
Já faz dois anos que o viticultor Leonel Caliari, que cultiva videiras na Campanha gaúcha, conseguiu eliminar totalmente o uso de herbicidas. E isso foi possível porque ele implantou a cobertura verde de solo no vinhedo que ocupa sete hectares da propriedade em Santana do Livramento.
No início de fevereiro, Caliari começou a colheita de parte das uvas da safra 2025/26 e comemora: “Erva daninha, zero”. E acrescenta que o azevém, planta que ele adota para a cobertura verde, funcionou muito bem. “Agora é só colher a uva, que está bonita e sadia”, diz.
Caliari enviou para a Globo Rural imagens do desenvolvimento do parreiral desde junho de 2025, quando as videiras ainda estavam em dormência. Já o azevém, naquele momento estava verde no solo. A planta possui um ciclo vegetativo de inverno, ou seja, se desenvolve sem competir com o parreiral.
Assim, durante todo o ciclo de desenvolvimento das uvas, o azevém forma uma barreira física natural contra as plantas daninhas. No final do ciclo, a cobertura verde vira uma espécie de palhada no solo.
Da esquerda para a direita: área do parreiral em junho, agosto e setembro
Arquivo pessoal
O produtor lembra que ervas daninhas, quando surgem no parreiral, podem impactar a produtividade e a qualidade da fruta. Isso ocorre porque há uma competição direta pelos recursos essenciais que a videira necessita para se desenvolver.
O caminho para eliminar a aplicação de herbicida começou há mais de dez anos, quando a tecnologia foi implantada na propriedade. Com capacidade de ressemeadura natural, o azevém foi plantado nas entrelinhas.
Produtor elimina uso de herbicida com cobertura de solo em vinhedo
Bem manejada, a cobertura verde se torna uma alternativa ao herbicida: “O azevém compete de maneira eficiente com as plantas daninhas e evita o desenvolvimento de espécies invasoras”. Para a limpeza do local e controle da vegetação são realizadas roçadas.
À esquerda, vinhedo em janeiro deste ano, e à direita, uvas colhidas este mês na propriedade de Leonel Caliari
Arquivo pessoal
Difusão da tecnologia
Thompson Didone, enólogo e responsável pelo apoio técnico regional da Emater-RS na Serra gaúcha, ressalta que o órgão de extensão rural atua na difusão da tecnologia e do manejo de plantas de cobertura de solo desde a década de 1980.
Segundo ele, atualmente, a maioria dos viticultores da região – que é a principal produtora de uva do Rio Grande do Sul -, utiliza a cobertura verde no solo. A tecnologia é difundida também pelas cooperativas do setor.
Didone enumera várias vantagens para o uso da cobertura verde nos parreirais, entre elas a melhoria da estrutura do solo, evitando erosão, elevando a matéria orgânica na área e fornecendo nitrogênio às videiras. Além disso, diminuição da população das plantas espontâneas e as consequentes redução ou eliminação do uso de herbicidas nos vinhedos.
O técnico ressalta que há várias plantas recomendadas pela Emater para utilização na cobertura verde, a depender do tipo de solo. Na Campanha, onde está a propriedade de Caliari, o solo é franco-arenoso. Já nos municípios da Serra, o solo é declivoso. “Outras plantas são recomendadas, mas o efeito de proteção é o mesmo”, afirma. Na Serra, as coberturas verdes mais utilizadas são aveia-preta, ervilhaca e nabo forrageiro, além do trevo e do azevém.
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“Cada situação pede uma planta para a cobertura verde. Em solos com pouca fertilidade, por exemplo, se recomenda o plantio de aveia-preta e ervilhaca, uma vez que a leguminosa retira o nitrogênio do ar e o fixa no solo pobre”, explica Didone. Já para solo compactado, a indicação é o nabo forrageiro, que tem raiz pivotante, o que ajuda na descompactação do solo.
Adotar as recomendações da quantidade de semente por hectare e da forma de plantio são essenciais para que a massa verde se forme no solo, seguida da palhada, com o objetivo de eliminar a utilização de herbicidas. “Chega em um ponto em que será necessário somente o manejo das ervas espontâneas”, pontua o especialista.
Didone revela que estão em fase de testes como cobertura verde em vinhedos da Serra gaúcha, ainda, cereais de inverno desenvolvidos pela Embrapa Trigo que não tiveram bons resultados como semente. Estão sendo testados em unidades demonstrativas cultivares de trigo, aveia, centeio, cevada, entre outras.
Colheita
Nesta safra, o produtor Leonel Caliari estima uma produtividade de oito a dez toneladas de uva por hectare, o que está dentro da média para a região, tendo em vista o clima favorável durante o ciclo. Ele cultiva uvas para a produção de vinhos e espumantes como a Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet e Marselan. A colheita iniciou pela Chardonnay, destinada à produção de espumantes, e deve se estender até o início de março.
Caliari destaca que a implantação da tecnologia da cobertura verde e a não utilização dos herbicidas trouxe sustentabilidade à atividade, com benefícios para o meio ambiente e para a saúde dos trabalhadores, assim como gerou economia. Ele acredita que reduziu os custos de produção em cerca de R$ 2 mil a R$ 3 mil por safra sem a compra dos produtos químicos e a contratação de mão de obra para aplicação.
Cooperado da Vinícola Salton, de Bento Gonçalves, ele conta que recebe apoio e assistência técnica para a condução do sistema de produção e da cobertura verde.
Benefícios da cobertura verde do solo nas videiras
Previnem e combatem o processo de erosão;
Facilitam a infiltração de água no solo;
Elevam o teor de matéria orgânica no solo;
Reduzem as oscilações de temperatura no solo;
Rompem as camadas adensadas;
Melhoram a estrutura do solo;
Fornecem nitrogênio às videiras;
Reciclam os nutrientes do solo;
Reduzem a lixiviação dos nutrientes;
Diminuem a população de plantas espontâneas;
Fornecem substratos para microrganismos do solo;
Reduzem ou eliminam o uso de herbicidas.
Fonte: Emater-RS/Ascar






