
Em Diamantino (MT), uma das 10 cidades mais ricas do agronegócio brasileiro, o futuro de Durval Queiroz Neto parecia seguir um roteiro previsível na criação de gado de corte. Mas a vida mudou o rumo da história, e ele trocou os campos do agronegócio por outros bem diferentes: os da NFL.
Mesmo com o caminho traçado, o filho mais velho da quarta geração de uma família de pecuaristas, criado na fazenda em meio a cavalos, bois e cabritos, viu os planos mudarem ainda na faculdade de agronomia, quando teve o primeiro contato com o futebol americano. Duzão, como é carinhosamente chamado, decidiu abrir mão da segurança no agro para apostar no sonho de disputar a maior liga do mundo.
“Conheci o futebol americano em 2010, em Tangará da Serra (MT). Foi amor à primeira vista. Estava andando na rua quando me pararam por eu ser grandão. Disseram que não tinham equipamento, que era tudo muito amador. Mesmo assim, fiquei apaixonado. Era a paixão pelo campo, onde cresci, de um lado, e o futebol americano, do outro”, conta à Globo Rural.
O início não foi fácil. Ele se mudou para Cuiabá para atuar profissionalmente na modalidade, ficando ainda mais longe da família em Diamantino. Nos três anos seguintes, passou pelo Cuiabá Arsenal e pelo Galo FA, até ser convocado para a seleção brasileira, o auge da carreira para qualquer atleta no país. Mas queria mais.
O objetivo naquele momento era entrar em uma das 32 franquias da NFL. Assim, deixou o futuro na pecuária em segundo plano, ao menos temporariamente, e viajou aos Estados Unidos. “O máximo que eu conseguiria no Brasil era chegar à Seleção, e eu consegui. Mas lá era diferente. Existe todo um protocolo, e eu já estava mais velho. Mesmo sabendo disso, não desisti”.
Em abril de 2019, o defensive tackle (defensor maior) foi anunciado pelo Miami Dolphins, da Flórida, depois de passar pelo International Player Pathway Program, projeto que seleciona atletas estrangeiros para a liga. Duzão não foi apenas um dos quatro escolhidos por clubes da Divisão Leste da Conferência Americana. Ele entrou para a história como o primeiro atleta vindo do Campeonato Brasileiro a atuar na NFL.
“Ficamos quase seis meses sem resposta até a ligação do comitê. Eles souberam da minha história e me chamaram para um teste. Eu passei e fiquei três anos no Miami Dolphins. Tive que aprender rápido sobre profissionalismo, competição e liderança. Foi uma grande oportunidade”, diz.
O porte físico, com 1,94 metro e 150 quilos, ajudou no processo, mas a base no judô, esporte que praticava desde criança e já era faixa-preta e campeão nacional, foi um diferencial importante para a aprovação.
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O retorno ao Brasil e ao agro
O que começou como uma paixão na faculdade virou profissão. E mesmo longe de Diamantino, Duzão nunca perdeu a conexão com as origens durante os três anos na NFL.
Desde 2022, quando retornou definitivamente ao Brasil, ele retomou a ligação com o campo ao assumir a propriedade da família, aplicando os conhecimentos adquiridos no curso técnico agrícola, na faculdade de agronomia e no esporte.
Eu também decidi empreender na área fitness e ainda tenho restaurante, franquia de açaí e choperia, além da vontade de atuar com mais afinco em algum produto do agro. Tudo o que estudei me ajudou muito na NFL, afirma Duzão.
A gente passava quase 10h por dia estudando o adversário. O playbook tinha mais de 300 jogadas, parecia o manual de uma turbina de avião. O time acreditou em mim e confiou que eu conseguiria absorver tudo aquilo, finaliza.





