Mesmo assim, só há crescimento nas CPRs, que não são inseridas no sistema do BC.
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O Ministério da Agricultura disse, em comunicado, que o ambiente está mais restritivo por fatores de demanda e de oferta de crédito. “Do lado da demanda, os produtores rurais priorizaram o custeio, essencial para a produção imediata. Do lado da oferta, as instituições financeiras adotaram postura mais cautelosa, influenciadas pelas elevadas taxas de juros”. Segundo a Pasta, há uma “mudança no perfil de captação de recursos pelos produtores rurais brasileiros”, com preferência pelas CPRs e retração nas linhas tradicionais.
Mesmo com a reserva de orçamento para equalização de financiamentos a juros controlados na segunda metade da safra e o início do circuito das feiras agropecuárias, a demanda pelos recursos para investimentos deverá continuar aquém do esperado, por conta do aperto com o nível elevado das taxas de juros e o endividamento.
Os relatos dos produtores que visitaram a Show Rural Coopavel, em Cascavel (PR), nesta semana, a dirigentes de bancos foram de preocupação com dívidas e custos altos da safra, principalmente por conta das margens mais apertadas no momento.
“Os produtores estão mais cautelosos para novos investimentos e há um maior conservadorismo na concessão de crédito que exige garantias reais. Mesmo quem acessa [empréstimos com] taxas com algum subsídio ainda assim precisa apresentar garantias reais para viabilizar as operações”, afirmou Roberto França, diretor de Agronegócios do Bradesco, ao Valor.
“Falta crédito, e está todo mundo tentando resolver os problemas de capital de giro e endividamento”, disse, sob anonimato, o executivo de outro banco que atua no crédito rural e esteve na feira no Paraná.
O desempenho do Moderfrota, principal programa para compra de máquinas agrícolas do Plano Safra, está 55% menor. Até janeiro, haviam sido concedidos R$ 2,7 bilhões em pouco mais de sete mil operações contra R$ 6,1 bilhões de 13,4 mil financiamentos no mesmo período da safra 2024/25, quando a Selic estava em 12,25%.
Em evento no Banco Central na semana passada, o subsecretário de Política Agrícola e Negócios Agroambientais do Ministério da Fazenda, Francisco Erismá, disse que, na avaliação da Pasta, a redução na aplicação do crédito rural em geral “é muito pequena e está dentro do que esperávamos”.
Nesta semana, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, disse, em entrevista a um canal de televisão, que a perspectiva de queda da taxa Selic a partir de março tornará o financiamento ao campo mais fluido ainda em 2026, com reflexos na construção do próximo Plano Safra (2026/27), que entrará em vigor em julho.
Ele afirmou que há dinheiro nos bancos, mas falta crédito, em alusão ao cenário de restrição nas concessões diante do avanço da inadimplência, do endividamento e da onda de recuperações judiciais. Fávaro usou a palavra “crise” para ilustrar o momento.
O programa de renegociações de dívidas rurais aberto em outubro de 2025 e encerrado nesta semana não usou os R$ 12 bilhões disponibilizados pela União. Até a sexta-feira (6/2), eram cerca de R$ 7,5 bilhões na linha pública operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Outros R$ 36 bilhões foram renegociados com recursos próprios dos bancos.
Na visão de Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Negócios do Sicredi, a perspectiva mais clara de cortes na taxa Selic no início do ano e a expectativa de juros menores na próxima safra 2026/27, a partir de julho, levam produtores a adiar investimentos. “Em todas as vezes que vivemos isso, houve uma postergação das decisões de investir. Na nossa visão, o ritmo dos investimentos vai cair, ainda que mantendo um avanço em relação à safra anterior”, afirmou ao Valor.
Apenas as cooperativas de crédito apresentaram desempenho melhor nesta safra, com crescimento nos recursos concedidos. Foram R$ 51,3 bilhões contra R$ 46,4 bilhões entre julho de 2024 e janeiro de 2025. No Sicredi, por exemplo, houve crescimento de 4% nas operações de custeio expansões acima de 40% nos financiamentos de comercialização e investimentos para pequenos e médios produtores.
Bancos públicos tiveram a maior retração, de R$ 134,4 bilhões para R$ 101 bilhões. Os bancos privados mantiveram o desempenho, com pouco mais de R$ 44 bilhões nos sete meses.
Segundo Freitas, a expansão das cooperativas não é algo novo, já que em momentos de restrição de crédito essas instituições exercem um papel anticíclico. “Todas as instituições estão com dificuldade de manter o ritmo, por inúmeras razões, mas as cooperativas têm feito o esforço de manter seus associados atendidos, assim como de atender a vazios deixados por aquelas instituições que decidiram reduzir o atendimento ao produtor”, apontou.