
Em meio à queda no consumo de feijão, acentuada recentemente pela onda das canetas emagrecedoras, entidades do setor produtivo buscam formas de fazer o alimento voltar a ganhar espaço no prato brasileiro. Um grupo de representantes da cadeia produtiva, liderado pelo Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses (Ibrafe), reuniu-se ontem, em São Paulo, para debater o tema e traçar um diagnóstico sobre a questão.
Entre os motivos apontados para o declínio do consumo de um alimento tipicamente brasileiro estão o desconhecimento sobre o seu valor nutricional, preconceito, falta de praticidade no preparo. De acordo com o presidente do Ibrafe, Marcelo Lüders, o consumo per capita no país é de cerca de 12 quilos, mas o número já foi maior.
Segundo estimativa da Embrapa Arroz e Feijão, de 2023, o consumo médio aparente per capita de feijão-comum naquele ano era de 12,8 quilos por habitante. Em 1996, era de 18,8 quilos.
“É muito difícil encontrar alguém que diga que deixou de comer feijão porque achou algo mais gostoso. A decisão quase sempre passa pela praticidade”, afirmou. Por isso, o presidente do Ibrafe defende a inclusão do feijão pronto na cesta básica.
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A queda no consumo de feijão é atestada por pesquisa científica. Segundo Fernanda Serra Granado, doutora em saúde pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), houve redução no consumo regular, ou seja, em cinco ou mais dias na semana. Uma prevalência estimada no futuro apontou que essa tendência se manteria até o ano de 2030. “O feijão é mais que um alimento, é um símbolo identitário da nossa cultura alimentar”, disse Granado, durante o encontro.
A febre das canetas emagrecedoras também preocupa o setor produtivo, não apenas de feijão, devido à mudança nos hábitos alimentares. “Pode ser um problema para alimentação, para saudabilidade, no sentido de a pessoa optar por alimentos talvez menos saudáveis, mais práticos e que deem menos saciedade, pela própria dificuldade da caneta de fazer com que a pessoa consuma grandes volumes”, observou a diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), Andressa Silva.
Um primeiro passo em busca de uma solução para a queda do consumo no país, dado ontem na reunião, foi a criação de um comitê, do qual farão parte representantes de produtores, indústria, consumidores e instituições de pesquisa.
Preços em alta
Enquanto o setor discute formas de fomentar o consumo, uma combinação de estoques baixos, redução do plantio e problemas causados pelo clima tem feito os preços do feijão subirem mesmo durante a colheita da safra de verão, a primeira safra. E como a produção da segunda safra só deve chegar ao mercado em maio, os preços tendem a permanecer mais altos até abril, na avaliação do Ibrafe.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o feijão-carioca de melhor qualidade atingiu R$ 297,93 a saca de 60 quilos no leste de Goiás, na sexta-feira (6/2), alta de 12,77% no mês. O preço do feijão-preto no sul do Paraná atingiu R$ 183,23 a saca, aumento de 4,43% no mês, com uma oferta mais confortável.
“Neste momento, a gente está colhendo a primeira safra. Ela foi cerca de 20% menor em carioca e 20% a 25% menor em feijão-preto. Os preços começam a subir e o plantio da segunda safra vai refletir no abastecimento lá para maio. Então temos até abril um período em que é possível ter uma subida de preços”, afirmou Lüders.
Em sua avaliação, os preços devem se manter acima da média do ano passado ao longo do primeiro semestre. No segundo semestre, tudo vai depender do plantio da terceira safra, que é irrigada.
De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área plantada com feijão na primeira safra deve alcançar 807,6 mil hectares no ciclo 2025/26, uma queda de 11,1% em relação ao mesmo intervalo da safra 2024/25. A produção prevista é de 983,6 mil toneladas, queda de 7,4%. Já o plantio da segunda safra está 88,8% concluída no país — há um ano estava em 99,1%.






